Pratinho de Couratos

A espantosa vida quotidiana no Portugal moderno!

domingo, setembro 12, 2010

Ólh’as n’tícias fresquinhas, freguês!

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Parte 3

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Há muitos, muitos anos… a indústria jornalística refogou as suas principais iguarias “com jeitinho e algum talento[1]. Apedicelada na intelectualidade mor da História, o consumidor do século XXI, por isso, empanturra-se na sensação de informado. Em 1782, uma carta publicada no Suplemento do Boston Independent Chronicle, escrita por Benjamin Franklin, relatava que os peles-vermelhas enviavam centenas de escalpes americanos para a realeza britânica e aos membros do Parlamento, astutamente paracleteando que os ingleses contrataram brutais selvagens para chacinar os lutadores pela Liberdade. Para enfatizar o horror, nesses escalpamentos incluíam-se mulheres e crianças. A guerra estorroara um ano antes, na batalha de Yorktown: os americanos, comandados pelo general George Washington, e as tropas francesas do Conde de Rochambeau, demissionam o mister inglês, lorde Charles Cornwallis, forçando o Governo de sua majestade George III a negociar. A derrota inglesa não era uma certeza histórica em 1781, apenas será consumada nos tratados de Paris (1783), e o combate perdurava. O Suplemento do Boston Independent Chronicle era um jornal falso editado por Franklin para os amigos e, com a sua patranha dos escalpes, desejava ele apoiar o esforço de guerra americano manipulando a opinião pública europeia contra os ingleses. Objectivo superado. O repúdio dos ingénuos europeus tremelicou pelo velho continente; e ainda hoje escarolam os jornais confiantes na voz da América: o teste Kodachrome [2]; velhos são os homens, não os trapos: Iggy Pop, Alice Cooper, Moby, no vampirino filme “Suck” (2010) de Rob Stefaniuk; as viciadoras drogas digitais [3]; porém, um corte de cabelo decente, só no Irão.

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[1] Dixit Laura Figueiredo, a DJ Marlene: “ela é muito profissional, responsável e dedicada”, da discoteca MaxiPop, em Odeceixe, na série “Morangos com Açúcar 5 – Férias de Verão”. As outras funcionárias são: Sara Kostov, a Yasmin “divertida, extrovertida, maluca e simpática”; Ana Murcho, a Cátia, a barmaid: “a menos simpática da cinco, bastante profissional e reservada”; Filipa Maia, a Débora, responsável pelo bengaleiro: “por ser a mais nova, é inexperiente”; Tânia Barófia, a Sandy, gerente da discoteca: “está ligada a uma parte obscura da noite”. Talentosas actrizes escabujaram a agulha do aparelho de medição de talento: o biquíni.

[2] Testes recentemente recuperados, filmados em 1922, nos estúdios Paragon em Fort Lee, Nova Jérsia. Com as actrizes Mae Murray arrulhando para a câmara e Hope Hampton nos trajes do filme “The Light in the Dark” (1922): o primeiro uso comercial das duas cores Kodachrome numa longa-metragem, Mary Eaton das Ziegfeld Follies e uma mulher não identificada com uma criança. – Talvez a primeira película a cores seja, Londres a cores para Eduardo VII (1906); o primeiro filme de longa duração foi inglês: “The World, the Flesh and the Devil” (1914) de F. Martin Thornton, fotografado no processo kinemacolor; The Gulf Between (1917) de Wray Bartlett Physioc: o primeiro em technicolor, e o primeiro a ser produzido na América, o segundo foi “The Toll of the Sea” (1922) de Chester M. Franklin; “Song of the Flame” (1930) de Alan Croslandis: o primeiro inteiramente em technicolor e vitascope; “Becky Sharp” (1935) de Rouben Mamoulian: o primeiro no sistema technicolor de separação das cores primárias. – Nem sempre a cor favorece: as estátuas gregas, nas cores originais, tinham uma graça… gay.

[3] I-dosing: ficheiros áudio que alterariam as ondas cerebrais induzindo efeitos semelhantes aos das drogas: como Euphoria ou LSD. Os pais preocupam-se com o ciclo droga, loucura, morte, da década de 60; do iPod, para a marijuana, a base de coca e o chuto de cavalo, é a lógica automática mas, e “se os catraios avançarem para coisas mais duras como Steve Reich, Philip Glass ou a instalação (inspirada na “Colónia Penal” de Kafka) de Janet Cardiff the killing machine”? não haverá terapia de desmame desta habituação multi-resistente e viverão esmagriçados em tendas nos arrabaldes do Centro Cultural de Belém e da Casa da Música ou nas soleiras das portas da Fundação Gulbenkian.

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Richard Saunders publicava desde 1733 o “Poor Richard’s Almanac”, um anuário com provérbios: “nada, excepto o dinheiro, é mais doce que o mel”, aforismos: “o segundo vício é a mentira, o primeiro é cair na dívida”, profecias: no primeiro número prediz a morte de Titan Leeds, editor de um almanaque concorrente, no “17 de Outubro de 1733, pelas 3:29, no preciso instante da conjunção do Sol com Mercúrio”. Leeds não morreu. No número seguinte do seu almanaque denunciou a falcatrua. Saunders não desarmou, defendeu-se de que ele na verdade morrera, outra pessoa usurpara-lhe o nome e editava o almanaque. O falecimento e o seu desmentido prolongaram até 1738, quando Leeds de facto bateu a bota, e Saunders felicitou os homens que roubaram o nome de Leeds por finalmente terminarem com a brincadeira. Richard Saunders era um pseudónimo de Benjamin Franklin noutra função do poder da imprensa: uma mentira repetida muitas vezes soma uma verdade.

– No charivari dos média do século XXI é só verdades, pra agrado da freguesia: um tribunal sueco proibiu a Igreja de Nossa Senhora do Orgasmo, o acórdão, logo disponível aos advogados, fundamentava que “Nossa Senhora” é marca registada da Virgem Maria. O colectivo de juízes amoucou aos argumentos de defesa do cardeal Carlos Bebeacua: “não deve ser limitado à ejaculação. Pode ser atingido através da Arte ou olhando uma paisagem e pensar uau”. Apesar da vontade do tribunal o orgasmo planetarizar-se: na feira popular; num recital de Yoko Ono; no vídeo Morgan M. Morgansen's Date with Destiny; na lua-de-mel da apresentadora da BBC Natasha Kaplinsky; na coelhinha Madison Welch; noutra coelhinha Kimberly Phillips; na Alessandra Ambsio; na Ako Masuki; na Dominique Le Toullec; nos abananços de rabo pra webcam; nas girls nos filmes de terror; nas girls da Agent Provocateur; nas filhas dos rockers; na computer dance no filme “Lambada” (1990) de Joel Silberg; no carwash; nas lutas de bar dos filmes; nos gritos das tenistas; no Lamborghini Ankonian; ou, na “última sensação da luxúria”, a contagem de corpos no Iraque e no Afeganistão.

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[BeyondBodyAndSoul – usuário do YouTube com uma ampla treliça de vídeos de raro jazz, soul, funk, rock, como estes:

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Don't Pray for me” de Mary Watkins: “compositora e pianista, com uma visão. Apesar de a sua formação ser clássica, ela move-se com fluidez e mestria dentro e entre os clássicos e nas tradições do jazz, misturando-os perfeitamente e incorporando outros estilos de música nos seus trabalhos originais”, no álbum “Lesbian Concentrate: A Lesbianthology of Songs and Poems” (1977) ▼ “The Prostitute” dos Watts Prophets: grupo de poetas e músicos de Los Angeles formado em 1967, alvitrado como uma possível génese do hip-hop, que misturava palavras e jazz; com Dee Dee McNeil: poetisa de Detroit contratada como letrista pela Motown, cantava e tocava piano; no álbum “Rappin’ Black in a White World” (1971) ▼ “Sunday's Church” de Gary Saracho no álbum “En Medio” (1973) ▼ “Bissan” de Fairuz: cantora libanesa, uma das maiores vedetas do mundo árabe, apelidada “vizinha da lua”: em 1969, recusa uma actuação privada para homenagear o presidente argelino Houari Boumedienne, e as suas canções foram proibidas na rádio, por seis meses; no álbum “Jerusalem in my Heart” (1972) ▼ “Let Me Down Easy” de Inez Foxx: compositora e cantora soul/R&B, nos anos 60 formou um duo com o irmão Charlie Foxx; no disco “Inez Foxx at Memphis” (1973) ▼ “A Prayer Dance” do quarteto de jazz de Filadélfia Catalyst: “tocavam um gourmet de avant-garde, bop contemporâneo, soul e funk na alvorada da grande explosão da música de fusão”, no disco “A Tear and a Smile” (1975) ▼ “Me N Them” de Dizzy Gillespie no álbum “Portrait of Jenny” (1971) ▼ “Hardhats and Cops” narrado por Rosko, no disco “Murder at Kent State University” (1970) do colunista do New York Post Pete Hamill: uma das quatro pessoas que desarmaram Sirhan Shiran, quando este disparou sobre o senador Robert F. Kennedy, na cozinha do Hotel Ambassador ▼ “I Never Knew” de Salome Bey: actriz, cantora e letrista americana vivendo no Canadá; no disco “Salome Bey Sings Songs from Dude”: um musical rock, fracasso na Broadway, de Galt MacDermot (1972) ▼ “The Dragon's Song” de Bonnie White no álbum “Suite from the Other End” (1971) ▼ “Million Dollar Feeling” do mito dos blues de Chicago Freddie Roulette, no disco “Sweet Funky Steel” (1973) ▼ “I Don't Want To Die” (1970) dos Black Merda (lê-se à inglesa “murder”): banda rock de Detroit; ressuscitaram no século XXI: “Cynthy-Ruth” ▼ “Be Thankful for What You've Got” de Arthur Lee multi-instrumentista e letrista de Los Angeles, líder do grupo rock Love; no álbum “Reel to Real” (1974) ▼ “The Man” (1972) dos Sons of Slum ▼ “Cold Turkey” de Del Jones: activista com o pseudónimo War Correspondent: “vendo o mundo como um campo de batalha de uma guerra racial e cultural em curso, em que os brancos têm, sistematicamente, oprimido e roubado os pretos e outros grupos”, escreveu vários livros de militância como “The Invasion of the Body Snatchers: Hi-Tech Barbarians” ou “The Black Holocaust: Global Genocide”; no disco “Court is Closed” (1973) ▼A Very Gentle Sound” (1972) de Gloria Lynne ▼ “Space Odyssey” (1974) do trompetista de Detroit Marcus Belgrave ▼ “Who Am I” por Tiny Tex and J. Jones Connection na fantástica colectânea de funk rockChains and Black Exhaust].

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[Howard Goodall – compositor inglês de musicais, música coral e bandas sonoras para televisão. Graduado por Oxford, onde conheceu Rowan Atkinson: com quem trabalhou em espectáculos ao vivo e outras farândolas; e Richard Curtis: argumentista de “Quatro Casamentos e um Funeral” (1994), “Notting Hill” (1999), “O Diário de Bridget Jones” (2001) etc.; ou na TV, argumento de “Blackadder” (1983-89), “Mr. Bean” (1990-95), “A Vigária de Dibley” (1994-2007) … com música de Goodall. Divulgador, encartado, do sol-e-dó, através de vários documentários para a TV:

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Sobre o grupo que rubricou um pacto com o diabo: The Beatles – parte1: “… até ao século XX, onde os compositores clássicos decidiram desmantelar completamente o aceite sistema padrão de notas, deliberadamente, fartos das melodias soarem previsíveis e familiares” e pior “qualquer som, como o esfregar de lixa, pode ser descrito como música” ▼ parte2: “para compreender exactamente como os Beatles resgataram a música ocidental, temos de conhecer algo que vagueia por aí desde o Renascimento: harmonia, ou os acordes que acompanham uma melodia” ▼ parte3: “… a composição de Lennon e McCartney progrediu durante os anos 60. Eles, progressivamente, pediram emprestadas técnicas da área clássica para enriquecer as suas canções, uma dessas técnicas tem um nome enfadonho: modulação, mas um efeito muito excitante” … “modular significa mover o centro de gravidade de uma peça musical da zona de uma nota para outra” ▼ parte4: “os Beatles, tal como Bach, adoptaram estilos musicais e ideias, daqui, dacolá, de todo o lado, com afoito entusiasmo. Eles não os regurgitavam apenas, como uma jukebox humana, seja o que for que pedissem emprestado, acabava por soar como seu” ▼ parte5: “até a forma como Eleanor Rigby termina é invulgar. Os dois acordes finais de uma peça musical são conhecidos tecnicamente como uma cadência, da palavra italiana cadere, cair” … “a cadência plagal estava quase ausente da música na qual Paul McCartney cresceu. Não se encontrava nas canções de Elvis Presley, Chuck Berry, Little Richard (…) a cadência plagal vem dos hinos, o velho familiar ámen, que ouvimos na igreja, é uma cadência plagal clássica” ▼ parte6: “a coroa de glória da revolução dos Beatles na música foi a sua utilização do estúdio. Transformaram-no, de um caixa fastidiosa, onde se tentava captar o som ao vivo, o mais fiel possível, num recreio de experimentação musical”.

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Na série “How Music Works” (2006) elucida vários componentes da música. A “Melodia”: parte2parte3parte4parte5; – a “Harmonia”: parte2 ▼ parte3 (vídeo bloqueado pela Sony Music Entertainment) ▼ parte4parte5; – o “Ritmo”: parte2parte3parte4parte5; – o “Baixo”: parte2parte3parte4parte5.

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A série “Grandes Datas” (2002) enreda a composição nas suas condições históricas: – 1564, “viu o aparecimento de um admirável novo equipamento nas lojas de música. O violino tornar-se-ia num dos mais surpreendentes agentes de mudança na História da Música”, quando ela quase morrera. Anos antes, Lutero “não só traduziu a Bíblia para o alemão, como decidiu que a música religiosa deveria cantar-se também na língua vernácula” … “compilou melodias famosas para a sua congregação cantar, e tinham de ficar no ouvido, é suposto ter dito ‘porque é que só o diabo terá as melhores melodias?’”. O concílio de Trento reagiu musculado, os bispos radicais exigiam proibição total da música. “Um homem salvou a música de igreja ao escrever uma missa, tão bonita, que o concílio de Trento mudou de opinião, e permitiu a música na igreja sobreviver”: a “Missa Papae Marcelli” de Giovanni Pierluigi da Palestrina: parte2parte3parte4parte5.

1791, último ano da vida do fã de Rousseau Mozart, que “pôs as reflexões de uma vida, sobre o Iluminismo, na sua última e mais extraordinária ópera”, a “Flauta Mágica” … “não é mais do que um manifesto maçónico do século XVIII”; ano do incompleto “Requiem” e “ as supostas últimas palavras ‘escrevia isto para mim’”: parte2parte3parte4parte5.

1874, “o ano em que a idade moderna da música começou” com Wagner na conclusão de “O Anel dos Nibelungos”: “deu expressão a todo um movimento político e cultural, o nacionalismo alemão” … “não é por acaso que a trama central do Anel, gira à volta das desastrosas consequências da avidez por poder e riqueza, ao seu nível mais básico o ciclo do Anel é uma alegoria socialista” … para Wagner “o capitalismo industrial era o Mal no coração da sociedade, uma escura e feroz máquina, que enriquece alguns, mas escraviza os de mais”. “Em 1854, logo após terminar o texto do ciclo do Anel, e antes de começar a trabalhar na música, ele leu um livro que transtornou o seu pensamento sobre política” … “a maior influência no Anel não é um poeta, não é um compositor, mas um filósofo”: Schopenhauer e o livro foi “O Mundo Como Vontade e Representação”: parte2parte3parte4parte5.

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Música para TV de Goodall: Not the Nine O’ Clock News” (1979-82) “Red Dwarf” (1988-99) QI (2003-08): com participações nalguns episódios].