Pratinho de Couratos

A espantosa vida quotidiana no Portugal moderno!

segunda-feira, abril 21, 2008

Preto ou gaja?

Escrito de boa fé. Com regras límpidas. Sem letras miúdas de rodapé. Assinado por baixo de olhos fechados, alhures nos primórdios do Homo Sapiens, e chamaram-lhe… Contrato Social. Segundo Jean-Jacques Rousseau, na génese da sociedade humana, estaria um acordo tácito, através do qual, o Homem abdica do original estado natural primitivo, sem Lei, Moral ou roupas decentes, pela necessidade de cooperação e dos benefícios que daí advém como as capas para os discos, o Arnold Schewarzenegger, o rato Mickey educado, Barack Obama e Hillary Clinton, o tapete vermelho, o aspirador, o milímetro ao lado do prémio Nobel, os protestos, o Karaoke, Osama bin Laden, o e-mail, o micro-ondas, o fiambre enlatado, o banjee jumping, a montanha russa, o Nutraloaf, o hula hoop e o Salvador Dalí. Todos com a bênção de Cristo. E também a música pop iraniana.

[de Vigen Derderian, apelidado o “sultão do pop” ou o “sultão do jazz persa”, foi o introdutor da guitarra na música iraniana. Ele em #1 e #2 e #3. A música pop floresceu no Irão nos tempos do Xá Reza Pahlavi com Googoosh – em #1 e #2 e #3. Hayedeh – em #1 e #2 e #3 e com Vigen. Leila Forouhar – em #1 e #2 e #3 e #4. Alireza Eftekhari – em #1 e #2 e #3. Homeyra – em #1 e #2. E sobretudo o lendário Farhad Mehrad – em #1 e #2 e #3 e #4].

Encontramos um exemplo prático das teorias de Rousseau no contrato celebrado entre, Mme. Fanny Pistor Bagdanow e Léopold, cavaleiro de Sacher-Masoch, que estipula: “sob a sua palavra de honra, Léopold de Sacher-Masoch compromete-se a ser o escravo de Mme. de Pistor, e a executar absolutamente todos os seus desejos e caprichos e isso durante seis meses”. E continua: “por sua parte Mme. Fanny de Pistor não pedirá nada desonroso (que possa fazer-lhe perder a sua honra de homem e cidadão)”. Excluindo os “seis meses” estas são as regras do civilizado convívio democrático. Depois de aglomerados, os homens almejam um líder, um condutor de corpos e almas, um porta-bandeira, que dure mais de meio ano. Nem importa que venha do espaço, como num episódio da série “Quinta Dimensão” intitulado “Para Servir o Homem”. (Uns extraterrestres muito bonzinhos desembarcam na Terra trazendo avançada tecnologia para resolver todos os problemas que afectam as pessoas e ainda oferecem viagens turísticas ao seu planeta de origem. Mas há o intrigante livro, “Para Servir o Homem”, entendido logicamente como os preceitos para ajudar os humanos, até que o herói da fita descobre ser um livro de culinária). Ou seja escolhido por eleições directas, como nos partidos políticos, que delas querem todos os dias, ou por sufrágio universal ou geração espontânea, como nos países. “Say Hello”… meu líder.

[dos Deep Dish, duo de house music iraniano-americano. Em Dezembro de 2005, Mahmoud Ahmadinejad proibiu toda a música ocidental nas estações estatais e grande parte dos músicos emigrou. Os Deep Dish estão sedeados em Washington. Eles em “Flashdance” e num sampler de “Dreams” dos Fleetwood Mac. Na Suécia vivem os Abjeez – em #1 e #2 e #3. E Laleh – em #1 e #2 e #3 e #4 e #5. No Canadá, Shadmehr Aghili – em #1 e #2 e #3. Alguns persistem no Irão como Reza Sadeghi – em #1 e #2 e #3. E a primeira banda mista, os Arian Band – em #1].

Se nos confins do espaço, “servir” os humanos, significa servi-los assados com batatas e uma maçã na boca, na Terra não se deseja um arranjinho tão drástico, para ser saudável e feliz. O “Leader of the Pack” [das Shangri-las] doseará perigo e conforto, pois o “homem e cidadão” prefere ser conduzido por um líder, duro como o basalto, mas maternal como uma ovelha, que ordene sem ferir a dignidade. O “escravo” actual evidencia um masoquismo quanto baste. Gilles Deleuze escreve no seu livro “Sade/Masoch”: “no masoquismo, é a boa mãe quem possui o falo, quem bate e humilha, e até quem se prostitui”. Ângelo Correia, presidente da Mesa do Congresso do PSD, confirma: “quem desenvolver melhor as minhas ideias é o meu líder”. O político português não é um badameco qualquer. Ele gravita à volta do Saturno do poder, e, apesar disso, anseia pela férula, a chibata nas nádegas, o látego no lombo, dados por um líder, porque vem da “mãe fálica” e não do “pai castrador”. Provoca prazer e não frustração. Uma mãe pune sem “Wound”.

[dos Meera, grupo iraniano de rock alternativo – em #1. Outra banda similar é O-Hum – em #1. E os NABZ – em #1].

Explicava Rousseau no “Contrato Social”: “quando muitos homens reunidos se consideram como uma só entidade, só podem ter uma vontade, e esta tenderá para a conservação comum e o bem-estar geral”. Não há que enganar! O corriqueiro votante, de bom grado, se submete aos “desejos e caprichos” do amo por um pedaço deste céu. Mas a escolha do líder não está fácil, nesta época confusa, onde Roma corre risco de ser conquistada pelo Islão, os homens finalmente podem parir, as raparigas têm pêlo na venta e a população mundial confronta-se com decisões inevitáveis para conter as mudanças climáticas. Felizmente, os líderes europeus, trepadeiras de profissão, sem capacidade para comandar uma cidade Lego, tomaram consciência da sua inutilidade e aguardam, em pulgas como adolescentes, o desfecho das eleições americanas, para saberem qual o seu dono. E a América exporta, através dos Meios de Comunicação Social, um dilema pioneiro. Como Hichkas.

[Hichkas é um pioneiro do rap iraniano – em #1 e #2. E também o grupo Zedbazi – em #1 e #2].

Nas próximas eleições americanas exclui-se, por razões de estrutura do sistema político, o candidato libertário, Mike Gravel [versão melhorada da canção “Helter Skelter” dos Beatles]. Quem não pertence a um dos dois partidos, tem mais possibilidades de achar uma nota de um milhão de dólares, que entrar no boletim de voto para a Casa Branca. Os actuais feiticeiros de Washington pavimentaram a estrada do futuro, de um cinzento terrorista, para o desembarque heróico de Rudy Giuliani. Ele que era afamado por comer terroristas ao pequeno-almoço seria a salvação da América. Depois aconteceu uma coisa inesperada, durante a campanha, Giuliani abriu a boca e… falou. E só saiu, o termo técnico-político é, “shit”. Enquanto mayor de Nova Iorque, no 11 de Setembro, ele fora louvado como condutor de homens, admirado por ter pulso firme, muitos pensavam que ali havia líder. Mas depois dele abrir a boca constataram que, um político medicado com o seu Prozac, o seu Xanax e o resto da farmacopeia internacional, (como sucedia também com Wbush), parece um Napoleão com dois metros de altura. Um Zaratrusta!

[dos Soashyant, grupo de thrash metal – em #1. Também os Ahoora – em #1. Os Aliaj – em #1. E os Kahtmayan – em #1 e #2].

Os líderes europeus alapam o rabo no sofá para assistir ao novo duelo no Ok Corral. Restringem-no a Hillary Clinton versus Barack Obama. E o outro que todos esperam não chova ou o mundo não será salvo. Os líderes europeus estão acagaçados com a imagem do Santo Padre, (o rottweiler de Deus como lhe chamam os americanos), despojado dos chanatos de S. Pedro, desenho exclusivo Prada, partir para o exilo em Avinhão ou nas Berlengas, segurando pelas correias um burro, carregado de parcos paramentos e uns Zurbarán ou el Greco para vender. Ou que o maluco onzenar da banca desmorone a riqueza do continente. Colocam as esperanças na “experiente senhora da política” e no “jovem senador negro”. Mas com o coração a palpitar por um deles. “Incessant Winds of Despair”.

[dos Arthimoth, grupo iraniano de death metal. Também os Ekove Efrits – em #1]

No final do século XIX, início do XX, a América viveu um clima semelhante. A luta travou-se, não entre gaja ou preto, mas entre branco e preto. Jack Johnson, nascido em 1878 e alcunhado “o gigante de Galveston”, foi um boxeur preto com um petardo que mandava os adversários directos para os anjinhos. Venceu todos os pugilistas da sua raça alcançando o título do World Colored Heavyweight Championship em 1903. Mas o ambicionado World Heavyweight Championship era outra liga. Os pugilistas brancos não combatiam contra pretos. Por coincidência, o mundo do boxe atravessava um período de marasmo. O campeão, James J. Jeffries, não tinha oponente e retira-se para a sua quinta de alfafa. Tommy Burns, um canadiano, fica com o título. Os empresários de Johnson conseguem agendar um combate com ele, na Austrália, em 1908. Foi um massacre. Johnson torna-se o primeiro preto campeão dos pesos pesados. Regressa aos Estados Unidos em glória. Ele gostava de roupas finas, “fast cars, fast women e slow gin”. Casa com Etta Duryea, uma branca divorciada. O clero sulista pedia linchamento. O governador da Carolina do Sul afirma: “só há um castigo quando um preto põe as mãos numa mulher branca”. Para complicar, ele gostava de se pavonear, metendo uma toalha enrolada dentro dos calções, com efeito lascivo delirante nas mulheres brancas e ódio mortal entre os brancos. Os pretos estão radiantes. Vêem em Johnson o vingador de todas as humilhações causadas pelo racismo vigente. A América branca vê a superioridade da raça ameaçada. Inicia-se a campanha para resgatar o orgulho branco. A esperança posta em Stanley Ketchel, campeão dos pesos médios em 1904, foi em vão. Ele é derrotado. Convencem Jeffries a voltar. O escritor Jack London chama-lhe “a grande esperança branca”. Jeffries explica: “entro neste combate com o único propósito de provar que o homem branco é melhor que o preto”. O governador de S. Francisco não autoriza o combate na Califórnia. Ele é deslocado para Reno, no Nevada. O único meio de comunicação era o telégrafo. As pessoas reuniram-se nos jornais e nos teatros que liam as tiras de papel saídas da máquina. Quando Jeffries foi ao tapete rebentaram motins no país. E Johnson foge para a Europa. Mais tarde irão apanhá-lo com a lei Mann, feita para proteger as brancas que eram levadas para a prostituição, proíbe o tráfico de pessoas através das fronteiras estaduais. Utilizam Belle Schreiber, funcionária sexual num bordel de luxo, que testemunhará ter tido sexo em Nova Iorque, Atlanta, Chicago, durante as viagens de comboio de Johnson. A História Preta só surgirá mais tarde. E, pelo menos, mudou as origens do rock. De uma maneira geral aceitava-se a canção "Rock Around the Clock”, de 1954, por Bill Haley & His Comets, como o marco inicial do Rock 'n' Roll. Com a revisão provocada pela chegada dos pretos à História essa origem deslocou-se para “Rocket 88”, (de 1951), de Ike Tuner & the Kings of Rhythm.

domingo, abril 06, 2008

À sombra do empurrão

Há algo sadio na Costa Oeste da Europa! “Há sol na rua”, diria Boris Vian, ebrirridente. Mas, ao contrário do faz-tudo francês que afirmava, “gosto do sol mas não gosto da rua”, nós não ficamos fechados em casa “À espera que o mundo venha / Com as suas torres douradas”. Arraigados na mentalidade ganhadora zarpamos para o mundo. Cáspite! Outra coisa não seria de esperar num país de pochete cheia. País de racemoso futuro, para ser depenicado, espojado numa otomana, como se vivêssemos na mansão Playboy. Um país onde um cidadão, com um rendimento mensal de 494 €, é considerado rico, o pão pode encarecer, porque há a alternativa da papança com estrelas Michelin. (Em Portugal, essa quantia marca o início da vida contributiva, ou seja, é obrigatório devolver aos cofres do Estado o remanescente, após um mês de loucura, a gastar à tripa-forra). Não há que enganar. Não nos falta qualidade de vida. Estamos encalacrados no século XXI. Somos “21st Century Boy”.

[dos Sigue Sigue Sputnik, nome retirado de um gang de rua moscovita e significa “arde, arde satélite / companheiro”. Os SSS foram os precursores do cyberpunk, a banda sonora, em ritmos electrónicos, de um mundo futurista de hiperviolência, high tech, sexo e glamour. Eles em “Love Missile F1-11” & “Sex Bomb Boogie”. Foram formados no início da década de 80, por Tony James, ex-baixista do grupo punk inglês Generation X, cujo vocalista era Billy Idol. James também tocou nos Sister of Mercy].

O proeiro da nação, acompanhado da sua Penélope, desceu do avião em Moçambique, para uma semanita de férias e três dias de visita oficial. Levava na bagagem o habitual séquito de empresários para dar, em terras de além-mar, um empurrão na economia portuguesa. Obviava Teixeira dos Santos, ministro das Finanças, que quer a economia a crescer “ao estilo dos balões de São João que ficam lá em cima mais tempo” e não como um foguete que “sobe e cai de imediato”. (Esta festiva economia dos Santos Populares causou arraiais, fogueiras, bailaricos, à saída dos supermercados, quando as massas subiram 25%, o pão 8%, o café 10% e o leite entre 5% a 30%, e nem sequer fez mossa nos 494 €). Porém, Cavaco Silva não se cingiu a tartuficar os autóctones com as novas missangas, como bom português, relembrou com saudade o passado. Ele, jovem alferes, recém-casado, cumprira em Moçambique uma comissão militar entre 1963 e 1965. Habitou, com outros tropas, um prédio a estrear na avenida Pinheiro Chagas. Colocado num trabalho de secretaria na Administração Militar, escoava os dias no paleio pelos cafés, viagens pelos países vizinhos e na filmagem da vida colonial em super-8. Agora, como Abracourcix luso, propõe que se ultrapasse a Guerra Colonial através da evocação dos “aspectos positivos da História”. Relembre-se a marrabenta e a descolonização exemplar! E o resto esvaece-se. Decididamente Cavaco Silva é um “20st Century Boy”.

[dos T. Rex, grupo de Marc Bolan, começou num projecto folk e atingiu o sucesso no glam rock. Em “Children of the Revolution” & “Bang a Gong (Get it on)” & “Telegram Sam” & “Metal Guru”. Bolan faleceu em Setembro de 1977 antes de completar 30 anos. Ele nunca aprendera a conduzir apesar de possuir um Mini 1275GT. Aterrorizava-lhe morrer num acidente de viação. No dia 15, sua a namorada, Gloria Jones, espeta-lhe o Mini roxo contra uma árvore na ponte Barnes, no sudoeste de Londres. Bolan morreu de imediato mas há quem diga que antes já tinha sido morto por um cocktail de sucesso, dinheiro, cocaína e brandy. Jones sobreviveu. Ela em “Go Now” e um dueto com Bolan em “To Know You Is To Love You”].

No Porto também se empurrou a História. Na Escola Secundária Carolina Michaelis, uma cena de teimosia, numa sala de aula, é interpretada pelos opinion makers como violência no meio escolar e… o resto da sacristia não viu outra coisa. Na pronúncia do norte, Patrícia, 15 anos, aluna do 9º ano grita: “dá-me o telemóbel já!”. A professora de Francês para provar que também é casmurra não larga e começa um jogo de persistência. A aluna não abdica do seu mais precioso objecto, a professora não cede na sua autoridade e o coro dos jornalistas berraram: “bárbara agressão na sala de aula”. E o trivial corrupio das autoridades competentes estoura. Entram todos na praça, como na “Tourada” do Ary dos Santos, para mostrar serviço. Numa economia atrasada, como a americana, choveria propostas para a moça. Contratos para gravar um disco, entrevistas, reality shows, presenças em festas etc. E, com um pouco de cabeça e uma mãe empreendedora, estava lançada para a vida. Em Portugal é transferida de escola, para aquietar o sentimento de dever cumprido do exército dos oleiros das gerações futuras e siga para bingo. Ainda cá não chegaram as 21st Century Girls.

Há anos largos que os psicólogos alertam para o facto dos telemóveis, nas novas gerações, terem substituído as drogas, provocando idênticos sintomas de uso compulsivo e de abstinência. Ou seja, a Phone House substituiu o Casal Ventoso. Para a geração anterior este bairro lisboeta era o supermercado da droga. Milhares de consumidores, de muitos quilómetros ao redor, rumavam com a precisão de um Seiko Velatura para lá, procurando a melhor oferta quantidade / qualidade. Filas enormes formavam-se nos vários pontos de venda, frequentemente desfeitas, por repetidos alarmes de entrada da bófia no bairro, dados pelos vigias colocados em pontos estratégicos. Depois de aviarem as quartas (mais ou menos um quarto de grama, embalado nos cantos cortados de sacos transparentes, usados para comprar fruta no supermercado), os viciados apressavam-se pelas ruelas de saída, onde, nos dias de galo, lhes saía ao passo um diligente polícia, com manias de engraçado, que galhofava: “hoje é o teu dia de sorte, não vais preso, faz lá uma raspadinha na parede”. E, não havia escapatória deste encontro imediato de chato grau, senão esfregar os saquitos contra a rugosidade de um muro. Mas o vício não se compadece com duvidoso humor policial, obriga a redobrado esforço para conseguir o precioso pó, nem que seja ir roubar uma velha. [Os mestres cantaram esta forma de vida. Os Velvet Underground em “Heroin” & “I’m Waiting for the Man”. E Eric Clapton com “Cocaine”].

A actuação policial para conter um ilícito ocasionava outro ilícito, que muito diz sobre a inteligência das autoridades competentes, e da atabalhoada maneira de fazer lusa. Também nesta relação de autoridade / subordinado, a tendência inicial seria para espingardar com o bófia, gritar-lhe: “dá-me a quarta já!”. Mas eles vêm aos pares e são mais fortes. Nas escolas a força física é desaconselhada pelas modernas pedagogias. Deve-se cativar os jovens pela empatia e falinhas mansas. Todavia, a escola sempre foi um lugar violento. É nela que, fora da protecção da família, se aprende as realidades da vida. (Aprende-se sobretudo as formas de defesa física e psicológica dos outros e… umas coisitas que os professores por lá ensinam). As sociedades actuais estão cada vez mais violentas. Por exemplo, pede-se a morte como se de um copo de água se tratasse. No início do ano, Yitzahak Cohen, ministro israelita dos Assuntos Religiosos dizia: “Hassan Nasrallah deve ser assassinado e quanto mais depressa melhor”. Ou, um exemplo ainda mais significativo, porque revela como a linguagem figurada, reflecte o clima social geral: há dias um conhecido blogueiro português vozeava para retirar Luís Filipe Menezes, da presidência do PSD, nem que fosse “à bomba”. (É natural que os jovens, na aprendizagem do convívio social, tenham que mostrar mais violência contra os outros, como forma de defesa). E começam a organizar-se cedo. Na Center Elementary School, no sul da Geórgia, a polícia abortou uma perigosa conspiração. Um grupo de crianças entre os 8 e 10 anos planejava raptar a professora, porque esta repreendeu um deles, por estar em pé sobre uma cadeira. Apreenderam-lhes uma faca de cozinha partida, algemas, fita-cola e a polícia explicou que o plano era elaboradíssimo, incluía distribuição de tarefas, como cobrir as janelas e limpar tudo depois. [Na década de 60, na Inglaterra, os jovens divertiam-se com motas Vespa italianas, roupas com estilo, concertos musicais, cenas de porrada nas praias de Brighton e os The Who tocavam “The Kids Are Alright”. Passada a adolescência iam trabalhar. Nos nossos dias, gravidezes precoces, suicídio, obesidade, crack, radicalismo político ou religioso, desemprego e os The Offspring tocam “The Kids Aren’t Alright”].

Por outro lado, a sociedade tem vendido a ideia da juventude eterna. Confundiu-se um marketing publicitário das empresas de cosmética e clínicas de cirurgia plástica com a realidade. E os velhos negam a velhice, com expressões disparatadas como “jovem de espírito”. Mas a alucinante velocidade da evolução tecnológica torna as gerações obsoletas cada vez mais cedo. Não é de esperar que os mais velhos compreendam a importância da comunicação por SMS entre os jovens e uma professora retire um telemóvel de ânimo leve. Os professores encasquetaram que os conhecimentos transmitidos são importantes, requerem atenção quando falam, acenando aos alunos um futuro brilhante. (Para alguns é verdade. Sufiah Yusof foi considerada um génio e com 13 anos entrou em Oxford. Aos 23 anos é uma prostituta de sucesso e cobra 258 dólares por hora). Com esta fornada de pessoas que acredita ter ultrapassado o Choque de Gerações perdeu-se, pelo menos, a escola que aterrava os putos [“Smoking in the Boys Room” dos Mötley Crüe] mas ganhou-se um falso sentimento de compreensão dos jovens, e quando eles não ligam peva às aulas partem-se os docentes corações. Talvez a solução da professora boa, para motivar os alunos, resulte. [“Situations” dos Escape The Fate ou Van Halen em “Hot for Teacher” ou os Mundo Secreto em “Põe a Mão no Ar”]. Ou, acabar com a escola de vez como Alice Cooper em “School’s Out”. [Versão mais moderna dos GWAR].

Telemóveis e computadores são o plâncton do século XXI. Alimentam um novo tipo de Homem e alteraram as formas de comunicação. Eles permitem captar, editar e colocar imagens na Internet. E causar burburinho social quando elas aparecem no YouTube. Esta facilidade tecnológica teve uma consequência interessante: originou comportamentos voluntários, mas rejeitados pela sociedade, para serem filmados e colocados, como troféus, no popular site de partilha de vídeos. Em França uma violação em grupo, na Inglaterra agressões a jovens mais fracos etc. Na sala de aula do Porto a ocasião fez o cineasta. Rafael, aluno da turma, munido de um telemóvel, filma a altercação professora / aluna. As imagens desencadearam represálias do sistema educativo: ambos foram transferidos de escola. (Só os vídeos de agressões de polícias aos cidadãos não têm consequências e conduzem inevitavelmente ao encerramento do inquérito). No país com o realizador mais velho do mundo em actividade, Manoel de Oliveira, que, se exceptuarmos “Douro, Faina Fluvial”, em 1931, nunca fez um filme digno desse nome, seria de esperar que o jovem Rafael fosse recompensado pelo vídeo, mas também ainda cá não chegou o “21st Century Digital Boy” (do grupo punk americano Bad Religion).

Os Meios de Comunicação Social não podem estar órfãos de noticiabilidade. Enquanto a moda durar veremos jornalistas de microfone em punho em frente de escolas. Choverão notícias, de alunos prevaricando e professores com a pata na poça, para mostrar pluralismo democrático. Na Escola Primária do Salgueiral uma professora cola a boca de aluno com fita adesiva, noutra um aluno de 12 anos agride uma funcionária etc. Entretanto, a professora do vídeo, Ana Espírito Santo, cidadã de um país de advogados, cita a sabedoria popular, “tão ladrão é o que rouba como o que fica à porta”, para justificar uma queixa contra a alegada agressora e duas contra os colegas da turma. Mas o jogral da festa foi o Procurador-Geral da República que surgiu informando a populaça do reino que um número indefinido de crianças vai armado para a escola. Este fenómeno manifesta-se desde os 6 anos com armas brancas e pistolas 6.35 e 9 mm. E, segundo o magistrado, os pais mais participativos na educação dos filhos, dizem “leva a minha pistola para te defenderes”. O Procurador, conhecido por iniciar processos judiciais a partir de livros escritos sob a influência da dor de corno, não é o funcionário público mais fiável do mundo. Talvez o “olá às armas” seja mais um mito urbano, (no início de 2 000 corria o rumor da venda de granadas em Lisboa, que nunca ninguém viu, a 7 500 escudos cada uma), ou então os putos de hoje estão com um arcaboiço do caraças para dispararem uma 9 mm, ou então chegou ao enriquecido Portugal o “21st Century Schizoid Man.

[Dos King Crimson, grupo inserido na área do rock progressivo fundado por Robert Fripp em 1969. Na década de 80, Fripp casou-se com Toyah Wilcox. Ela em “It’s a Mystery” & “Leya” & “Echo Beach”. E junto do marido. Os Crimson, já sem Fripp, em “In the Court of the Crimson King”].