Pratinho de Couratos

A espantosa vida quotidiana no Portugal moderno!

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Vrum vrum

Caratacus Potts também gostaria de ter levado o seu Chitty Chitty Bang Bang ao Lisboa-Dacar. Açodar pelas dunas, um pé no acelerador, outro no sentimento de solidariedade, caracteriza o piloto ciente dos problemas africanos. Que, patrocinado por publicidade responsável (não esta), de mensagem perene (não esta), contribui para retirar África do isolamento, através de imagens de nuvens de poeira nos plasmas Full HD 1080 pixels. Ah! e também leva umas barras Mars, em ajuda humanitária, para os putos ranhosos. Mas este ano o vrum vrum dos popós foi desligado pelas informações privilegiadas dos serviços secretos franceses. No país dos galos, a popularidade de Sarkozy está em queda, então, optaram por uma saída à americana e avisaram que o espectro do ataque islâmico pairava no Sahara. E assim, a indústria do medo venceu a indústria das carripanas com mucho horse power e, em 2008, não houve filantrópico regabofe no areal. “Oh Bondage, Up Yours!” (do grupo punk inglês X-Ray Spex. O único que recebeu um elogio do maldizente Johnny Rotten. Eles em “Identity”, “”The Day The World Turned Dayglo” e “Germ Free Adolescents”. Depois da separação o baterista foi para os Classix Nouveaux).

Desta vez os terroristas bem podem tirar o carro armadilhado da chuva. Meteram-se com o país errado. Portugal não é “The Wrong Coast”, governado por pândegos, que todos os anos aldrabam a taxa de inflação para baixar os salários. (A discrepância entre os 2,3% previstos para 2007 e os 2,5% reais, contas feitas no fim do ano, resulta da matemática inteligente utilizada pelos Governos). A Lusitânia é a West Coast, a costa certa da Europa, um viveiro de governantes fazedores de riqueza. (Existem mais cem mil pessoas fora da linha de pobreza, embora elas não tenham dado por isso, e continuem, casmurramente, sem dinheiro para o papo-seco, a partir do meio do mês). Portugal passou a fase do “buáá buááá buááááá coitadinho sou!”. Temos uma heroína no YouTube. Conseguimos responder correctamente um teste sobre pintura. As nossas bonitas mulheres passam os testes dos “Caçadores de Mitos”. E os homens são auto-suficientes. Para ter as coisas feitas já não esperamos pelo Dom “Sebastian” (da banda inglesa dos anos 70 Steve Harley & Cockney Rebel. O baixista Paul Avron Jeffreys ia em lua de mel no Voo 103 da Pan Am, que explodiu em 1988 sobre Lockerbie, na Escócia. No ano passado, Muammar “ex-Mad Dog” Khadafi pagou as indemnizações sobre os 270 cadáveres exigidas pelos países obedientes às leis do Direito Internacional. “É só dinheiro”, disse ele, e o dinheiro serve apenas para ganhar amigos, europeus e americanos).

Luís Amado, ministro dos Negócios Estrangeiros, considerou “inaceitável” que uma ameaça terrorista decida “o fim do maior rali do mundo”. Maldisse os extremistas, mas não vale a pena chorar sobre gasolina derramada, despiu o casaco, arregaçou as mangas, cofiou a barba e… pediu à secretária que convocasse os seus compadres de Malta, França, Espanha, Itália, Argélia, Marrocos, Mauritânia, Líbia e Tunísia para uma jantarada de trabalho. O grupo conhecido como 5+5 reuniu-se em Rabat. Com cuscuz, kebab e alcachofras em cima da mesa concordaram na importância dos bólides no norte de África. São homens lidos na cartilha liberal, entendedores da evolução económica mundial e antevêem o papel futuro do continente africano. Ele será o destino das deslocalizações das fábricas quando findar a mama nos países de Leste. Portanto, é fundamental que o dinheiro humanitário continue a fluir para criar uma elite podre de rica. (Só a Fundação Bill & Melinda Gates, por causa das leis do IRS, é obrigada a repartir 1.2 biliões de dólares por ano entre os subdesenvolvidos). Sem elites endinheiradas não há progresso. Não há quem assine contratos, ceda terrenos, faça favores fiscais, contrate trabalhadores, feche os olhos à poluição etc. Depois, é necessário manter os programas de alfabetização e educação nas novas tecnologias para formar magotes de trabalhadores com as competências mínimas. E, sobretudo é necessário erradicar as doenças exóticas. Ninguém quer que os empreendedores e gestores brancos estiquem o pernil entre suor, hemorragias, vómitos e caganeira. No grupo 5+5 concluiu-se pela implementação de medidas de segurança para que o vrum vrum das areias regresse em 2009. Portugal, no melhor momento da sua História, vingou os 400 mil euros espatifados pela Câmara de Lisboa na prova e demonstrou que o Lisboa-Dacar é um bom remédio para África. “Remedy” (dos The Black Crowes banda de southern rock dos anos 90).

Outro acelera de rali é Wbush. No final do mandato esforça-se para que o mundo cheire menos a enxofre e mais a rosmaninho. Paladino da democracia e liberdade, arrebanhou a comitiva e comida para vários dias, e partiu para o Médio Oriente. Levou na bagagem a Teoria dos Dois Estados e cobras e lagartos contra o Irão. Nesta passeata os seus assessores limparam-lhe a imagem de bombardeiro de árabes e descia do avião Air Force Number One um homem gentil. Um homem pelo qual todos gritavam “I Want Your Love” (dos Transvision Vamp. Grupo inglês de pop/punk da década de 80 com Wendy James que depois formou os Racine).

No Kuwait anunciou um Iraque “no bom caminho”. O Dubai decretou feriado nacional e fechou a maior parte das ruas. Wbush deu uma gentil aula de democracia na capital, Abu Dhabi, e foi para um piquenique das mil e uma noites no deserto. A vinda do chefe do Ocidente ao Emirato foi um sucesso porque choveu. Naquelas bandas, uma borrasca durante a visita de um dignitário estrangeiro, é considerada bom augúrio. Na Arábia Saudita pediu gentilmente que descessem o preço do barril de petróleo e ultrapassou o seu habitual bedtime (21:30) para cavaqueira after-dinner sobre assuntos vitais com o rei Abdullah. Estava um frio de rachar e conversaram sobre o tempo, num palácio de soalhos de mármore, paredes forradas a ouro e coloridas com pedras preciosas. “Run-Around” (dos Blues Traveler. Grupo dos anos 80 do virtuoso da harmónica John Popper. Em “Hook” e “Carolina Blues”. Popper era conhecido pelo seu colete de harmónicas, após um enfarte decidiu perder peso, em “Girl Insisde My Head”).

O maior contratempo surgiu na deslocação de Jerusalém para Ramallah. As condições climatéricas não permitiram o transporte do corpo nº 1 de helicóptero e foram de carro. Israel teve uma trabalheira em desimpedir os milhentos postos de controlo ao longo do trajecto. Até retiraram os blocos de cimento, que obstruía uma estrada vedada ao trânsito, para a caravana não atrasar. Wbush parecia um português. Estava optimista em “realizar o acordo” dos dois Estados, lado a lado, numa paz do mundo desenho animado do ursinho panda Tao Tao. George W deu as suas opiniões sobre um Médio Oriente democrático, e, a opinião é como a vagina, quem quer, dá. Mas o package de um presidente gentil valorizou o sinal da cruz nas arábias. Sabe-se que os cristãos não admitem brincadeiras com o crucifixo. (Miss França 2008, Valerie Begue, por ter tirado uma foto, em cima de uma cruz, numa piscina, tem o seu título em risco). Mas o tão amado símbolo dos cristãos assanha a moirama e está, heresia das heresias, a afectar o futebol. Os clubes com cruzes nos emblemas são ameaçados de represálias pelos radicais. (Em nome das trocas comerciais o Barcelona foi obrigado a retirar o travessão, desfazendo a cruz do seu emblema, para vender camisolas nos países árabes). Ao trocar a armadura de cruzado pelo smoking de nice guy, Wbush salvou Scolari e a nossa selecção. Os estádios cantarão “United States of Whatever” (de Liam Lynch músico, bonecreiro e realizador. Frequentou um programa para sobredotados. E diagnosticaram-lhe dislexia, daltonismo e Distúrbio de Défice de Atenção).

Um outro vrum vrum, com Nível de Pressão Sonora mais elevado, (de 140 decibéis para cima), ensurdeceu o país. No final do pingue-pongue de estudos, Alcochete venceu a corrida aos aeroportos. Mas a voz do povo levanta-se. “O aeroporto é nosso, não é de Alcochete”, brada um injustiçado e revoltado habitante de Samora Correia. O presidente da Junta de Freguesia confirma: a área do campo de tiro fica 85 % em Samora Correia, e o restante no concelho de Palmela (Poceirão) e na freguesia de Canha (Montijo). Nada em Alcochete. Carlos Pernes, deputado na assembleia municipal de Benavente, procura uma explicação nas histórias do passado: “as cartas cartográficas da Companhia das Lezírias de 1905 têm inscrito ‘carreira de tiro de artilharia’, não dando qualquer nome ao que mais tarde ficou conhecido como ‘campo de tiro de Alcochete’. Da história oral, o que consta é que, na primeira República, o ministro da Guerra do tempo de Afonso Costa era casado com uma senhora de Alcochete. Esse facto e a proximidade geográfica, não administrativa, da localidade, levou-o a baptizar o campo de tiro dessa forma”. A escolha do nome não será pacífica. Talvez devesse ser chamado Adelino Amaro da Costa, um político, tal como Sá Carneiro, intimamente ligado à aviação civil. (Em vez de uma discussão, ao som da 5º sinfonia de Beethoven pelo melhor nome, a banda tocará “A Whiter Shade of Pale” dos Procol Harum).

Mas antes do foguetório quiçá fosse ajuizado esperar pela evolução da gripe das aves. Este Natal o H5 viajou por Portugal. Disseram de baixa patogenicidade para não perturbar o lucrativo comércio natalício. Foram abatidas, sem muito alarido, 10 000 perdizes em Agrela Pinheiro e 16 000 frangos em Mafra. A OMS já confirmou dois casos onde o vírus H5N1 foi transmitido de homem para homem. Se a pandemia estoira, os aviões ficam em terra e não será necessário aeroporto de Lisboa para nada. Nem Teixeira Pinto, com a sua reforma de 35 mil euros por mês do BCP, arrisca uma viagenzita num Cessna alugado. Antes de entregar a empreitada aos mesmos consulte-se os Pigeon Detectives (grupo inglês formado em 2002. Em “I Found Out” e “Romantic Type”).

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Cantar as janeiras

Mais um ano, mais um degrau na subideira para o mundo perfeito. Em boa hora, no ano de 713 a. C., o rei Numa Pompílio, sucessor de Rómulo, integrou no calendário romano o mês de Janeiro, facultando, aos filhos do estilhaçado Império, trinta e um dias para renovar esperanças e definir objectivos, que o resto do ano cumprirá. Se em Dezembro se limpam gavetas e armários, em Janeiro abrem-se portas e janelas. A palavra “Janeiro” teve origem em Jano, deus das portas, portões e cancelas, dos princípios e dos fins, representado com duas cabeças, uma olhando em frente, outra para trás. Com um olho no passado e outro no futuro, o mês de Janeiro abre uma caixa de Pandora… de coisas boas. (The Pandoras, banda americana dos anos 80, numa versão psicadélica de “You Don’t Satisfy”. Mas nessa década, o Vidal Sassoon, champô e condicionador, muda o aspecto do rock. The Pandoras ao ar livre em “You' re All Talk”. E metidas com Cherie Currie das Runaways).

Da Austrália vem uma boa ideia para este ano. Há 40 anos que a empresa Westaff fornece Pais Natal para lojas e centros comerciais. Em 2007 entrou na moda do politicamente correcto que desabrocha pelo planeta. Aconselhou aos seus empregados, contratados para representar o famoso habitante da Lapónia, na festiva quadra natalícia, que trocassem o bonacheirão e tradicional riso “ho, ho, ho” por “ha, ha, ha”. O insólito pedido tem uma explicação simples. Matar infiéis, em conjunto com os amigos americanos, engrandeceu-lhes o vocabulário com o calão do G.I. Joe. A expressão “ho” é uma abreviatura de “whore” (puta) na gíria das ruas americanas. E, não é correcto, sujeitar os ouvidos das criancinhas a palavrões, quando dão um empurrão na economia, acelerando o consumo. Se, começam desde cedo, em contacto com o vernáculo, a educação não encaixa, as transgressões suceder-se-ão e é provável que acabem a fumar e beber em palco como o Nick Cave. A empresa dá uma explicação mais científica assentada na Psicologia. Sari Hegarty, coordenadora do recrutamento de Pais Natal, explica-se: “pedimos aos nossos Pais para tentarem certas técnicas, como baixar o tom da voz e usar “ha, ha, ha”, para encorajar as crianças a aproximarem-se e a conhecer o Pai Natal”. Por causa dos americanos, os australianos têm mais para mostrar que “Fuck off Is the Only Thing You Have to Show” (das brasileiras Cansei de Ser Sexy).

Certo dia Brigitte Bardot desabafou: “dei a minha beleza e a minha juventude ao homem. Vou dar a minha sabedoria e experiência aos animais”. Brigitte esteve no topo da interacção humana. Cantou e acompanhada. Cantaram-lhe. Jean-Luc Goddard pô-la a perguntar o óbvio. No filme “En Cas de Malheur”, de Claude Autant-Lara, Jean Gabin gostaria de estar sentado no lugar do espectador. Bem poderia ser a garota de Ipanema. Sem dúvida a mulher mais excitante do mundo. Mas isso terminou e, em alternativa, entregou-se aos bichos. Quer salvá-los da crueldade e voracidade humana. E não é a única… a olhar os animais. A Quercus recomendava neste Natal: “coma bacalhau mas com moderação”. O peixe da Consoada está em vias de extinção e a Igreja não vai autorizar o fim do jejum de carne nesta época. O fiel amigo não tem substituto. Assim, amigo que come amigo, deve libertar a consciência ecológica para que a relação de amizade perdure. Enquanto não vem a clonagem apela-se ao racionamento e ao chupar bem as espinhas para evitar o desperdício. (A rainha do rock não tem espinhas. Joan Jett também pertenceu às Runaways. Ela em “I Love Rock ‘n’ Roll”. E em “Crimson & Clover”, uma versão de Tommy James & The Shondells).

Nas terras lusas o ano começa bem. Com um facto premonitório. O Estado já está a poupar na pensão do Luiz Pacheco. Cento e vinte contos (dizia ele) será pouco nas contas públicas, dividido por dez milhões de portugueses não é nada, mas é dinheiro vivo para reduzir o défice. Euro a euro enche o ministro as finanças. Se marcharem, para o outro mundo, uns gestores e administradores, reformados das empresas estatais, no fim do ano poderemos abanar a anca, felizes como a Kat Deluna, e encher o bandulho como a Miss Platinum. E, ainda restará massa para pagar os magros vencimentos de Santos Ferreira e Armando Vara, na Caixa Geral de Depósitos, enquanto vão ganhar mais uns trocos no BCP. Se a sua não for uma “Shitlist” (das L7) e ganharem as eleições.

O défice resolvido justificará o patriotismo profundo de Cavaco Silva, que não permitiu filmarem a cerimónia do bolo-rei, mas agradeceu presentes e cantorias: “neste tempo, é com muito gosto que nós abrimos as portas do palácio para receber grupos que vêm cantar as janeiras, é uma forma de expressar o nosso apoio à cultura popular, às nossas tradições e manifestar o nosso apreço àqueles que nas nossas aldeias, nas nossas vilas, nas nossas cidades se empenham para manter vivas as boas tradições dos nossos avós”. Depois, o Presidente mastigou em privado, no recato do palácio. (“Our Lips Are Sealed” das The Go Go’s).

E, optimista também José Sócrates, recém-chegado de holidays no deserto da Argélia, (os ministros fizeram a habitual vaquinha de Natal e desenrascaram-lhe 4 000 euros), proclama que tem “todos os motivos” para declarar que este ano será “ainda melhor” que 2007, tal como 2007 foi melhor que 2006, 2005 que 2004 e assim até ao Tratado de Samora. Recebeu leitão assado, espumante, doces regionais e as cantilenas da época presenteadas pelo Grupo Típico Cancioneiro de Águeda. No final, atarefado como a formiga da fábula, partiu para mais banda larga para todos (permitindo, por exemplo, acesso a blogues de strippers: Grace Undress, Hobostripper, Yonilicious, Ryann Reflections. E ao único blogue importante na net), para mais reformas, mais modernismo, mais tecnologia, mais país simplexório. Enquanto que, nos jardins do palácio de S. Bento, os populares de folclóricas vestimentas enfarpelados, tiveram de ouvir “You Don’t Have to Go Home” (de Gretchen Wilson) mas não podem ficar aqui.

Que o Tratado Europeu não seria referendado, era old news, como dizem os jornalistas portugueses. A novidade estava nas justificações para não perguntar a opinião daqueles cujo exclusivo divertimento é votar. A de Sócrates é boa: “o PS tinha um compromisso com o Tratado Constitucional. Agora é o Tratado de Lisboa, que não existia na altura. Não tem nada a ver uma coisa com a outra”. Mas era espectável. Recorre à semântica. “Tratado Constitucional” e “Tratado de Lisboa” são de facto duas expressões diferentes. Neste concurso foi Carlos César quem conquistou o primeiro lugar. O presidente do Governo dos Açores, provou que nas ilhas lêem uns livritos, não são burgessos com sotaque: “o primeiro-ministro teve, e bem, em primeira consideração a preservação da estabilidade do projecto europeu nos diversos Estados membros, o que passa, sem dúvida, pelo contributo português para uma unidade tendencial dos procedimentos na ratificação do Tratado de Lisboa”. Um esclarecimento com os elementos certos. Agita o orgulho nacional, dos feitos de Portugal, e da nossa imprescindível liderança da Europa. Somos “Rich” (dos Yeah Yeah Yeahs) em ouro intelectual!

Na ilha da Madeira a ratificação parlamentar do tratado operou um milagre. Emparelhou Alberto João Jardim com os comunistas. O patusco governante anunciou o seu apoio ao “Projecto de Resolução”, que o PCP/M vai apresentar na Assembleia Legislativa, onde pede a realização do referendo. Por este prodígio político, a Madeira merece receber a parte que lhe toca do reembolso da reforma do Pacheco, em vez de ficar congelada por excesso de endividamento do Governo Regional. Como estamos em perpétua silly season resta-nos um mergulho na piscina com Sabrina Salerno.