Pratinho de Couratos

A espantosa vida quotidiana no Portugal moderno!

quinta-feira, março 11, 2010

E a gazeta criou-lhe a mulher

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Haverá filha de Eva mais formosa? tão formosa e bonitinha que a Carochinha inveja? Hiyoooo! debruça-se ela, um relâmpago de boniteza, na janela da Casa Branca. A primeira mulher americana (“first lady”) ofuscou! Coevos, e nativos de outras paragens, embasbacam diante seus looks e condões. Carinha de alfenim, mãozinhas de algodão doce, cinturinha de vespa, perninhas de corça, aperreia-se nos requebros caseiros (ecológicos, of course) ou empunha a mágica espada de Mariko*, para defender seu clã do Derradeiro Mal, ombreada com seu marido, que os trebelhos (mundiais) move. De seu consorte, medem-lhe os actos no “obameter”, ela, tal Pompeia, no escrutínio da opinião pública, tem de “ser e parecer”. (No século I a.C., a mulher de César tinha de ser e parecer séria; no século XXI, os valores morais substituíram-se pelos valores Moda e Beleza). Passavante do esposo, pisam-lhe os passos nas revistas: como a mais fashionista do world: yes c’est chique! yes c’est chique! yes c’est chique! yes c’est chique! yes c’est chique! yes c’est Annie Leibovitz chique; – e mais beautiful que Sasha Grey** e as Ladybirds*** somadas.

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* Heroína do videojogo Heavenly Swords.

** Sasha Grey: pornógrafo nome de Marina Ann Hantzis, composto por, “Sasha” de Sascha Konietzko, do grupo de industrial alemão KMFDM, e “Grey” de “O Retrato de Dorian Gray” de Óscar Wilde, e o espaço “cinzento” entre heterossexualidade / homossexualidade da Escala de Kinsey. – Formou, em 2008, com Pablo St. Francis: (disse ela: “o Pablo e eu conhecemo-nos num clube de striptease com mau aspecto, ele veio ter comigo porque gostou da minha t-shirt dos Sisters of Mercy”): a banda chamada aTelecine: acoitada no som industrial/noise; Sasha invoca influência de Cosey Fanny Tutti dos Trobbing Gristle ou David Tibet dos Current 93. – No mês de Abril do ano do Senhor de 2010 editarão dois CDs: “And 6 Dark Hours Pass” e “A Cassette Tape Culture” ► exemplos de seu ofício: “Wind Pipe Machine” ( . ) “Larry Park” ( . ) “Smuggler”. – Em 2008, Sasha, participou na faixa “Pum Pum” da lenda jamaicana Lee “Scratch” Perry. – Em 2009, moça de préstimos intelectuais, envolveu-se numa querela com Howard Stern, um invólucro vazio da rádio E.U.A.: acusava-o de racista, afirmando à Rolling Stone que queria ir ao programa de Stern embrulhada na bandeira palestiniana; o locutor, templo da judiaria, dotado apenas de falsa cabeleira na cabeça, sentiu-se chocado pelo desaforo de uma gaja que “chupa galo para viver” (“sucks cock for a living”). No ano passado, Sasha interpretou o papel de Julie no filme porno pós-moderno “Throat – A Cautionary Tale”. – Por Melpómene! outras porno stars afinaram a voz e… chan!… chan! chan!… Ron Jeremy também rapou.

*** The Ladybirds – grupo topless dos anos 60 ► “Yes I Know” ( . ) no clube The Blue Bunny, em Hollywood, no filme “The Wild, Wild, World of Jayne Mansfield” (1968).

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A primeira mulher americana é feia* e as farpelas de duvidoso gosto; mas como “fenómeno” condensa, pró lapúrdio americano e povos ultramarinos (Europa), o princípio orientador da comunicação mediática: isto é, a “vista” carece de empurrão do texto… e do Photoshop: as imagens não são auto-evidentes, na Era das donas Briolanjas Gomes**, sem explicação da “palavra”, desbaratam seu poder comunicativo. Durante a embaixada da real família americana à família real inglesa, os comunicadores do episódio depararam-se com um grande, enorme, problema: o rabosalho de Michelle Obama; noutras fotos, encolhido com Photoshop ou disfarçado na composição fotográfica, neste embaraçoso cortejo – (o braço da rainha mal cobre um quarto da circum-navegação) –, tais procedimentos melindrariam os majestáticos pedregulhos do Palácio de Buckingham. Então, desvia-se a atenção, “noticiando”: Michelle quebra o protocolo de “não mexer na mercadoria exposta”, ou seja, na rainha, e happy end! os americanos conservam incólume o seu novel símbolo sexual.

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* Para Sílvio Berlusconi não.

** Personagem no “O Arco de Sant’Ana”, de Almeida Garrett: “o percursor se pôs de joelhos (lá diz o Evangelho) dentro das entranhas de sua benta mãe e disse: ‘Eu te adoro e te arreverencio, porque és o Verbo”.

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[Desenhos animados → - - - - - - - - - ].

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As pré-históricas mulheres de “Voyage to the Planet of Prehistoric Women” (1967), as perigosas regredidas com o “sindroma de Merrye” de “Spider Baby” (1968), as jezebels de “Switchblade Sisters” (1975) têm rival na histórica inquilina* da Casa Branca, mais possante que a supermulher, com genica pra atravessar Times Square pelos dentes**, e outros assombros e lindeza, lindeza, pra vender e vender. Os americanos empenacham seu ovo de Washington. Os repórteres afixam-lhe pormenores: “históricos”: nunca conjunturais: a primeira mulher calça sapatos rasos, conforto antes do estilo, oh lucky nós! – rejubilam. Exterior ao fogacho da “interpretação/venda de imagem”, há uma razão mais comezinha para o pé rasteiro: ela é cavalona, encumeada em saltos altos, mover-se-ia como girafa desengonçada. Olhem-na sem mangas: “histórico” – isso queriam as antecessoras, mas a idade assacava-lhes a prioridade de esconder os primeiros sinais da velhice, da pele arrepanhada, nos sovacos e cotovelos. E de calções, she’s so Jackie Kennedy: mais “história viva”. O cônjuge mimetiza John F. Kennedy, ela, Jacqueline, amanhando um casal modelo; – arredado da estuporada mulher que certo dia interpelou Winston Churchill: “se fosse meu marido metia-lhe veneno no chá”, e retorquiu ele: “oh minha senhora, se eu fosse seu marido, bebia-o”.

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* Excluindo a criadagem, o primeiro americano-áfrico a dormir na Casa Branca, na cama de Abraham Lincoln, foi Booker T. Washington durante a administração Woodrow Wilson. O segundo foi Sammy Davis Jr. a convite de Richard Nixon. Na tropa, Sammy aturou, do soldado Jennings, as praxes aplicadas aos pretos – “preto bastardo”, no final das frases; calcou-lhe o relógio motejando: “não te preocupes, rapaz, sempre podes roubar outro”; pintou-o de branco; e o convidou para uns copos de reconciliação servindo-lhe urina. Quando desceu da limusine, de guarda à Casa Branca, estava Jennings. Sammy pergunta-lhe: “não o conheço?” e responde Jennings no respeitoso castrense: “não senhor, Sr. Davis”. – Sammy quebrou barreiras raciais. Ele recusa actuar enquanto não permitissem os pretos de assistir aos espectáculos e hospedarem-se no hotel, em Las Vegas, nos remotos meados do século XX, quando a filha de Lena Horne, mergulhando na piscina do Hotel Sands, trocaram a água por nojo de contágio; e os músicos pretos dos casinos entravam pelas traseiras. (Além de Nixon, foi também convidado de Archie Bunker).

** Tiny Kline (1891-1964) actriz de burlesco, artista de circo; contratada pela Disneylândia como a atracção Sininho, voando, pendurada num arame, entre o monte Matterhorn e o Castelo da Bela Adormecida; e “conhecida por algumas crianças da 77th Street, como a mulher que latia”.

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Unânimes na fashionabilidade da sua primeira mulher, os americanos amichelam-lhe outras essências: os atributos da denguice e coqueteria da Moda, coroam-lhes com a essencial Beleza. Ali não há banha ou toucinho ou frigorífica figura, mas convólvulo molde de opulência esperdiçada, nas mais perfeitas linhas femininas: uma nova instalação de Brigitte Bardot, ou Gillian Hills*, habitando naquela casa de tripudio, donde se atacoam economias e pazes, casada com o presidente Báráque e a América de bom gosto (formado pelas revistas). Michelle, efígie esculpida pelo personal trainer, aviventadora do Photoshop no ambiente político, aquartilha cultura que impressiona subdesenvolvidos (os europeus e os labroscas americanos associados às Artes). As belezas internacionais** acagaçam-se com a concorrência de Washington***; a revista Maxim incluiu-a na “lista definitiva das mulheres mais bonitas do mundo”, atrás de Johanna Krupa: à frente de Yvonne Strahovski ou Olivia Munn. Chiça-penico!

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* Gillian Hills, cantora e actriz nascida no Cairo, em 1944. Rasgadas semelhanças físicas com Bardot arrebataram os sinos de Roger Vadim, que a lançou como o novo belo naco de carne francês, contratando-a para “Les Liaisons Dangereuses” (1959) – (cena da festa; cena com Boris Vian) – mas, a menoridade de Gillian, 14 anos, não permitiu floreados “brigittianos” e o papel principal foi entregue a Jeanne Moreau. Em 1960 embarcou para a Inglaterra, onde interpreta Jennifer, uma adolescente rica, estudante de arte de dia, frequentadora de clubes de jazz manhosos de noite, no filme “Beat Girl”. Gillian gravou vários discos ► o primeiro single “Ma Première Cigarrete” sai em 1960 ( . ) em 1962 participa no sketch Sophie”, realizado por Marc Allégret, para o filme “Les Parisiennes”: ela cantou “C'est Bien Mieux Comme Ça” com Les Chaussettes Noires: todavia no filme, a versão é de Dany Saval, no episódio “Ella”, de Jacques Poitrenaud ( . ) em 1963 “Une Tasse d' Anxiété”, dueto, nunca publicado oficialmente, com Serge Gainsbourg ( . ) “Zou Bisou Bisou” ( . ) “Rentre Sans Mois” ( . ) ela também escreveu canções “Qui A Su” ( . ) a última, “Look at Them”, em 1965.

** Sim! com Cláudia Vieira, a beleza nacional, que se apressou a sossegar o pai: que não estava nua nas fotos da revista GQ, que lhe tiraram as cuecas com Photoshop. E mostra as suas molemente tetas no filme “Contrato” (2009).

*** Invejas, que na vida real desatariam uma catfight, no mundo virtual maculam-na no Google.

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[‘Are‘are – filmado, pelo etnomusicólogo suíço Hugo Zemp*, em 1974; nome da língua, (da família das línguas austronésias), e de um povo do sul da ilha de Malaita, nas ilhas Salomão. Na aldeia Oterama, só acessível por canoa ou a pé, vivem os Narasirato Pan Pipers, nos intervalos das tournées ► vários vídeos. O som mais propagado das ilhas Salomão é “Rorogwela”, cantado por Afunakwa, uma mulher do norte de Malaita; uma canção de embalar misturada, ocidentalizada e comercializada pelo duo francês Deep Forest.

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* Embirrado a ser músico de jazz, inscreve-se num curso de percussão no Conservatório de Basle; em 1958, numa viagem pela Costa do Marfim, para conhecer a batucada africana, cruza-se com André Schaeffner, fundador da etnomusicologia francesa, que lhe detecta propensão para o tum-tum de África e o convida a estudar em Paris. O filme “Tourou et Bitti”, sobre um ritual de possessão, filmado no Níger, por de Jean Rouch, será o “choque estético”: planos longos com a câmara em movimento, sem zoom: que alumia a filmagem de “'Are'are Music”].