Pratinho de Couratos

A espantosa vida quotidiana no Portugal moderno!

terça-feira, janeiro 20, 2009

Amor fora de horas

Spencer Elden possui o pirilau mais visto do planeta. Actualmente, Spencer tem 17 anos, é um all american boy, jogador de pólo aquático, snowboarder, surfista e fã de música
thecno, mas em 1991, com três meses de idade, seus pais, Renata e Rick Elden, a troco de 200 dólares, concordaram que o fotógrafo Kirk Weddler lhes retratasse o rebento boiando numa piscina. A Geffen Records encomendara a foto para a capa do CD “Nevermind” dos Nirvana. Nesses dias a “consciência pedófila” comichava no cérebro posterior das gentes de boas vontades e um pirralho nu acordava paixões. Na Walmart comprava-se, na boa, uma AK- 47, todavia uma escandaleira daquelas seria banida das prateleiras. Em Ventura, Califórnia, uma loja de discos exibia um ampliado poster promocional do CD, um polícia entrou e obrigou a colocação de um post-it no infantil “pai de todos”.
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Curved Air – grupo inglês, equilibrado no muro de Humpty Dumpty entre o prog rock e o rock psicadélico, formado em 1969. Retiraram o nome da peça musical “A Rainbow in Curved Air” do compositor minimalista Terry Riley e foram uma das primeira bandas rock a servir-se do violino – “Melinda (More or Less)” ç “Propositions” ç “Back Street Luv” ç “Vivaldi” ç “Marie Antoinette” ç “It Happened Today” ç “Elfin Boy” ç no festival Isle of Wight.
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Sonja Kristina – vocalista, e elemento constante nas várias transformações da banda, participou no elenco da versão teatral de “Hair” e cantou com os Strawbs no final dos anos 60. Prosseguiu uma carreira a solo, envolvendo-se no movimento “acid folk” londrino no início da década de 90, e recentemente integra, com Martin Ayres, o duo MASK – “Technopia” com a fantástica Mika Doll ç “Waves].
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A “consciência pedófila” como todas as outras, a “ecológica”, a “política”, a “cívica”, a “parquímetra”, a “faixadegazística”, representa um enorme avanço no aprimoramento do Humano. No Estado da Geórgia, durante o liceu,
Wendy Whitaker, com 17 anos, foi apanhada fazendo um “trabalho assoprado” (blowjob) a um colega de 15. Numa idade e país em que os orifícios se confundem, em tribunal, deu-se como culpada de sodomia, consequentemente, foi condenada a 5 anos de pena suspensa e entrou na lista dos “ofendedores sexuais” (sex-offenders), que proíbe comprarem casa, ou trabalhar, a menos de 30 metros de escolas, igrejas, piscinas, ringues de patinagem, parques, paragens de autocarros escolares etc. etc. Em 2006, quase trintona, casada, mãe de uma filha adolescente, mede as distâncias entre os lugares interditos, antes de comprar casa em Harlem, Geórgia. Esqueceu-se da creche de uma igreja e foi despejada.
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As gentes mais conscientes facilita o ingresso no rol de “ofendedores sexuais” asseando as sociedades. Sem saber copy nem paste uma pessoa
tomba nessa execrada categoria. Depois vão insultar o juiz, enquanto são empuxados para a pildra, porque o povo está cônscio. Já não papa grupos como nas perseguições dos séculos anteriores – as bruxas, os comunistas, os traficantes de droga – onde miríades de culpados escaparam ao justiceiro verdugo.
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O azar de Wendy Whitaker não se limitou ao tempo – faltavam três meses para o lucky colega atingir o 16º aniversário que apagaria a criminalidade do acto – mas também no espaço. Noutros locais, o “trabalho assoprado” nem sequer é considerado sexo, por exemplo, na Sala Oval da Casa Branca. No reinado de Bill Clinton, o
vestido azul manchado de Monica Lewinsky levantou dúvidas, mas o imperador em exercício clarificou que na boca nada tem de sexual. Na América decente, na América evangélica, a boca é o órgão vital, aproxima do Senhor através da reza e afasta da clínica de aborto evitando gravidezes. Por isso, chocou que Bristol, na menoridade dos 17 anos, filha da temente Sarah Palin, olvidasse a ensinança da catequese e fosse all the way, emprenhando. Também Mary Key Letourneau se lixou quando percorreu “toda a via”.
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Casada, com dois filhos e duas filhas, professora na Shorewood Elementary School em Burien, Estado de Washington, no Verão de 1996, inicia um tórrido romance com o seu aluno
Vili Fualaau. Ela tinha 34 anos, ele 13. Presa em 1997, acusada de “violação de criança” foi condenada a 89 meses de cadeia. Entretanto, nascera a primeira filha do ilegítimo casal. O tribunal reduz a pena para 6 meses de prisão efectiva e obrigação de frequentar um programa para curar “ofendedores sexuais”. Letourneau é libertada em Janeiro de 1998 por bom comportamento com a proibição de não se acercar de Fualaau. Contudo, no mês seguinte é caçada pela polícia com Fualaau num carro. De volta à cadeia pariu a segunda filha. Foi libertada em 2004 e casou com o ex-aluno.
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Os conscientes cientistas afluíram à TV para
explicar que isto não é amor, logo diagnosticaram uma doença mental, daquelas que têm em cardápio para todas as situações, receando pelo futuro da família Fualaau como se fossem economistas.
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O futuro refulge com o recente amadurecimento da consciência. O Homem contemporâneo equivale a decisões ajuizadas, ponderação nas escolhas, sensatez nas opiniões. O Homem moderno é um
Airbus A380 enchido de sabedoria. Já ninguém culpa os primeiros-ministros pelas condições adversas nos seus países. Já ninguém espera um santo encafuado na Besta para salvar o mundo. Todos “conscientes” da sua quota-parte de responsabilidade olearam as sociedades numas risonhas brincadeiras de crianças.
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Mika, 6 anos, e a namorada Anna-Bell, 5 anos, naturais de Hanover, decidiram casar nas terras exóticas de África. Atafulharam as mochilas de roupas de Verão, brinquedos de peluche, alguma comida e convidaram Anna-Lena, 7 anos, irmã de Mika, para testemunhar a cerimónia. De madrugada abalaram para o tórrido sol africano enquanto os absortos pais dormiam. Palmilharam um quilómetro e apanharam um eléctrico até a estação ferroviária de Hanover. Frustrou-lhes o
plano um funcionário que estranhou estarem sozinhos e carregados de artigos estivais numa Alemanha tiritante de frio.
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[O termo “psicadélico” foi cunhado pelo psiquiatra inglês
Humphrey Osmond, fornecedor da dose de mescalina a Aldous Huxley, em 1953, que facilitou a lavra de “The Doors of Perception”. Huxley escreveu-lhe propondo uma nova palavra: “para tornar sublime este mundo trivial, tome meio grama de phanerothyme” (phanero = visível + thymos = segundo Platão, uma parte da alma juntamente com o “Logos” e o “Eros”) e Osmond retorquiu-lhe: “para sondar o Inferno ou elevar-se angélico, tome apenas uma pitada de psychadelic” (psyche = mente + dellos = manifestar). A palavra desagua na cultura pop em 1964, na modificação de um verso de “Hesitation Blues”, pelos Holy Modal Rounders: “Got my psycho-delic feet, in my psycho-delic shoes, I believe lord and mama got the psycho-delic blues, tell me how long do I have tell to wait, or can I get you now, or must I hesitay-ay-ay-ate”. E a expressão “rock psicadélico” aparece pela primeira vez em 1965, num cartão dos 13th Floor Elevators, desenhado pelo artista das capas dos seus discos John Cleveland.
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Na História do Rock Psicadélico, talvez, o lugar fundador seja ocupado pelos Holy Modal Rounders, um duo folk de Nova Iorque, dotado para a palhaçada, que inchou com outros recrutamentos como o baterista Sam Shepard, entre 1966-69, e que ainda mexilha nos dias de hoje, com a reforma de Steve Weber, e a actividade de Peter Stampfel – “If You Want to Be a Bird” ç “Boobs a Lot” ç “TV Song” ç “Low Down Dog” ç “Hey Oh!” ç “Flop-Eared Mule].

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Comédia divina

Repetição. Mais do mesmo. “Já vi isto em qualquer lado”. São sensações causadas pelo pingar dos dias no ralo da existência. Há acontecimentos que persistem no tempo. O “
grito Wilhelm” é um desses. No filme de Raoul Walsh “Distant Drums” (1951), Gary Cooper atravessa um pântano carregando Mari Aldon nos braços, seguido de um grupo de soldados, quando um deles é atacado por um jacaré. Nos filmes, os efeitos sonoros são colocados posteriormente, assim, contrataram um actor para goelar num gravador de som e nasceu o primeiro “grito”. Guardado na fonoteca da Warner Bros. os técnicos de efeitos sonoros inseriram-no numa larga lista de películas. Não é conhecido o seu autor, porém, supõe-se que tenha sido Sheb Wooley, cantor e actor, com um pequeno papel no “Distant Drums”. Dois anos depois, o “grito” foi aplicado, em três cenas, no filme “The Charge at Feather River” (1953), donde recebeu a designação “Wilhelm”, o nome do personagem, atingido por uma seta na perna, que o “gritou” pela segunda vez.
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Blues Section – grupo de rock finlandês formado em 1967 por Jim Pembroke, vocalista inglês expatriado em Helsínquia, Ronnie Österberg na bateria, Hasse Walli na guitarra, Måns Groundstroem no baixo e Eero Koivistoinen no saxofone – “Call me on your Telephone” J “Semi-circle Solitude” J “End of a Poem”. A sua separação resultará nas duas mais importantes bandas de rock progressivo finlandês:
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Wigwam – formado como um trio em 1968, pelo baterista Ronnie Österberg, a quem se juntou Jim Pembroke. Separam-se em 1978. E Österberg suicidou-se em 1980 – “Colossus” J “Kite” J “Simple Human Kindness” J “Prophet / Marvelry Skimmer” J “Eddie and the Boys” J “Grass for Blades” J “Bitesize”.
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Tasavallan Presidentti – (“Presidente da República”) surgiu em 1969, com o baixista Måns Groundstroem, o vocalista Frank Robson, o guitarrista Jukka Tolonen e o baterista Vesa Aaltonen – “Struggling for Freedom” J “Oi Armahda Herra Sotilas Valasta”.
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Jukka Tolonen – será um dos melhores guitarristas finlandeses – “Carnival” J “Säkkijärven Polkka” com Jim Pembroke.
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Hasse Walli – após sair dos Blues Section navegará por vários estilos – com os Tapani Kansa J com os Piirpauke J “Na Mokli Oyo” J “Sey” J “Subanna” J “Sweet Nina” J “Crossroads” J “Voodoo Child” J Parte2 J “Johnny B. Goode].
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O tema da
repetição palmilha as meditações primeiras dos filósofos. Remonta a Heraclito que lhe gabava ápiras propriedades, ou Platão memorando impecáveis arquétipos, mas o lucubrar hardcore somente encorpa na quadra pós-hegeliana. Marx fantasmagorizou-a na Ideologia, como reprodução das condições económicas de exploração, Lacan deitou-a no divã como Inconsciente. Todavia, foi Gilles Deleuze quem lhe extirpou a monotonia repetitiva do mesmo instilando-lhe um cunho de reinvenção. Os factos repetem-se mas sempre pra melhor. E 2008 trouxe a excelência ao terceiro calhau a contar do sol. Foi mais do mesmo, reinventado!
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A personalidade política do ano passado foi sem dúvida
Dick Cheney. Quando lhe perguntaram o nome ele respondeu: eu sou Legião, porque eu sou muitos. Um coração mole, inimigo do sofrimento, palpita naquele corpo que estrelejou uma revolução, uma lufada de ar fresco na Casa Branca, e alavancou a Democracia. Incansável promotor do turismo nas cidades americanas, por modéstia retirou a sua casa do Google Earth para não embaraçar os líderes europeus mais pobres. Dick Cheney vencerá, em 2010, o título de mais importante personagem política da primeira década do milénio, pela esperança e obra de que empanturrou o mundo. Nesta área, o seu único concorrente é Donald Rumsfeld, eloquente no seu dizer, e visionário da paz.
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Popol Vuh – grupo de prog rock norueguês dos anos 70, que mudou o nome para Popol Ace, por causa da confusão com a banda homónima alemã – “Queen of all Queens” J “Music Box” J “Joy and Pleasure” J “The Art of Living” – depois da sua dispersão, o vocalista, Jahn Teigen, andou por aí, inclusive pelo Festival da Eurovisão, com a futura esposa.
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Popol Vuh – banda alemã de prog rock fundada pelo teclista Florian Fricke em 1970. Um dos primeiros músicos a possuir um Moog III synthesizer que mais tarde ofereceu a Klaus Schulze, futuro membro dos Tangerine Dream e dos Ash Ra Tempel – “Improvisation” J “Kyrie” J “Hosianna-Mantra”. Fricke também compôs bandas sonoras de alguns filmes de Werner Herzog – Nosferatu: Phantom of the Night J Heart of Glass J Aguirre. Morreu em 2001].
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Na economia, 2008 deu um bigode aos anos transactos. Os melhores do ano empilharam-se como engripados doentes num corredor de hospital sub-sariano. A análise mais incisiva da situação económica veio obviamente de Wbush declarando que a Wall Street estava
bêbeda. Causas detectadas, batoques distribuídos para rolhar as garrafas, mas nunca a boa educação abandonou os gestores e executivos que salvavam o mundo da hecatombe. A Chrysler publicou um imenso obrigado aos contribuintes americanos, em anúncios de página inteira nos jornais, pelo seu investimento de 17. 4 biliões de dólares para desentalar a indústria automóvel. Jeff Thain, chefe executivo da Merrill Lynch, comprada pelo Banco da América para não falir, pediu, na maior civilidade, 10 milhões de dólares de bónus para 2008, por ter mantido os prejuízos da empresa, nos insignificantes 11.67 biliões de dólares.
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Mas a figura do ano na categoria Economia & Riqueza foi Bernard Madoff.
Charles Ponzi, desembarcou em Bóston, no ano de 1903, com “dois dólares e meio em dinheiro e um milhão em esperança”, e em 1920, no auge do esquema, baptizado com o seu nome, de receber dinheiro de investidores e retribuir juros elevados, embolsava 250 mil dólares por dia. Madoff montou tramóia idêntica com investidores realmente abonados. Kevin Bacon, Steven Spielberg, a ricaça espanhola marquesa da Bellavista Alicia Koplowitz, a herdeira da L’Óreal Liliane Bettencourt, a mulher mais rica do mundo, o maior poluidor Ira Rennert, semearam milhões na Investment Securities LLC para colher triliões, todavia o mercado arrefeceu e os lucros resfriaram. Num primeiro momento, mal-agradecidos, gostariam de contratar a karateca Rina Takeda para lhe “kickar o ass”, mas quando a serenidade voltar aos mercados e lotas, reconhecerão o seu valor, e Madoff poderá contribuir com a sua expertise para melhorar a economia real.
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E o ano 2008 finda com o melhor filme de comédia na ex-Terra Santa. A invasão da Faixa de Gaza ganha o prémio atribuído por políticos, jornalistas e comentadores avulso. Mahmud Abbas, líder palestiniano certificado, refém do visto americano para a mala do dinheiro com que paga aos seus, encolhe-se na expectativa de mais bago. O enviado especial do Quarteto para o Médio Oriente, Tony Blair, calçando os seus sapatinhos da sorte, tipo “
brogues”, com que cobria os pés nas sessões do Parlamento inglês, quase cumpria a visão de Wbush dos dois Estados de mãos dadas. E Israel realiza o seu destino. Deus, no exercício do Seu Ministério de Agente Imobiliário, deu-lhes aquela terra e a sua solução final é deslocar as populações palestinianas.

A política israelita de matar presencialmente ou à
distância, raptar pessoas ou destruir casas, fechar estradas ou confiscar terra, visa tornar a vida impossível e a emigração dos palestinianos para os países árabes fronteiriços. Tudo feito no respeito pelos direitos dos humanos. Aliás, Israel é o único país que os respeita religiosamente. Bombardear a casa de Nizar Rayan, comandante do Hamas, matando-o, mais as quatro mulheres e os filhos, não é um crime de guerra, é uma acção defensiva. As mulheres paririam mais pimpolhos e os putos cresceriam para serem terroristas.
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O
mapa da Palestina tem minguado mais do que a peau de chagrin, no entanto excêntricos Wbushistas ainda regam o bonzai dos dois Estados. São uma miragem, por uma razão muito simples: Israel nunca permitirá a existência de um Estado palestiniano. E, o eleito imperador Barack, na cidade de Sderot, junto da fronteira com a Faixa de Gaza, pregou: “se alguém lançar rockets para a minha casa, onde as minhas duas filhas dormem, vou fazer tudo ao meu alcance para parar isso” acrescentando “como espero que os israelitas façam a mesma coisa”. Oh!bama tem a imperial missão de financiar e armar Israel para que o título de propriedade, assinado pela Mão de Deus, se execute.
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[Em Portugal, a mãe do rock progressivo foi José Cid com o Quarteto 1111. Seguiram-se os Tantra, cadinho de Armando Gama e de Dedos de Tubarão, alcunha de Pedro Ayres de Magalhães. A nação valente insistiu com os Petrus Castrus; com Tó Neto J “Os Animais” J “Magic City”; com Luís Bettencourt; e contra os canhões marcham actualmente os Linda Martini – “Amor Combate” J “Dá-me a Tua Melhor Faca” J “Efémera” J “Este Mar” J “As Putas Dançam Slows].