Pratinho de Couratos

A espantosa vida quotidiana no Portugal moderno!

segunda-feira, dezembro 31, 2007


Desconto de fim de ano

Em Orbit City nada de novo. Nos apartamentos Skypad a família Jetson prepara-se para mais um dia no futuro. O ano é 2062. George Jetson carrega num botão e o aparelho de TV pula do chão da sala de estar. Transmite naquele instante um programa sobre pilastras da Civilização. Uma das figuras mundiais mais celebradas nos vindouros tempos é obviamente Mário Lino. O ministro dos Transportes e Obras Públicas português revolucionou as deslocações das pessoas no espaço. Génio incompreendido na sua terra anunciou: “arranjei um modelo que não traz encargos para o Estado”. Os críticos encartados escarneceram. Ele insistiu. A empresa Estradas de Portugal SA “vai ter que investir, vai ter que ir ao Banco pedir dinheiro emprestado”, desenrasque-se! E não venha pedir batatinhas porque “o Estado não é responsável pelas dívidas da empresa”. Nestas condições vantajosas, para os cofres públicos, assinou uma concessão de exploração das rodovias nacionais até 2099. Como o Banco era estatal, e faz parte da boa gestão perdoar dívidas aos amigos, família e bons clientes, o país ficou com umas eficazes auto-estradas de ar, para circularem os discos voadores, entretanto inventados. O modelo foi globalizado, e no século XXI, as pessoas voejam em segurança para os seus trabalhos, ao som de “Gilt Complex” da banda escocesa Sons And Daughters, fundada por Adele Bethel em 2001.

De manhã, no caminho para o trabalho, George Jetson distribui a família por vários locais. O filho Elroy deixa-o na Little Dipper School. A escola do primeiro contacto com os elevados valores do civismo e solidariedade. Faz parte do programa lectivo o “waterboarding”. Porque mete água as crianças adoram-no. Esta técnica de diálogo social foi popularizada no começo do século pela CIA. Os serviços secretos americanos usaram-na para interrogar evil persons em prisões alugadas nos países cuja elite necessitava dólar forte para pagar despesas com amantes. A CIA não é um bando de torturadores. É uma instituição séria, temente a Deus, e escolheu a simulação de afogamento, porque vinha com garantia de qualidade da Inquisição espanhola – o tribunal do século XV que velava pelas necessidades “espirituais” dos homens antes da profusão de inquisidores. (A administração da MTV2 proibiu o vídeo “Men’s Needs”, dos ingleses The Cribs, após uma queixa da Office of Communications de “violência demasiado chocante para um público diurno”).

Abu Zubaydah foi um dos felizes participantes nos interrogatórios da CIA. Palestiniano, de 30 anos, Zubaydah assumiu a liderança da al Qaeda, em Fevereiro de 2002, quando Osama bin Laden e Ayman al-Zawahiri fugiam da vingança americana. Foi capturado. Ferido gravemente nem assim escapou ao interrogatório colorido. Durante vários dias recusou cooperar com a agência de espiões. Aplicaram-lhe o tratamento. A falta de ar provocou-lhe uma visão de Alá incitando-o a falar. E contou o que sabia (e o que não sabia) produzindo uma informação indirecta, que levou à prisão de Khalid Sheikh Mohammed, em 2003, no Paquistão, que por sua vez foi “waterboarded”, conduzindo ao fracasso de inúmeros ataques terroristas e assim sucessivamente até para além do infinito. Jose Rodriguez Jr., director das operações clandestinas da CIA, ordenou a destruição das cassetes vídeo contendo os interrogatórios de Zubaydah e Abd al-Rahim al-Nashiri. Michael Hayden, director da CIA, clarificou este procedimento para não restar dúvidas das boas intenções da agência: “as cassetes constituíam um sério risco de segurança. Se aparecessem, permitiriam identificar os colegas da CIA que executaram o programa, expondo-os, e às suas famílias, à retaliação da al Qaeda e dos seus simpatizantes”. As informações obtidas foram mais do que aquilo que podiam mastigar, e, assim, solucionam todos os mistérios da História americana, inclusive os OVNI, o bebé Lindberg e Jimmy Hoffa. E, evitaram o “Doom Over The World” (da banda de doom metal finlandesa Reverend Bizarre).

De seguida George larga a filha Judy na Orbit High School. Neste liceu os valores da sociedade são consolidados nas aulas de bons exemplos do passado. Hoje vão analisar o caso de uma aluna inglesa morta no mês de Novembro de 2007. Meredith Kercher, 21 anos, estudava na cidade de Perugia, incluída no programa Erasmus. Foi assassinada na residência, que partilhava com a colega americana de 20 anos, Amanda Knox. Esta confessou o crime como consequência de uma nega de Meredith em participar num bacanal. A vida da comunidade estudantil foi vasculhada por jornalistas e investigadores que encontraram álcool, sexo e drogas, em vez de tardes debruçadas sobre livros ou computadores em bibliotecas e cybercafés. Duas lições foram tiradas. Primeira, os habitantes locais juram que os seus jovens são bons rapazes. Não se metem em confusões. Apenas bebem o copito de vinho às refeições como manda a tradição. São os estrangeiros que estão a trazer costumes alienígenas corrompendo a juventude dos países de acolhimento. O programa de intercâmbio de estudantes está a contaminar as comunidade locais e a importação da cultura da bebida excessiva, drogas e sexo desbragado são exemplos. (“Plaster Casts of Everything” dos Liars).

Em segundo lugar, mostrou que a exposição na Internet é perigosa, porque a Polícia recorre aos websites de convívio social como MySpace, Facebook, YouTube etc. para preencher as lacunas dos factos que não consegue verificar e, também, desenhar perfis dos suspeitos. E, isso é agravado pelo facto da Ciência estar na fase das folhas de chá, isto é, o especialista deita-se a adivinhar sobre os indícios que lhe aparecem, no fundo da chávena. Nesta fase científica não é aconselhável colocar na net fotos ou vídeos de festas e copos ou quaisquer outras. As conclusões destes cientistas são manchas impossíveis de lavar num tribunal. Uma foto de Raffaele Sollecito, italiano de 23 anos, namorado de Amanda Knox, brandindo uma faca numa festa de Halloween, revelará uma personalidade violenta, ou do outro suspeito, Rudy Hermann Guede, da Costa do Marfim, com as pálpebras reviradas, imitando um zombie, indica macabras tendências anti-sociais. O limite da adivinhação científica é o céu nesta nova ordem mundial. (N.W.O. dos Ministry. Banda de metal industrial fundada por Alien Jourgensen em Chicago, no ano de 1981).

A esposa Jane, depois de limpar a carteira do marido, desce no Shopping Center. Os centros comerciais futuristas oferecem um dia no paraíso. O ambiente friendly e as geringonças electrónicas que vendem dissolveram os problemas humanos. Um toque num botão e zás! o bem-estar é servido, não é preciso participar em concursos. A revista letã Privata Dzive promoveu um concurso chamado “Um Dia no Paraíso” destinado aos mendigos. O prémio era um dia de nababo na casa do milionário July Kruminsh. O sortudo contemplado, Alexandr Kuleshov, foi primeiro levado ao salão de beleza para tirar o sarro das ruas e retocá-lo numa forma humana apresentável. Depois partiu para o convívio de Kruminsh. Vestiu camisas de 400 euros, bebeu do melhor, fumou charutos caros, mergulhou na piscina e jogou bilhar com o milionário anfitrião. Quando voltou para a cama de cartão era “Popular” (dos Nada Surf – exceptuando o refrão, a canção é composta pela narração sarcástica de extractos do livro de Gloria Winters “Penny’s Guide To Teen-Age Charm And Popularity”).

Sorte também teve Astro, o cão de Elroy. Não foi recrutado para o Iraque. Pode sornar pelo apartamento rosnando: “right, Reorge!”. Matar em terra alheia causa complicações. O stress pós-traumático é um pincel psicológico. No regresso a casa impede de trabalhar e desperta o impulso de matar no centro comercial, na igreja ou na rua. Para atenuar estes efeitos a tropa americana tem cães terapeutas. Foram enviados para o Iraque os labradores Boe e Budge com a missão de dar “conforto emocional” aos soldados. Integrados no 85º Destacamento Médico da Marinha americana vão proporcionar afecto no campo de batalha e ajudar a recuperar do stress e traumas. Entretanto, Astro fica em Orbit City a ver na TV “Fuck The World” dos Turbonegro (grupo de death punk norueguês).

Rosie, a empregada doméstica robot dos Jetsons, não tem uma vida social fácil. As reivindicações humanas conseguiram a legalização dos casamentos dentro do mesmo sexo. Mas a luta do futuro é legitimar, no civil e na igreja, o matrimónio entre humanos e robots. Em 2062 Traci Lords, a maior actriz pornográfica americana, estaria desempregada ou simplesmente a cantar. Os circuitos integrados e as luzes pisca-pisca atraem os humanos, que sofrem o opróbrio e o ostracismo social, por uns momentos numa casa de banho pública com um robot. No futuro uma coisa se mantém. As passagens de ano continuam o eterno retorno do mesmo. As pessoas divertem-se a ver TV militar, comer tremoços e beber cervejolas, e desejar uma guerra nova para o ano seguinte, enquanto Robbie Williams se despe, até ao esqueleto, numa discoteca fiscalizada pela ASAE, em “Rock DJ”.

sábado, dezembro 22, 2007

Conto de Natal

Um dia tudo aquilo que era vivido directamente transformou-se em mera
representação – berrava o sistema de surround Samsung HT-TXQ120R para Alice, exactamente no meio de uma sessão de cinema cambojano. Rapariga inquisidora, logo tratou de pôr as palavras do home cinema em pratos limpos ou, como diziam… em chávenas limpas e foi tomar chá, com o coelhinho e o chapeleiro, no País das Maravilhas. Os seus argutos anfitriões mandaram-na procurar Guy Debord. (Alice “desviada” pelos situacionistas de Chicago. Parte 1. Parte 2). Não ficou mais sábia. Mas também não ficou mais burra. Então, teve um loooongo pensamento: «se o YouTube retirou os vídeos, que denunciavam situações de tortura no Egipto, do bloguista e defensor dos direitos dos humanos, Wael Abbas, e depois reconsiderou, e reactivou-lhe a conta passada uma semana, com a condição dele fornecer “contexto suficiente” dos uploads, para que os broncos consumidores de ficheiros formato FLV compreendessem a importante mensagem, talvez eles fossem “bonzinhos” e tivessem o URL da casa de Guy Debord». Encontrou a Internationale Situationiste em três cacos, (Parte 1. Parte 2. Parte 3), antes de ir ouvir o rock psicadélico de Pen Ron num Apple iPod Shuffle 1GB.

Um fenómeno estranho sucede quando os empresários engordam uma sociedade. Alice notara que colocavam etiquetas nos objectos saídos das fábricas com as sensações que deviam provocar. Ninguém conseguia distinguir o sabor de um iogurte sem ler o rótulo. Isso era-lhe evidente. Mas Guy Debord vem acrescentar que as relações entre as pessoas são mediatizadas pelas imagens que os objectos transmitem de si. Uma vez, Alice comeu um rebuçado Ice Breakers da Hershey no cinema, e as imagens pareceram-lhe reais, como se estivesse numa cova platónica. Não era este o caso porque a sensação desapareceu ao fim da noite. E, apenas, restou a vontade de comer mais rebuçados. Debord dizia: “espectáculo é o capital acumulado a tal ponto que se torna imagem”. Portanto, nas sociedades capitalistas da abundância, as pessoas não consomem objectos, mas as representações desses objectos. Alice desembolsou um milhão de euros num Lamborghini Reventón para testar se a sua vida social se modificava. Conduzia numa auto-estrada quando ouviu no rádio, exactamente a meio de uma canção de rock 'n' roll cambojano, que Deus descera num aeroporto, causando interferências no sinal de televisão. Alice imaginou um lugar maravilhoso, onde a divindade baralha os megahertz, e é filmada numa Sony HDR-SR8E, para mais tarde recordar. E, decidiu visitar uma das suas regiões turísticas, enquanto o rádio transmitia mais rock de Rous Sareysothea.

O Reino do Bué Bué de Perto tem um monarca, o Sr. Shrek Silva, que adora enfardar bolos durante as visitas ao povo. E, como não falava com a boca cheia, delegou a governação no seu principal ministro Peter Pão. Um homem de espírito científico e alma aventureira. Valente, sem medo de moscas, ou zombies como a Cherry Darling. Peter Pão era um glorioso maluco das novas tecnologias. Não perdia uma engenhoca high tech. Neste momento implantava um regime político perfeito. Um dos grandes defeitos da Democracia é os resultados. Há sempre uma ínfima probabilidade de não serem os desejáveis. Para resolver esta anomalia, o ideal seria abolir o voto, mas os velhos da Nintendo 64 protestariam, não entendendo que os tempos são PlayStation 3. Então, brota uma ideia ainda melhor. Criar as condições para que as pessoas votem sempre no mesmo. É um autêntico Pinnacle ShowCenter 250HD. Aprova-se uma Lei dos Partidos estabelecendo um limite mínimo de militantes. Partido político com menos de 5 000 militantes perde esse estatuto e não concorre às eleições. Simplex! Peter Pão alcançou uma Democracia de “segunda geração”. Entretanto, Alice estaciona num parking da EMEL. Paga com um cartão electrónico inteligente Visa MyBank. O parquímetro, por não ter aproveitado o programa “Novas Oportunidades”, para ficar esperto, perdeu a competição com o cartão, e é obrigado a tocar pop yé-yé de Pen Rom pela ranhura.

O intendente de Peter Pão chama-se Silva Nespereira. É, no calão tecnológico, um leitor multimédia Quicktime. Numa fracção de segundo reproduz o pensamento do patrão. Tem a missão de pôr os pontos nos “is”, atilar os ditongos, dizer “iésss” em vez de “sim” e entoar numa voz folclórica – estilo Eng Nary ou Em Songserm – lengalengas até o último céptico se engasgar no paleio do primeiro crente. A frase deste dia era: “Portugal pode apresentar-se no Parlamento Europeu olhando olhos nos olhos os deputados e dizer que apresentou um programa e cumpriu os seus objectivos”. Silva Nespereira dormia num fac-símile do palácio de São Bento e, das nove às cinco, recebia os estrangeiros em trânsito. Cobrava-lhes os impostos e as multas sobre as inúmeras proibições do reino. Alice encontrou-o no jardim podando uma azinheira. Repetia a sua ladainha, contente, mas Alice achou aquela conversa do “olhos nos olhos”, uma parolice. Em cima da azinheira umas luzentes colunas brancas Bang & Olufsen transmitiam Teth Sombath. Silva Nespereira não interrompe as suas importantes funções e pergunta com maus modos: “tem a sua vida fiscal legalizada?”. Alice não percebeu, pois vivia uma vida biológica. Bebia, fumava e às vezes… Ele completa no mesmo tom: “se não tem, vá ter com o apodecta do reino, e desampare-me a azinheira”. Alice aproveita a oportunidade de verificar se as teorias de Guy Debord eram correctas e responde: “eu conduzo um Lamborghini Reventón”. O intendente larga o podão e levanta a cara com um brilhozinho nos olhos. Nas colunas toca Chea Savoeun com Sothea.

Silva Nespereira confundiu Alice com um rei mago da Oiropa. Uma agremiação de reinos com um lugar muito especial no Sony Vaio UX1 do seu patrão. Peter Pão não se cansava de afirmar, double orgulhoso, que fora a tecnologia buépertense responsável pelo derrube dos últimos vestígios da Cortina de Ferro. Em agradecimento a Oiropa mandava turistas endinheirados para alugarem salas para cimeiras de sucesso. Por coincidência, fora lançada recentemente uma campanha para promover o Reino do Bué Bué de Perto, e Silva Nespereira julgou que o marketing já estivesse a surtir efeito. Contrataram Nick Knight, um nobre fotógrafo, pago a peso de ouro, e voaram 3 milhões de euros nuns posters para espalhar pelos burgos. A ideia é substituir a Amália, o Eusébio e Fátima por Mariza, Cristiano Ronaldo e Mourinho. Adir-lhe uma artista plástica, uma arquitecta e uma cientista e, assim, atrair turistas e captar investimento. O intendente pergunta se Alice quer investir ou visitar paisagens com empregados vestidos de branco imaculado. Alice responde que prefere saber mais sobre o Deus que se intromete nos cabos de fibra óptica. Silva Nespereira elucida: «é a Nova Nossa Senhora de Fátima que nos vai salvar”. Alice é peremptória: “Deus só há um. Google e mais nenhum. Dá-nos “Animal Crackers” ou “O Couraçado Potemkine” ou “O Gabinete do Dr. Galigari”». O intendente fica fulo. Comparar um divinal treinador de sucesso com um motor de busca é trocar líderes por Web Crawlers. E as colunas Bang & Olufsen continuavam com o rock de Houy Meas.

A mudança de atitude do intendente justificava a teoria de Guy Debord. E, a insistência de Silva Nespereira, para que Alice assistisse a uma “festa popular”, provou outra ideia situacionista. Que o espectáculo exibido pela sociedade capitalista rica provoca imenso aborrecimento. Sobretudo, a produção cultural é abaixo de cão. Nas sociedades pobres têm o pop de Mao Sareth.


A abolição das fronteiras na Oiropa transferiu o policiamento para junto do cidadão. Para as ruas, para os restaurantes, para as lojas, para dentro das casas. E o polícia é vendido, não como um elemento repressivo, mas como o ombro amigo de todas as ocasiões. Para comemorar o alargamento do espaço Schengen Peter Pão organizara uma “festa popular” na Praça do Comércio. No programa consta a actuação da charanga a cavalo e dos motociclistas da GNR, bandas sinfónicas das forças de segurança e um exercício do Grupo Operacional Cinotécnico da PSP. O Reino do Bué Bué de Perto mobiliza-se para o futuro. Alice, farta de coboiadas, monta no carro. Troca o cigarro por uma palha de feno e dirige-se para o pôr-do-sol. No rádio toca o folk de So Savoeun.

domingo, dezembro 16, 2007

Talvez seja o vinho

Não se deita fora uma boa profecia. Há quem pague chamadas de valor acrescentado para recebê-las na voz avelhentada da Maya. Mas, no mundo anterior à invenção das tarólogas da cassete gravada, para ouvir “prognósticos antes do fim do jogo”, era preciso dar aos butes até Delfos, lá para os sítios onde Helena Michaelsen filmou o vídeo de “Don’t Wanna Run”. (Helena Michaelsen foi vocalista dos grupos noruegueses de metal gótico Trail Of Tears. E, de Sahara Dust que, após a sua substituição por Simone Simons, se chama Epica. Actualmente tem o projecto Angel e é vocalista dos Imperia).

Acrísio, rei de Argos, não emprenhava a mulher com um filho varão. Receando o fim da linhagem de Linceu, seu avô e fundador da dinastia, consultou o oráculo do templo de Apolo, situado no sopé do monte Parnaso, na cidade de Delfos (antiga Pytho). As sacerdotisas, sob o efeito de uma grande pedrada, causada pelos gases emanados de uma fenda vulcânica, entravam em transe e desatavam a adivinhar. E, tal como a nossa bruxa chique, as suas previsões eram money in the bank. Logo tiraram as esperanças do monarca. Vaticinaram-lhe que não teria filhos e que um dia seria morto pelo neto. Acrísio tomou precauções para neutralizar a profecia. Fechou a sua única filha, Dánae, ainda virgem, numa torre de bronze, resguardada dos espermatozóides dos homens. Dos homens mas não dos deuses. Zeus, playboy supremo, famoso por atazanar as beldades do Olimpo e da Terra, topou as carnes apetitosas da rapariga, transformou-se numa chuva de ouro e caiu-lhe em cima. Desta união celestial nasceu Perseu. Ninguém finta os velhos cosmonautas. (“The Eldest Cosmonaut” dos Septic Flesh, grupo de death metal grego, fundado em Londres, pelos irmãos Christos e Spiros Antoniou).

Não só os gregos eram malucos por uma boa profecia. No Centro Regional do Porto da Universidade Católica, uma morada de nanicos deuses, ouviu-se a voz cava de uma pitonisa. “Acho que ele vai falhar rotundamente e vai criar bodes expiatórios daqui para a frente. Vai dar cabo da profissão, se o deixarem “ – disse José Miguel Júdice, ex-bastonário da Ordem dos Advogados, para o recém-eleito, António Marinho. “Isso é uma profecia, não é uma crítica. Nem sei sequer se será o desejo dele. Essas pitonisas da desgraça são próprias da história. Não me preocupam” – respondeu o actual zagal dos causídicos. Júdice não embatocou com esta referência pagã. Continuou a profetizar: “desejo profundamente que Marinho Pinto seja o melhor bastonário da história da advocacia portuguesa, mas acho que as suas características não o permitem ser. Deus queria que me engane, que eu não tenha razão”. Sabe-se que também no cristianismo o verniz estala. No caos provocado pelo anticristo, advém o regabofe e os escravos submetem-se. (“Decade Of Therion” e “Slaves Shall Serve” do grupo de death metal polaco Behemoth. Este nome foi retirado do “Livro de Job” e, tal como Leviathan, significa um “animal poderoso”. Therion é referido no “Livro do Apocalipse de S. João” como o anticristo).

Dánae foi escorraçada de casa pelo pai temente da voz do oráculo. Acrísio atirou-os ao mar num caixote de madeira. Zeus, num rasgo de paternidade, ordenou a Neptuno que velasse pela sua sorte. Assim, chegaram à ilha de Séfiros. O governante da ilha, Polydectes, apaixonou-se pelos encantos da jovem mãe. Mas Perseu era um menino da mamã. Não queria homens rondando a alcova da progenitora. Polydectes não teve outro remédio senão mandá-lo numa caça aos gambozinos. Fingiu que ia casar com outra princesa e pediu aos nobres ofertas condizentes. Perseu era um mija na escada, por isso, teve que aceitar o encargo do soberano, que queria a cabeça da górgona Medusa, como presente de casamento, e assim se desencadeia um “Choque de Titãs”. Contra todas as probabilidades a Medusa é decapitada. E, no regresso a casa, o intrépido herói resolve um problema reino da Etiópia, governada por Cefeu e Cassiopeia. A rainha cometera uma imprudência. Comparou a sua beleza à de Afrodite, e, desencadeou a fúria de Poseidon, que enviou um monstro marinho para destruir o país, privando o futuro do Live Aid e de São Bob Geldof. A única salvação era sacrificar a sua filha, Andrómeda, aos apetites vorazes de Ceto. Perseu mata o mostrengo, casa com a princesa e já não volta sozinho para Séfiros. (“I Walk Alone” de Tarja Turunen ex-vocalista da banda holandesa de metal sinfónico Nightwish. Que continuam com Anette Olzon nos vocais).

Pior que um choque de titãs é um choque de coimbrões. E, sendo advogados, assegura cachamorrada mitológica. Eles não combatem pela mão de uma princesa. Eles lutam para ter a princesa Money Money na mão. Júdice caracteriza Marinho sem verecúndia: “é um populista, como populista foi Mussolini, e como populista é Hugo Chávez (…) foi, em parte, eleito por advogados que, estando dentro da Ordem, não querem que outros entrem (…) é um personagem de Balzac, é um Gastignac de pacotilha. Digo isto com tranquilidade e convicção”. Quando atingem o estado w00t, também conhecido como “hurra! hurra! sou podre de rico”, os licenciados em Direito citam umas patacoadas clássicas para demonstrar urbanidade. E, tão cultos ficam, que ouvem Polina Gagarina.

Mas, a balbúrdia instala-se, quando há mais advogados que trabalhadores, e não há dinheiro para enriquecer e citar Balzac ou Moita Flores. Marinho promete combater “a massificação da advocacia” para impedir que Portugal seja uma casa sem pão (para advogados sem razão) e elucida: “na Áustria há um advogado por 4 200 habitantes, em França um por 1 800, e Portugal tem um advogado por cada 380 habitantes. Temos 30 mil advogados em Portugal”. Um para esmifrar dinheiro de trezentos e oitenta portugueses não será um espectáculo para pessoas impressionáveis. Sobretudo porque os clientes mais ricos já têm dono. As pessoas de menores posses terão de ser assoladas com tramóias dos serviços do Estado para recorrerem ao Sr. Dr. em leis. Choverão multas, cobranças indevidas de impostos, acusações gratuitas, proibições disparatadas, interdições achatadas e outras pragas “legais”. Uma autêntica sangria, como no “Blutsturm Erotika”, dos Belphegor, os “Hell’s Ambassador” da Áustria. (Belphegor, talvez do assírio Baal-Peor, é um demónio que alicia as pessoas ensinando-lhes esquemas marados para ficarem podres de ricas e depois papa-lhes a alma).

Os legisperitos construíram a sua estrada de tijolos amarelos. Na quinta-feira passada Lisboa parou para o eléctrico azul apinhado de dirigentes europeus passar. Assinaram o Tratado com canetas de prata. Um souvenir of Lisbon que todos levaram para os seus países. Orgulhosos por ultrapassarem a crise institucional, agora são unânimes que acharam o seu KISS (acrónimo de “keep it so simple”, conceito da Sony, para as suas máquinas). Daqui para a frente, gerir a Europa, será mais fácil que abrir uma lata de conservas. Finalmente, poderão dedicar-se à Segurança e à Economia. É difícil perceber donde vem tanto entusiasmo. Talvez seja o vinho. Quem bate assim não é água certamente. O almoço, servido aos convivas no Museu dos Coches, foi fornecido pelo grupo de catering Casa do Marquês. Constava sopa de tomate, cataplana de peixe e marisco, ananás dos Açores, café e pastéis de Belém. Para empurrar tudo isto vinho branco ribatejano da Quinta da Lagoalva. O brinde especial, feito com vinho do Porto de 1957 e Cavaco Silva a falar inglês, aumentou o teor de álcool no sangue. Gordon Brown, o escocês jocoso, apareceu mais tarde para tomar café, provar o pastel de Belém, assinar numa mesa dourada e mais uns drinks para festejar. No departamento cultural, os ouvidos dos “políticos missão cumprida” enriqueceram com as habituais musiquinhas, de compositores classificados, embora preferissem as russas Valeria ou Viktoria Kolesnikova.

Uma festa regada com qualidade solta a confiança, mas não é suficiente para esquivar os deuses, ou driblar a sorte macaca. Existem infinitos exemplos de tratados que deram com os burros na água (apesar do vinho bebido nas comemorações). O mais famoso foi Tordesilhas. Este orgulho nacional não passou de um arranjinho entre dois países papistas e o Papa de Roma. D. João II, os reis católicos de Espanha e o Papa Júlio II assinaram mas ninguém ligou, nem os ingleses ou holandeses, nem sequer os próprios assinantes. As riquezas das terras desconhecidas e as descobertas de Cristóvão Colombo tornaram-no anacrónico. (O desconhecido Tratado de Madrid, assinado em 1750, é muito mais importante, pois reconhece que as coisas ficam como estavam). Passado o efeito do álcool, talvez assistamos, como extremadas esposas à beira-mar, os políticos partirem na demanda de novos prodígios. (“Farwell Proud Men”, dos Leaves’ Eyes, banda germano norueguesa de metal sinfónico).

domingo, dezembro 09, 2007

“O burro sou eu? O ruim sou eu?”

Entre os minerais, vegetais, animais e desenhos animados o Homem faz a diferença. Não pela grandiosidade do Taj Mahal ou o Amoreiras, de Júlio César ou Robert Mugabe, de Bertrand Russell ou Cláudio Ramos, mas pela capacidade de questionar. Um macaco não olha uma foto JPEG (Joint Photographic Expert Group) do céu e devaneia. Esta actividade é comummente registada como patente humana. Nas aulas, os professores insistem para que os alunos se interroguem se quiserem ficar espertitos como os Smartphones. O busílis da sapiência reside na pergunta e não na resposta. E as perguntas vestem Prada! Têm modas. Nos nossos dias já não se ouve “o 27 passa no Restelo?” mas “para onde vai o planeta?” Esverdeará? Ou desaparecerá numa cinzenta bola de fumo? Numa “Smokestack Ligthning”. (Tocada por Hubert Sumlin e David Johansen vocalista dos New York Dolls. Sumlin foi guitarrista na banda de Howlin’ Wolf, autor desta canção).

O marimbar-se para as respostas arruma o Homem na prateleira da superioridade terreal. E, de tanta genialidade, as soluções para os problemas parecem destrambelhadas. A resposta encontrada para resolver a utilização excessiva dos recursos disponíveis confunde os desprovidos da capacidade de processamento Intel Core 2 A 4GHZ das elites pensadoras. Como sem dinheiro não há palhaço primeiro debuxaram os impostos verdes. Depois enveredaram por uma abordagem que historicamente seria o avesso de Gengis Khan. E assim esperam restaurar os dias biológicos, esvanecidos nas varandas despoluídas, numa sinfonia de sapos e grilos, pirilampos esvoaçando felizes num habitat Walt Disney. Ou então, numa reunião, no alpendre de uma cabana, para tocar os Blues, de “Sleepy” John Estes e Hammie Nixon com John Henry Barbee.

(John Henry Barbee gravou um single em 1939 com algum sucesso. Quando a editora Vocation decidiu gravar outro, ele desaparecera da única morada conhecida, no Arkansas. Barbee tinha disparado sobre o amante da namorada e fugiu convencido que o matara. Afinal, o homem sobreviveu aos ferimentos. Em 1964, participa numa tournée europeia com, entre outros, Lightnin’ Hopkins. De regresso aos Estados Unidos compra o seu primeiro carro com o dinheiro ganho. Dias depois atropela mortalmente um homem. Morreu de cancro na cadeia em Novembro de 1964).

Marco Pólo escreveu sobre os mongóis: “de todos os homens do Mundo, os mais aptos para suportar esforços e dificuldades e os mais baratos de manter, e portanto os melhor adaptados para conquistar território e derrubar reinos”. Um viajante chinês complementou o retrato: “cheiram tão mal que não nos podemos aproximar deles. Lavam-se em urina”. Dito no calão actual esbanjavam poucos recursos. Nas suas longas caminhadas alimentavam-se de leite de égua, carregavam pouca bagagem e não conspurcavam rios ou regatos nas banhocas. Com uma pegada carbónica reduzida ocuparam quase um quarto da Terra. Foram bons para o ambiente e maus para as pessoas que recebiam uma carta de morte. (“Death Letter” de Son House. Importante figura do delta blues original e pregador baptista, ainda hoje mantém a sua influência. Por exemplo, nos White Stripes).

As guerras mongóis eram muito diferentes das americanas. Gengis Khan não comandava soldados de Ray-Ban mastigando chewing gum. As suas incursões militares, não visavam a captura de homens para não-tortura, mas o saque de metais preciosos e de mulheres. E ele era uma exímia sex machine. Uns peritos em ADN concluíram que 16 milhões de pessoas na Ásia central partilham o material genético do líder mongol. Ou seja, um em cada duzentos asiáticos são descendentes directos da quilométrica vida sexual de Gengis Khan. Se os dirigentes contribuíssem com tamanha prol, há muito tempo seria hora de ponta contínua, em todo o planeta, e precisaríamos daqueles funcionários (empurradores) do Metro de Tóquio para andar nas ruas, mas Gengis Khan contrabalançou. Também limpou o sebo a um astronómico número, não contabilizado, de pessoas interrompendo a sua reprodução. Bem vistas as coisas, evitou que a Humanidade se extinguisse e, ao mesmo tempo, controlou o crescimento populacional. (Gengis Khan equipara-se ao Muddy Waters. Era um “Rollin’ Stone” – canção donde os Rolling Stones retiraram o seu nome – com “Got My Mojo Workin’” para arrasar o género feminino).

Este exemplo do passado foi esquecido. Hoje todos os visionários Governos pedem mais população. Para produzir mais riqueza. Para substituir os inevitáveis falecimentos. Para viabilizar os serviços de Segurança Social. Para consumir mais e, assim, rolar a pescadinha de rabo na boca da economia. Ou, simplesmente, porque é bonito ver muita gente nos parques, a solução é o crescimento infinito. Sempre mais. Mais auto-estradas, mais casas, mais aeroportos, mais pavilhões multiusos reduzirão o efeito estufa e o triste Smiley :-/ sorrirá :-) para sempre. “It’s Too Late To Cry” (Lonnie Johnson) vamos alcatroar e cimentar o mundo.

A pegada de carbono deixada pela cimeira UE – África é muito superior ao desgaste mongol. Uma catrefada de políticos com soluções. Um enxame de polícias, guarda-costas, jornalistas, repórteres fotográficos, membros do protocolo, orientadores de tráfego humano, assessores e assessores de assessores. Uma farta frota de viaturas topo de gama. Autocarros de turismo de luxo para transportar meia dúzia de gatos-pingados. Fradique de Menezes, Presidente de São Tomé e Príncipe, teve um só para si. Gasolina para as máquinas e paparoca da boa para esta gente toda. E, porque é Natal, uma mochila com uma gravata e um CD com uma rapsódia de música portuguesa. Toneladas de lixo foram produzidas. Por sorte, Muammar Kadhafi atenuou a pegada carbónica ao trazer a tenda. O campismo destrói menos o ambiente que quartos em hotéis muito bem estrelados. Os governantes portugueses irradiavam satisfação. O país modernizara-se e tinha algo mais que vagões de mercadorias para oferecer aos dignitários visitantes. (“Freight Train Blues” por Rosemary Rainey, neta de “Ma” Rainey. Gertrude “Ma” Pridgett foi uma das primeiras cantoras profissionais de blues e a primeira a gravar um disco, por isso recebeu a alcunha de “mãe dos blues”).

As sábias palavras do mister de Portugal, “o burro sou eu? O ruim sou eu?”, perpassaram pela cabeça do secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação português, João Gomes Cravinho. Encarregado de receber os “cimeiristas” perdeu-se naquela enchente de caras desconhecidas debaixo da pala desenhada pelo arquitecto Siza Vieira. Vagueava de um lado para outro distribuindo apertos de mão sem saber a quem. Mas, como bom português, ninguém percebeu que ele andava às aranhas. Se por lá aparecesse a “rainha dos blues”, dava-lhe um hospitaleiro “passou bem”, mesmo que a confundisse com a baronesa Valerie Amos, representante do Reino Unido, por indisposição de Gordon Brown. (Koko Taylor tem o título de “rainha dos blues”. A canção “Wang Dang Doodle” é de Willie Dixon que descobriu Koko nos clubes de Chicago).

Nem todos os bacalhaus de Cravinho foram atirados no escuro. Alguns líderes eram conhecidos. Robert Mugabe nem olhou para ele no aperto de mão. Fradique de Menezes cumprimentou-o efusivamente. E Durão Barroso não precisou do anúncio do protocolo de Estado. Seguiu-se um cortejo infindável e a barriga não perdoa. Começa a dar horas. Gomes Cravinho dá um pulo ao bar “para comer um croquete”. Quando chega o último representante do povo, João Bernardo “Nino” Vieira, da Guiné-Bissau, o secretário de Estado não estava na entrada do Pavilhão de Portugal. “Nino” compreendeu a voz do estômago, pois ele próprio tem insistido para que os guineenses comam, para não caírem na fraqueza e apanhar tuberculose. (“TB Blues” de Victoria Spivey).

Enfim, a cimeira UE – África trouxe à cidade de Lisboa um concerto de sons que inspiraria Karlheinz Stockhausen. O compositor alemão de música electrónica e electro-acústica morreu na quarta-feira passada. Em 2001 despertou o ódio do império americano. Numa conferência de imprensa, em Hamburgo, classificou o ataque às torres gémeas do World Trade Center, em Nova Iorque, como “a maior obra de arte jamais realizada”. Queria dizer ele que, os militantes da al Qaeda, treinaram durante anos para um momento único e depois morreram, e isso era arte. Apesar de não ter sido entendido pediu desculpa, mas não evitou que os responsáveis da cidade de Hamburgo cancelassem os seus concertos. Stockhausen misturava nas partituras musicais, elementos das artes visuais, a acústica dos lugares onde a música era executada e os ruídos do meio ambiente, como em “Helicopter String Concert”.

sábado, dezembro 01, 2007

Cultivando

Não será fácil apanhar um “leprechaun”. E mais difícil ainda é sacar-lhe o pote de ouro. Os “leprechauns” são criaturas de baixa estatura, vestidas por John Galliano, com casaca e calças meia-perna verdes, camisa e meias brancas, e grandes fivelas no chapéu, cinto e sapatos. Trabalhadores por conta própria acumulam invejável fortuna na indústria do calçado. Desconfiados das fusões amigáveis dos banqueiros enterram-na dentro de potes nas matas. Quem conseguir capturar um, tem que mantê-lo sob vigilância apertada, como um agente do SIS, até ele revelar de livre vontade o esconderijo do precioso cântaro. Não vale a pena torturá-lo, pois nesse caso confessará lugares fantasiosos, como sucedeu com um agente da CIA, que viajou até Espanha para escavar junto do poço, na granja do Pin y Pon, quando foi informado por José Maria Aznar, da inexistência de tal quinta nas terras de Castela. Presente na reunião, o primeiro-ministro português de pronto jurou, pelo Imaculado Coração da Virgem Santíssima, que a tinha visto nuns papéis. (No sul da Índia foi filmado o vídeo “Sunshowers” da M.I.A. – numa alusão à expressão “missing in action” é o nome artístico de Mathangi “Maya” Arulpragasam, nascida em Londres, filha do militante tamil Arul Pragasam. Com seis anos voltou com a família ao Sri Lanka, mas a guerra étnica obrigou ao regresso da mãe, e os seus dois irmãos, à Inglaterra, enquanto o pai desaparecia em combate contra o exército do Governo cingalês).

As elites dos países desesperadamente procuram um “leprechaun” para enriquecerem o seu povo. Quando isso sucede, oh! felicidade, a civilização saltita e acelera. Costuma-se dizer que as algibeiras cheias são boas conselheiras. Um povo enricado almeja educação, cultura, arte, design e coisas para colocar no chão ou pendurar nas paredes. Certo dia os galeristas do Baltic Center for Contemporary Arts, em Gateshead, Inglaterra, enfrentaram a ancestral questão do ser ou não ser arte. Nestes dilemas, mandam os manuais de Estética que se chame a Polícia. Assim fizeram! Entretanto, algures num clube de Londres as The Pipettes tocavam “Pull Shapes”. (The Pipettes é um grupo pop revivalista formado em Brighton, em 2003. “Pull Shapes” significa em calão inglês uma forma particular de se mover na pista de dança. E o vídeo foi inspirado no filme “Para Além do Vale das Bonecas”, um clássico de 1970, do mítico Russ Meyer)

A galeria expunha uma instalação de Nan Goldin, chamada “Thanksgiving”, composta por 149 fotografias dos seus amigos a usar drogas, a masturbar-se, a fazer amor etc. e tal. Entre elas estava “Klara and Edda belly-dancing”. Uma foto de duas miúdas a brincar na cozinha. Uma em pé, vestida imitando uma bailarina oriental, dança sobre a outra que está deitada no chão nua. A foto não é novidade. Foi comprada por Elton John em 1999 e já foi exibida em muitos países, inclusive no nosso querido Portugal. No entanto, os polícias confiscaram-na para verificar a sua “porno-infantilidade”. Se, segundo recentes leis, é pornografia infantil, ou outra coisa qualquer como… uma normal cena do quotidiano de um lar com filhos. (A normalidade saiu pela janela da sociedade onde “Everybody’s Gone To War”, de Nerina Pallot).

Goldin é conhecida como foto-cronista da vida de alcoólicos, drogados e doentes com SIDA. Realidades chatas de ver mas que podem ser tratadas com indiferença. Não afectam directamente a “boa consciência” das sociedades ricas que pagam especialistas para limparem esse lixo do campo de visão. Todavia, ver sexo em todo o lado – quando se mastiga os Cheerios, veste a roupa Alexander McQueen ou segura o varão no Metro – poderia parecer uma vingança de Freud. Que afinal o velho psicanalista estava certo. E, que, o Inconsciente (ou Id), a massa informe de pulsões e desejos sexuais reprimidos, irrompe no Consciente e determina a vida humana. Nada dessas taradices! A Humanidade não está carregadinha de neuroses, psicoses ou outras nozes, porque a energia sexual (libido) está a ser mal desviada do Princípio de Prazer para o Princípio de Realidade. A riqueza das nações é que acertou as prioridades das populações curadas por um exército de peritos. Com Kant ou Jean-François Lyotard, a beleza reside no observador e não na coisa observada. E como o observador é mentalmente são, chocantes são crianças nuas, porém fotos de crianças mortas nas guerras legítimas são banais, artísticas, estéticas, prioritárias candidatas a prémios de fotojornalismo. (“Beds Are Burning”, e não só por causa da ecologia, cantam os Midnight Oil. O vocalista Peter Garrett, com a eleição do executivo trabalhista de Kevin Rudd, é o actual ministro do Ambiente australiano).

A ONU criou mais um tacho – o Representante Especial para a Violência Contra as Crianças. Este bom emprego foi aprovado pelo Comité dos Direitos Humanos da Assembleia-Geral por 176 votos a favor e o voto contra dos Estados Unidos. Os sobrinhos do tio Sam enriqueceram mais do que os outros, logo, perceberam que o interesse das crianças não se defende com observadores e relatórios. Nos países ricos é difícil consertar a funcionalidade das famílias para que cuidem dos filhos. Cada elemento do casal quer aproveitar a vida que é curta. Há muita PlayStation para jogar. Muito Martini “shaken not stirred” para beber. Muito centro comercial para palmilhar. A solução é o recrudescimento das leis. A ministra francesa da Justiça, Rachida Dati, propõe a reclusão dos condenados por pedófila em centros especiais depois de cumprirem a pena. Se for complementado com a pena de morte o problema fica resolvido para sempre. Nos países pobres, muitas vezes, é imperativamente categórico matar os adultos e as crianças vão-se como danos colaterais. E, a infância dos sobreviventes é efémera. Num piscar de olhos desaparece... em mais um soldado. (“War Pigs” pelos The Dresden Dolls, duo de Bóston formado por Brian Viglione e Amanda Palmer que classifica o seu som como “cabaret punk brechtiano”. A canção é uma versão dos Black Sabbath).

O enriquecimento do planeta tem provocado alterações cromáticas. O dinheiro liberta os bons sentimentos solidários em todas as classes profissionais. Durão Barroso, na qualidade de Presidente da Comissão Europeia, foi a Timor levar 63 milhões de euros para despesas correntes de democracia e direitos humanos. Ramos-Horta agradeceu propondo, o político da “Europa dos resultados”, para o prémio Nobel de 2008. É um verdadeiro chupa-chupa comprado na “Candy House”, do grupo punk japonês, Thee Michelle Gun Elephant.

No nosso querido Portugal a riqueza foi trazida pelos “cluricauns”. São primos dos “leprechauns”, cuidam das adegas e têm uma vida gémea da nossa. Passam os dias nos copos, são sociáveis e hospitaleiros. Quando estão borrachos montam carneiros, ovelhas e cães na galhofa. A nossa elite dirigente encurralou um na Ginjinha do Rossio e a empatia foi instantânea. Ele transferiu o pote de ouro online para um Banco sólido e foram todos comemorar na Casa do Alentejo com rojões e Quinta da Pinheira tinto. Desde aí a cultura tem marcado a sociedade lusa como explica a maior poetisa portuguesa Adília Lopes: “Só depois de ler / Barthes / é que Camila / ficou a saber / que o dedo da masturbação / é o médio / até aí tinha usado / sempre / o indicador / experimentou também / o polegar / e viu que todos serviam / meu menino / seu vizinho / pai de todos / fura bolos / mata piolhos”. O savoir faire digital e intelectual espraiou. No caso de um cozinheiro despedido, por um hotel, os Srs. Drs. juízes do Tribunal da Relação de Lisboa acordaram: “ficou provado que A. é portador de HIV e que este vírus existe no sangue, saliva, suor e lágrimas, podendo ser transmitido no caso de haver derrame de alguns destes fluidos sobre alimentos servidos ou consumidos por quem tenha na boca uma ferida”. Um cirurgião infectado com o mesmo vírus foi escrutinado pelos seus pares. Os Srs. Drs. médicos concordaram que os riscos de transmissão aos anestesiados na mesa de operações é perto do zero. O médico pode ir de férias na neve. O cozinheiro não. (“Fallen Snow” do grupo feminino de Brooklyn Au Revoir Simone. Este nome é uma frase do filme “Pee-Wee’s Big Adventure” de Tim Burton).

O maior poeta português avisava: “É sempre fácil caminhar em cima das águas, mas é impossível fazê-lo milagrosamente” – Herberto Hélder in Photomaton & Vox. Acertou! Pelas águas límpidas caminhamos sem necessidade de intervenção divina. A funcionária da Junta de Freguesia de Vitorino de Piães, Ana Maria Brandão, há três anos de baixa com doença incapacitante degenerativa, recebe a cartinha da Caixa Geral de Aposentações para regressar ao posto de trabalho. Passou um dia sentada e encostada a uma parede pois não tem autonomia de movimentos. O ministro das Finanças gastou saliva: “ninguém pode ficar indiferente e insensível”. Qual herói Beowulf em três dimensões anuncia que ela iria entrar outra vez de baixa até a CGA reapreciar o caso. Mais uma junta médica depois, a funcionária está apta para todo o serviço, como na tropa. Em Portugal não há “Judge Harsh Blues” (de Furry Lewis). São todos bonzinhos profissionalmente e… arredores.