Pratinho de Couratos

A espantosa vida quotidiana no Portugal moderno!

quarta-feira, setembro 24, 2008

Nos falta la plata

No ano de 1927, a segunda mulher de Henry Miller pirou-se para Paris, com a sua amiga colorida, Jean Kronski. Miller conhecera June Mansfield Smith, num salão de dança, na Broadway, quatro anos antes. Ela obrigou-o a abandonar a mulher, a filha e o emprego na Western Union para escrever. Para o sustentar trabalhava em restaurantes, na Greenwich Village, complementando o salário com aquilo que chamava “gold digging”, que consistia em utilizar os atributos femininos para sacar dinheiro aos homens entesoados. Na Village, vinda da costa Oeste, conhece uma mulher de beleza rara, cabelos negros compridos, olhos cor de violeta, um internamento psiquiátrico e ambições artísticas. June rebaptizou-a Jean Kronski e inventou-lhe um passado romântico ligado aos Romanoff. Viveram os três numa insalubre cave, esterilizada pelo consumo de cocaína, em Henry Street, no Brooklyn até que, numa noite de Abril, Miller deparou-se com a casa deserta e um bilhete de despedida.

[Música pop, em Singapura, nos anos 60: Idaly Sisters & X-Periment – “Funky Broadway”. The October Cherries – “Far Away Now”. (Alguns elementos pertenciam aos The Surfers). Naomi & The Boys – “As Life Goes On” xx “It's All Over” xx “Happy, Happy Birthday, Baby”. Siti Zaiton and The Hornets. Aziz Jaafar & Saloma. The Rhythm Boys com S. Mariam. The Mods com Wan Intan. D’Hatta & D’4Ever. Susan Lim and The Crescendos – “Waktu Fajar”. Anneke Gronloh. M Ishak and The Young Lovers. M. Fazil & Orked Abdullah & Les Coasters. The Quests – “Don't Play That Song” xx “The Young Ones” xx “Be My Girl”. Les Kafila’s. The Straydogs].

Depois das duas safistas terem dado de frosques, no subsequente período de depressão, Miller desatou a escrever. Nessas notas, mais tarde publicadas sob o título “Crazy Cock”, ele é Tony Bring, um escritor encravelhado pela sexualidade da mulher. Quer saber se Hildred (June) é lésbica e faz-lhe a pergunta: “podes dar-me um resposta directa e em poucas palavras?”. Mas ela “nunca dizia nada em poucas palavras”. Gastou centenas sem aflorar o assunto. Um comportamento, na aparência, perturbado ou neurótico, no entanto, vulgarizado entre aqueles que conduzem as sociedades. Os dirigentes são especialistas do palavreado sem destino, por exemplo, a vice-ministra moçambicana da Agricultura, Catarina Pajume, não declara que, no país, mais de 300 mil maltrapilhos famélicos vão bater a bota, adocica as palavras, dizendo que estão “em situação de extrema insegurança alimentar”.

[Música pop na Checoslováquia dos anos 60/70: Yvonne Přenosilová – “Tak Prázdná” xx “Boty Proti Lásce” xx "Mě se Líbí Bob" xx “Nikdo Netuší”. Karel Gott – “Trezor” xx “Bum Bum Bum”. Synkopy 61. Atlantis. Odyssea. Lenka Hustlová e Jiří Suchý. Olympic. Valérie Čižmárová. Drahomíra Vlachová, Jitka Zelenková e Valérie Čižmárová. Hany Zagorové. Helena von Dráčková – “Pátá”. Greenhorns. Naděžda Urbánková. Marta Kubišová – “Hey Jude” xx “Depeše” xx “Nepiš Dál”. Helena von Dráčková e Marta Kubišová. Eva Pilarová. The Matadors – “I Think It's Gonna Work Out Fine” xx “Hate Everything Except Of Hatter”. The Soulmen – “I Wish I Were”. Blue Effect. Vera Spinarova].

Na recente Era da “prática de crimes violentos” viu-se coisas de pasmar. No dia 5 de Setembro, uma sexta-feira, num ponto nevrálgico de uma “zona problemática”, o Bairro da Bela Vista, em Setúbal, a bófia assentou arraiais para mais um controlo de “ilícitos”. Tudo muito normal. Extraordinário é que nesse dia chovia bem, e eles aguentaram as bátegas ali, na batata, como homens, sem protecção de impermeáveis. Os polícias de mangas arregaçadas, naquelas fardas fashionistas, abraçados à metralhadora HK, molificaram a tripalhada nacional. Não se via portugueses tão encharcados desde a dobradura do Cabo das Tormentas. Mas, mais emocionante ainda, foi ouvir o fluxo palavroso dos dirigentes sindicais da classe, dobrando a língua para não falar em dinheiro. Davam a volta pela rotunda da “falta de meios” para não verbalizarem, a direito, que, tal como “La Cucaracha”, (por Lila Downs) lhes falta la plata, o graveto, para caminhar. E, desviarem a atenção de um dos factores responsáveis pela “onda de crime grave”: o sindicalismo policial. As reivindicações pela adubadela do bolso afrouxaram a vontade de trabalhar nos últimos anos.

[Música pop vietnamita no passado e no presente: Giao Linh. Phuong Tam. Rose. Khánh Ly – “Niem Khuc Cuoi” xx “Saigon Oi”. Thuy Tien – “Khuc Nhac Ngay Xuan” xx “Ngoi Nha”. Ho Ngoc Ha – “Suoi Mo” xx “Dem Nghe Tieng Mua”. Cat Tien – “Cung Vui Dem Nay” xx “Oohlala”. Bao Han – “Duoi Anh Nang Mat Troi” xx “Dung Voi“. Loan Chau – “Tinh Dau Dang Cay” xx “Em Van Nguyen Cau Vi Anh”. Tú Quyên – “Còn Lại Nhớ Thương“ xx “Noi Buon Con Gai”. Như Loan – “Trọn Kiếp Bình Yên” xx “Mong Anh Se Den”. Bao Han, Loan Chau, Tú Quyên e Nhu Loan].

O Procurador-Geral da República é um Action Jackson (filme de 1988 com actuação de Vanity). Um faz e acontece, sem medo do crime, nem da voz pública ou publicada, mas também ele não expressa directamente o seu desejo, e dos colegas, do inchamento imediato do saldo bancário. Como tem mais estudos que os polícias, contorna a situação, com o ardil mais inteligente da “promoção na carreira”. Pinto Monteiro propôs: “tem de ser criado um estatuto do Ministério Público, que impeça as pessoas de estarem 10 ou 18 anos como procuradores-adjuntos, criando rotina e desmotivação. O poder político tem de perceber que, se se exige ao MP que saia da cadeira e esteja mais próximo dos cidadãos, tem de se dar alguma coisa em troca”. Seguindo este académico raciocínio, se houver “justiça”, um engraxador da rua da Betesga, para não cair na “rotina e desmotivação”, tem que ser promovido a um lugar no Rossio.

[Denise & Company – “Boy, What’ll You Do Then”. Denise Kaufman, estudante de Berkeley gravou este single com a banda da Universidade, sobre o ex-namorado Jann Wenner, co-fundador da revista Rolling Stone, antes de se juntar às Ace of Cups, grupo feminino de rock psicadélico – “Simplicity” xx “Circles” xx “Glue”.

Banda de Manchester, Little Frankie com The Country Gentlemen – “The Kind Of Boy You Can't Forget”.

Trio feminino canadiano The She Trinity – “Yellow Submarine” xx “Promise Me You’ll Cry” xx “Climb That Tree”.

O grupo multiracial de funk Loading Zone no bizarro filme “Roseland” xx “Don't Loose Control / Danger Heartbreak”. A vocalista, Linda Tillery, gravou o primeiro álbum a solo em 1970, chamado “Sweet Linda Divine” – “I’ll Say It Again”. Tillery é também percussionista tocando, por exemplo, no álbum Santana III. Editou o álbum “Freedom Time” em 1977 e “Secrets” em 1985. Actualmente integra The Cultural Heritage Choir].

sábado, setembro 13, 2008

Adeus às bisnagas

Há muitas expressões com macacos. “Macacos me mordam”. “Macaco hidráulico”. “Fato de macaco”. “Macaco Adriano”. O simpático primata cativou nos desenhos animados, ensinando arte, música (filme de Len Lye) e comportamentos sociais. A sua pegada pedagógica nos humanos traduz-se na frase: “macaco vê, macaco faz”. “A imitação é um comportamento avançado onde um indivíduo observa e repete o comportamento de outro. Termo aplicado, desde o treino de polícias à política europeia” – lê-se, numa tradução livre, na Wikipédia. Para a formação de um polícia, o acto de macaqueação é tão importante, como aprender a mosquetear certeiro o malfeitor.

[a música pop coreana, nas décadas de 60/70 imitava, de certeza, os portugueses – o povo na génese dos maiores feitos da Humanidade. Kim Jung-mi 1 / 2 » Kim Choo-ja » Patty Kim » Yoon Bok-hee » Moon Ju-ran » Choi Yang-sook » Lim Seon-ah » Lee Sisters » Kim Sisters » Kim Sang-hee » Jeong Hoon-hee » Yoon Si-nae » Yoon Hang-gi & Key Brothers » Korean Black Eyes].

Em 1961, Albert Bandura gastou o seu inglês na experiência do boneco Bobo, para provar que as pessoas inseridas num ambiente agressivo, manifestam comportamentos violentos. Este foi o primeiro estudo sobre os efeitos da visão de violência. Abrindo uma discussão, não consensual, acerca das imagens de bordoada na TV e no cinema. Os polícias antigos formaram-se macaqueando os filmes de kung fu. (Mad Monkey” » “The Tigress of Shaolin” » “Eight-Diagram Pole Fighter” » “Disciples of Shaolin” » “Men from the Monastery” » “Come Drink With Me” » “Five Deadly Venoms” » “Dragon from Shaolin” » “Legendary Weapons of China” » “The Iron Monkey). Esses polícias, equipados da filosofia de monossilábicos e caprichosos mestres, para a exclusiva feitura do Bem, através de golpes acompanhados de iáááá! iáááá!, esbandalhavam os fora-da-lei antes que cometessem a “criminalidade violenta e grave”.

Os filmes de hoje (Hellboy II” » “Babylon A.D.” » "The Dark Knight" » “Death Race” » “Quantum of Solace” » “Mamma Mia!) atascados de efeitos especiais computorizados, protagonizados por heróis sobre-humanos, acompanhados de mulheres sem um único defeito na pele, executando acrobacias impossíveis de reproduzir na realidade, eliminaram o mimetismo, provocando ansiedade e depressão, e coarctando a “acção policial”.

[Na distante Mongólia, a música pop actual respira paz e serenidade, o sonho do ministro Rui Pereira para as ruas portuguesas. Sansaraa » Bayartsetseg » Anu » Gala » Serchmaa » Sally » Kiwi 1 » 2 » 3 » Undral » 3 Okhin » Naraa » Saran].

A luta entre polícias & ladrões tornou-se desigual, porque os malfeitores “são jovens e arriscam mais”. E são pastilhados pela arrogância e insolência dos novos heróis dos filmes. Quando saem da sala de cinema, sentem-se os maiores, intocáveis, invencíveis e vão assaltar bombas de gasolina. Mas os operadores de segurança estão atentos. Um deles, ligado aos meios judiciais, desfilou o rosário habitual da “articulação da informação”, a “prisão preventiva”, o “poder ser preso com armas ilegais”, mas introduziu uma novidade na discussão. Afirmou que “isto é uma doença”. Assim, a cura chama-se, obviamente, Marion Cobretti. E o “Cobra” já vem com o portuguesíssimo palito no canto da boca.

Os baús da TV desencovam outras soluções para termos uma pervígil força policial. O combate à “criminalidade violenta e grave” não é tarefa para um herói, requer um superherói que, segundo o senso comum, veste collants e capa (opcional). Tal como Spiderman » Captain Marvel » Green Hornet e o ajudante Kato (interpretado por Bruce Lee) » Batman e o jovem pupilo Robin. As mulheres-polícia têm um modelo comportamental adequado na Wonder Woman. Uma insonsa rapariga, que vivia com uma mãe galinha, quando sentiu o chamamento dos “incidentes táctico-policiais”. O primeiro levantar voo, da janela do seu quarto, foi bastante desajeitado. Mas Diana Prince melhorou com o domínio das técnicas de maquilhagem e desenvolveu um método fácil de mudar para a sua identidade secreta, sem se despir na via pública, rodando sobre si mesma. (Ou podem emular um grupo de Wonder Women). Os GNRs, por terem apostado na qualificação, galgando da 4ª classe para o 9º ano, são os mais beneficiados com sadios exemplos: The Cisco Kid » The Roy Rogers » The Lone Ranger. E os cães dos GNRs imitam The Adventures of Rin-Tin-Tin.

Alberto João Jardim gosta muito de banana. O elevado teor de potássio no sangue converteu-o num arguto analista da situação. Viu na “onda de criminalidade violenta” uma felonia. Uma revolta do vassalo contra o senhor. Comunistas, esquerdistas, revolucionários, bombistas conspiram uma nova arrumação da sociedade. Alberto profetizou: “esta situação não está muito clara. Está a ser vendido aos portugueses a ideia que se trata de um surto grave de criminalidade, mas já não é só isso, foi despoletada uma revolução social com laivos de violência”. Uma ameaça paira sobre os sagrados alicerces da ordem social e que ultrapassa o “acto policial”. Os Mellos, Amorins & companhia, em fuga para o Brasil, era o fim do mundo.

Embora a GNR tenha nos quartéis as G3 para cortar revoluções pela raiz, não é bem o seu cup of wine. Combate-se as “revoluções sociais” com mercenários. Os soldados da fortuna mais eficazes são os ninjas e, os infalíveis, são os americanos. Porque Michael Dudikoff e depois David Bradley respiram os valores do Ocidente e vêm por ordem numérica: “American Ninja” » “American Ninja 2: The Confrontation” » “American Ninja 3: Blood Hunt” » “American Ninja 4: The Annihilation”. E, também, porque só os americanos estão autorizados a mexer em assuntos de Estado. Se uma zona tem petróleo, ouro, mirra, incenso e uma Selecção Nacional de Futebol, como o Kosovo, alcança o estatuto de país independente. Se não, como a Ossétia do Sul e a Abkhazia, será província da Geórgia para sempre. No entanto, os ninjas têm uma desvantagem. Os piratas, os seus inimigos ancestrais, perseguem-nos e Portugal tem umas largas costas, por onde indivíduos de colarinho branco aos folhos, podem entrar.

O alarme social causado pelos crimes de mulheres em roupa interior despoletou medidas drásticas do Estado americano. O “combate à lingerie ilegal”, o “recrutamento especial de 4 000 polícias”, “mais meios”, “videovigilância nas lojas problemáticas,” “partilha de informação sobre colchetes”, “alteração da lei de porte de lingerie”, “cumprimento integral das penas”, “suspensão do processo de atribuição de nacionalidade a requerentes apanhadas em lingerie” e “obrigatoriedade de julgamentos em 72 horas para detidas em cuecas”. Pelo mundo fora muitos macacos de imitação copiaram este programa de combate contra a “espiral de insegurança”. Paulo Portas é o nosso político mais americano. Donald Rumsfeld recompensou esta dedicação do ex-ministro da Defesa com a medalha de ouro do Congresso. Portas importa as ideias dos Estados Unidos e propôs exactamente a mesma estratégia para porfirizar o “crime violento”. Segundo o seu evangelho, Portugal aspira a uma “mão pesada”, como Steven Seagal. Que ganhou reputação nos filmes de acção com uma particularidade na banda sonora: o som de ossos a partir em estereofonia. E, nos anos 80, fez as delícias das salas de estar equipadas do leitor de vídeo VHS Stereo. Um dos pilares da lei & ordem, tal como Portas, não admite ninguém “Above the Law” e é “Hard to Kill”. Em “Marked for Death” defende os valores mais queridos da Direita: “you fuck with my family you die”. No “Out For Justice” não hesita em largar a arma e o crachá, para afagar com os punhos os criminosos, como nos interrogatórios da PJ. E é um prendado melómano: “Girl It's Alright” e rocks Londres.

No carrossel de dislates sobre a “onda de violência”, o bolo por baixo da cereja, foi cozinhado pelo Procurador-Geral da República. Pinto Monteiro perolizou: “o hiper garantismo concedido aos arguidos colide com o direito das vítimas, com o prestígio das instituições e dificulta e impede muitas vezes o combate eficaz à criminalidade complexa”. E aguarda que o legislador faça os ajustamentos legais necessários para combater a criminalidade violenta. Uma justificação destas, ouvida da boca de um pelitrapo qualquer, numa conversa de pastelaria, é normal. Mas quando é proferida por um funcionário, poisado num galho alto da magistratura, demonstra o famoso “espírito científico” das elites portuguesas.

Em vez de verificar, se existe alguma relação causa-efeito, entre a mexida nos termos da prisão preventiva no Código Penal e o aumento da “criminalidade violenta e grave”, limitou-se à desculpa esfarrapada, para não apontar uma outra evidente: a pouca talha para o trabalho dos juízes, procuradores e advogados. Como a sua casa de família e férias, em Porto da Ovelha, foi assaltada, Pinto Monteiro terá no próximo Orçamento de Estado verba para contratar o Ranger do Texas. Chuck Norris é a lei & ordem. A sua perna esquerda chama-se Lei e a direita Ordem. Chuck combateu Bruce Lee (no filme vê-se o célebre gato seguindo atentamente os golpes do mestre). No início da carreira, morreu várias vezes, enquanto não dominou os truques do “Livro Tibetano dos Mortos”, depois foi sempre a partir cascalho. Ajudou Mike Huckabee na corrida à Casa Branca. Legou à Humanidade frases e proezas. E lançou uma feroz discussão universitária sobre qual é o mais letal? O Chuck com barba ou o Chuck só de bigode. Um enigma sem solução que obrigou à produção de filmes de síntese. Nalgumas cenas aparece de bigode, noutras, de barba.

Em Maio, durante o terramoto na província de Sichuan, a mulher-polícia Jiang Xiaojuan, 29 anos, mãe de um bebé de seis meses, sacou da teta para amamentar crianças recolhidas dos escombros. Explicou ela: “é uma reacção maternal e um dever básico, como polícia, ajudar”. Em Portugal, as mulheres-polícia imbuem-se também neste espírito. Elas são as fadas da esquadra. Desde que foram incorporadas nunca mais um guarda saiu à rua sem um botão na camisa ou as meias descasadas. A elas se deve aquelas exposições arrumadinhas, dos objectos confiscados aos criminosos, para a TV filmar. As mulheres-polícia, que patrulham as ruas de Cristiano Ronaldo, não figuram entre as 50 melhores mamas, mas não têm macaquinhos no sótão, pela extremosa educação conventual fornecida pelo Estado. Só frequentam escolas hissopadas pelo Plano Tecnológico.

Nele inclui-se a “School of the Holy Beast1 / 2. Esta reputada escola, uma parceria público-privada, nunca formou uma “Killer Nun”, que necessitasse do “El Inquisidor”, nem as alunas se apresentavam “Nude for Satan”. A formação moral irrepreensível, associada às tecnologias da informação, produzia nas educandas filigranada Literatura epistolar como a “Carta de Amor de uma Freira Portuguesa” (filme onde Ana Zanatti e vários actores lusos tiveram a melhor interpretação de que há memória. O responsável por mais este prodígio nacional foi Jesús Franco, realizador de “Vampyros Lesbos” ou “The Devil Came From Akasava” com Soledad Miranda, “a rainha do sangue”, que morreu num acidente de viação em Lisboa). Por causa da escolaridade, nas esquadras portuguesas nunca reportaram uma “Lesbian Fiction” (dos Ten Foot Nun). Tudo o que lá se passa é a sério.

A fúria da rusga policial por pistolões, pistolas e pistoletas não é recente. No Carnaval, junto de escolas no Porto, a PSP confiscou 12 pistolas. O mais loquaz da esquadra elucidou os catraios: “as imitações, quando se podem confundir com armas verdadeiras, são apreendidas porque podem ser utilizadas para a prática de actividades ilícitas”. Os garotos disseram adeus às bisnagas, mas tiveram uma lição de vida. Perceberam que, em matéria de segurança não pode haver facilitismo, isso é coisa para Conselho de Turma, no dia das notas, e maldisseram a sorte macaca, por não terem investido o dinheiro numa PSP (PlayStation Portable).

Se todos os planos de segurança falharem, e para o ministro Rui Pereira não ir pentear macacos, resta a derradeira arma contra o crime – Michael Knight e o seu fiel bólide KITT…

quarta-feira, setembro 03, 2008

Bangville

Os problemas são como os caracóis. Vêm em pratadas, mas só conseguimos alfinetear um de cada vez. A alma lusa atormentou-se, nestes transactos Verões, com os pavorosos incêndios florestais, mal essa calamidade foi resolvida, eis que brota a “onda de criminalidade violenta”. Para liquefazer os fogos, o Governo apostou em Canadairs, helicópteros, comando centralizado, GNRs adestrados. Tão bem adestrados que, em Tinhela, concelho de Valpaços, o comandante dos Bombeiros Voluntários de Cerva foi forçado a se identificar, por um graduado do Grupo de Intervenção, Protecção e Socorro da GNR, quando efectuava um corta-fogo. O geninho com divisas, no seu cérebro qualificado, nas técnicas de galar o criminoso, viu apenas um cidadão incendiando mato e cumpriu o seu dever de meter o bedelho.

[[[O calor físico, psicológico e intelectual de Portugal permite anual refastelamento na piscina, suado em crueldade infantil e adulta, como no vídeo “Breathe(dos Télépopmusik ///“Love Can Damage Your Health). Ou, ricos heróis do mar somos, partir para alguma “On Some Faraway Beach” com Brian Eno]]].

De todas, talvez, a estratégia mais eficaz de combate aos fogos tenha sido… retirá-los dos noticiários. A área florestal ardida este ano foi superior a 2007 mas, a sensação que a barriguinha leva para casa é de que, em 2008, não ardeu um chaparro. Quando os telejornais abriam, com jornalistas à porta das escolas, o país ficou a saber que o processo de aprendizagem incluía um olho negro. Mudaram-se, de câmaras e microfones, para as portas dos tribunais, e repetiu-se o pugilato e a falta de segurança, em sala de audiência. Na época do estio, os jornalistas, postados à porta dos incêndios, enxundiaram os telespectadores com a única metáfora que conheciam: “o cenário dantesco”. E as pessoas ficaram com lume pelas barbas. A nova coqueluche dos noticiários, “a onda de criminalidade violenta”, desvelou um Portugal, encafuado dentro de casa, aterrorizado, enquanto espera pela profissional acção da “Bangville Police” (com Mabel Normand, actriz do cinema mudo, apelidada de “Chaplin feminino”, foi a ninfa aquática de Mack Sennett. A sua carreira esgotou-se no álcool e nas drogas).

[[[Nos anos 50, outra “onda de criminalidade violenta” varreu, de lés a lés, os Estados Unidos: os abomináveis ataques de mulheres em lingerie. As pessoas, na santa paz do lar, eram atacadas, através do futuro método de homejacking. Criminosas sem escrúpulos entravam sorrateiras, amarravam as vítimas, humilhavam-nas e intimidavam-nas agredindo-lhes o traseiro com valentes palmadas, para arrancarem o esconderijo dos seus parcos ou rechonchudos haveres.

Documentos destes hediondos crimes ficaram registados nos filmes com Bettie Page. Modelo fotográfico desinibida e fantástica actriz de filmes de regabofe, na década de 50, cuja carreira foi destruída pela sua conversão ao Cristianismo. (Bettie raptada e amordaçada por Shelley Leigh e Tina Farrar; em lingerie tigresa violentamente espancada no rabo; por vezes as vítimas escapavam dos apertados nós; outras invertiam os papéis transformando-se em agressores; noutras lutavam pela vida). Bettie também participou em películas de graciosa dança: 1 ///2 ///3 ///4 ///5 ///6. E contracenou com Tempest Storm.

Os filmes foram realizados pelo mestre Irving Klaw. Primeiro, foi um fotógrafo extremoso. Para o seu material não cair nas restrições da pornografia, que não podia ser vendida por via postal, obrigava as modelos a usarem dois pares de cuecas, para evitar qualquer vislumbre dos pêlos púbicos. Depois, foi um cineasta excelente mantendo o cinema simples. Uma câmara de filmar e umas gajas bastam, o resto, desde o carpinteiro ao argumentista, é acessório]]].

Portugal é tirado a papel químico de Bangville, na paisagem, na arquitectura dos edifícios, nas pessoas e na incisiva actuação policial. No dia 22 Agosto de 2008, entre as 20:00 e as 02:00, a PSP efectuou uma “operação especial de prevenção criminal” na Quinta do Mocho e na Quinta da Fonte. As rusgas são normais nestas quintas mas a novidade da noite foi o helicóptero. Os polícias aprenderam um termo solene, chamam-lhe “meio aéreo”. Voou os céus, de um lado para o outro, com um foco para “dar projecção de visibilidade maior” aos “possíveis alvos infractores” que se acoitavam na escuridão. Foi uma “mais valia para a operação”, pois a iluminação pública, deixa muitos hiatos para perpetrar crimes. A PSP “considera um excelente resultado”, para além da sacramental cocaína / heroína / haxixe, foram apreendidas 8 armas, 9 carros, 2 armas brancas, bastões e gorros. Efectuaram 32 detenções e interpelaram 958 suspeitos de crime.

Nessa noite de Agosto, não saíram às ruas uns badolas fardados (e à paisana, como preferem aqueles com o 12º ano completo), revistando a torto e a direito, distribuindo carolos e taponas deleitados. A “onda de criminalidade violenta” demandou planos, puxar pela mioleira, montar show para a TV. Os graduados congeminaram a “operação especial de prevenção criminal” após a “análise científica que é feita”. E os polícias saíram de olhos postos nos indícios de ilegalidades, num grande aparato para dar maior “visibilidade da acção policial”. Para dizer aos facínoras “estamos presentes, estamos a actuar”, tal como dizem os cantores populares nos salsifrés de Verão.

[[[Na década de 60, os ataques em lingerie diminuiriam, porque as mulheres meteram-se no rock ‘n’ roll. Comparadas com os seus homólogos masculinos, não lhes reconheciam qualidade e originalidade na sua música. Mesmo assim, o primeiro contrato, numa grande editora, pertence às americanas Goldie & the Gingerbreads ///"Moonlight Bay". Elas foram contratadas, para a Atlantic Records, por Ahmet Ertgün, em 1964, numa festa, apelidada por Tom Wolfe de “festa do ano”, organizada pelo realizador de cinema Jerry Schatzberg, em honra da supervedeta de Andy Wahrol, Baby Jane Holzer. Patti's Groove ///“It Won’t Last Long”. Banda de Chester, com Rita Hughes como vocalista, os Jeannie & The Big Guys ///“I Want You”. The What Four ///“I’m Gonna Destroy That Boy”. The Birdies ///“The Hucklebuck(The Birdies talvez seja outro nome para Darlene Love & the Blossoms ///”Goodbye, So Long” ///“Needle in a Haystack” ///“That's When the Tears Start”. Phil Spector pôs Darlene a cantar sob o nome The Crystals ///“He’s A Rebel” ///“Little Boy” ///"Da Doo Ron Ron Ron Ron Ron". E esteve nos Bob B. Soxx And The Blue Jeans ///“Zip-A-Dee Doo-Dah” ///“Not Too Young To Get Married). Banda de Sacramento She ///“Outta Reach”. The Bootles ///“I’ll Let You Hold My Hand”. Nascida na África do Sul Sharon Tandy ///“Hold On”. Margo Guryan, estudante de jazz, colega e Ornette Coleman, teve como professores Milt Jackson e Max Roach, mudou-se para a música pop quando um colega lhe mostrou “God Only Knows” dos Beach Boys /// “Sunday Morning” ///“Love”. The Beattle-ettes ///“Only Seventeen”. O grupo das irmãs Malette, do Canadá, Les Coquettes ///“La Licorne]]].