Pratinho de Couratos

A espantosa vida quotidiana no Portugal moderno!

segunda-feira, novembro 22, 2010

Ólh’as n’tícias fresquinhas, freguês!

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Parte 7

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A candura de Manu Gavassi [1], a singeleza do Vocaloid [2], a inocência “nética” [3], a simplicidade de Gweneth Paltrow [4], a sinceridade de Sara May [5], a boa-fé dos portugueses [6], a funcionalidade de Esti Ginzburg [7], a chaneza das nascidas em Novembro, a ingenuidade das estrelas sempre descalças dos cabelos para baixo, a univocidade dos nomes de Sheila Dikshit e Luísa Corna, a mensagem directa da Playstation3 Singstar, o palpável “Back to the Future” Playboy, a objectividade do Libération, a manifesta lavadela da Yamaha R1, o voto útil na Jayne Mansfield para presidente, índex interminável de valores, esgotados nas prateleiras do jornalismo sério, bufarinheiro de ouropel oficial, mas que não rareavam, quando os jornalistas eram apenas redactores / relatores: no 4 de Julho de 1910, o dia em que a honra da América branca estremeceu.

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[1] Cantora paulista, (Twitter). Postou vídeos seus no site da revista Capricho e os leitores “justinbieberizaram”, e ela arrincoou a gravação de um CD e uma participação no último episódio da websérieVida de Garoto”: ▬ “One Time” ☻ “Eu e Você”☻ “Você Tá Namorando”. A “justinbieberização” da cultura juvenil – o púbere desodorizado pelo Nivea Menergy powered by YouTube – controla a visualização dos papéis sociais dos adolescentes século XXI. Os avós “donnyosmondaram” ou “cliffrichardiaram”, os netos “justinbierberizam”: no festival da revista Capricho; NoCapricho de 2009 venceu Carol Cabrino (Twitter): ▬ “One Time” ☻ “Levo Comigo” ☻ “The Climb” ☻ “Baby”.

[2] Software financiado pela Yamaha, para músicos profissionais: “usa tecnologia de sintetização de voz especificamente gravada de actores ou cantores. Para criar uma canção, o utilizador deve introduzir a melodia e as letras. Uma interface de piano tipo rolo é usado para meter a melodia, e as letras podem ser inseridas em cada nota”; aplicação de mediano sucesso, até a Crypton Future Media comercializar a sua “Character Vocal Series”: uma série de personagens japoneses, em Vocaloid2, que sepultam sob 700 palmos de terra os concertos dos Gorillaz: Miku Hatsune, (Hatsu = “primeiro” + Ne = “som” + Miku = “futuro”, ou seja, “o primeiro som do futuro”), com sample da voz da actriz Saki Fujita ▬ “World Is Mine” ☻ “Romeo and Cinderella” ☻ “Po Pi Po” ☻ “Ura-Omote Lovers”; – Luka Megurine (Meguri = “circular” + Ne = “som” e Luka deriva de nagare = “fluir” e ka = “canção” ou “fragrância”, ou seja, “canções para todo o mundo enquanto a fragrância se espalha”) ▬ “Just Be Friends”; – Rin/Len Kagamine (Rin a voz feminina, Len a masculina; Kagami = "espelho" + Ne = "som"; Rin = "direita"; Len = "esquerda", ou seja, "as canções reflectidas no espelho, esquerda, direita") ▬ “Meltdown” ☻ “Butterfly on Your Right Shoulder”; Miku Hatsune e Luka Megurine ▬ “Magnet”; Miku Hatsune e Rin Kagamine ▬ “Promise”.

[3] Visualizou um telemóvel no velho filme de Charlie Chaplin “The Circus” (1928), e o jornalismo oficial americano conjecturou um viajante no tempo. Outras hipóteses menos recycle bin para o gesto da mulher: um aparelho de audição da Siemens registado em 1924 ou, para David Carr, uma corneta acústica, legendada como Magritte, por causa dos DOS (“denial of service”) cerebrais, ou simplesmente ela coça a cabeça.

[4] Arremeteu-se-lhe a maluqueira de cantar música country: “como que arranquei, no início, com Hank (Williams) Sr. e Johnny Cash e estudei efectivamente Dolly (Parton) e Loretta Lynn, e como que simplesmente começou, no princípio, e avançou todo o percurso e encontrei as pessoas que realmente amo e que me inspiraram”.

[5] Nome artístico de Katarzyna Szczolek, modelo, cantora pop polaca, candidata à assembleia distrital de Varsóvia, pelo seu distrito natal Bemowo, com corpo político para submeter os adversários: “sou honesta, coerente, ambiciosa, trabalhadora e independente. Quero mudar o mundo e ajudar as pessoas a resolverem problemas” ▬ “Lulajże Jezuniu” ☻ “Nagi Taniec” ☻ versão inglesa: “All Alone” ☻ “C'est la Vie” ☻ e pela Eurovisão: “Let it Rain” (2009) ☻ “To the End” (2011).

[6] Numa fase de spotting corruptos não estão mal posicionados no mapa da corrupção.

[7] Modelo israelita cumpre o serviço militar na zona da propaganda para não furar o corpo com balas de metal.

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No dia 4 de Julho Jack Johnson derrota James J. Jeffries. Na alvorada do século XX, o circuito do boxe segregava-se entre pretos e brancos. Johnson apreciava “fast cars, fast women, slow gin”, pavoneava o seu instrumento – dizia-se que o embrulhava em gaze para lhe engrossar o volume – e quebrou o tabu da mulher branca. Ele personificava o bad nigger. Nascido em 1878, em Galverston, Texas, de avantajada envergadura, alcunhado o “gigante de Galverston”, vencera o Campeonato de Pesos Pesados Preto (1903), e embateu na barreira branca. Os pugilistas brancos cortavam-se. John L. Sullivan pagava 250 dólares a quem o derrotasse: lutarei contra quem aparecer, mas não lutarei contra pretos. James J. Jeffries, o campeão branco de pesos pesados, sem oponentes, reforma-se na sua quinta de alfafa. Atribuem o título ao canadiano Tommy Burns, os promotores de Johnson insistem por um combate, que se realiza em Sydney, na Austrália (1908). Jack London resume a vitória fácil de Johnson: “combate? não houve combate”.

Um preto campeão de pesos pesados regressa aos Estados Unidos em triunfo: roupas finas, carros caros, e casa (1911) com um branca divorciada Etta Terry Duryea : ela suicidar-se-á em 1912, casada com o preto mais odiado da América, a depressão, o álcool e a porrada matrimonial, dispara um tiro na cabeça. No país, os pretos exultam o seu herói, vêem nele a desforra por séculos de humilhações, a raça branca vê a sua superioridade ameaçada. Desponta ideia da “esperança branca”. Inaugura-se a demanda do pugilista branco que restaurará a ordem do mundo. Stanley Ketchel, campeão do peso médio, arca com a responsabilidade. É derrotado.

Convencem James J. Jeffries a poisar o arado e calçar as luvas, o desígnio era elevado: “entro neste combate com o único propósito de provar que o homem branco é melhor do que o preto”. Ele não combatia desde 1904, não estava em forma, mas o ânimo era fantástico: Jack London incita a “grande esperança branca” agora é contigo o homem branco tem de ser salvo. O governador da Califórnia, James N. Gillett, proíbe o combate em S. Francisco, transferem-no para Reno, Nevada, no simbólico 4 de Julho. Não havia rádio ainda, as notícias difundiam-se pelo telégrafo impressor – inventado por David E. Hughes (1855) – as pessoas reuniram-se nos clubes, jornais, teatros, e através de megafones lia-se a troca de murros: os jornalistas na sua função original de redactores e relatores, entretanto esfumarada em propagandistas da ideologia dominante. O representante e defensor da superioridade branca resiste uma hora: atira a toalha: a raça branca afunda-se, rebentam motins em várias cidades, as cordas balançaram das árvores para linchamentos. Filmaram o “Combate do Século”, que pôs uma questão filosófica: será estético / ético ver um vexame: um preto a golpear um branco? é aprovada uma lei que proíbe a importação e exibição de filmes de combates de boxe (vigorará durante 20 anos).

Johnson abre (1912) em Chicago o Café de Champion: putas e jazz no menu. Namora com Lucille Cameron uma funcionária do café de 19 anos. Invencível no ringue, tramam-no no tribunal. O governador da Carolina do Sul sintetiza o sentimento: “só há um castigo quando um preto põe as mãos numa branca”: o linchamento. A lei Mann protegia as brancas, raptadas para prostituição, proibindo o tráfico de pessoas através das fronteiras estaduais. Aliciam Lucille, profissional da cama, mas ela casa com Johnson, e recusa testemunhar. Recorrem a Belle Schreiber, puta no Everleigh Club, um bordel de luxo de Chicago, que confirma fornicação em Nova Iorque, Chicago, Atlanta etc. nas viagens de comboio de Johnson. Um julgamento rápido, um júri de 12 brancos condena-o, por “escravatura branca”, a um ano de cadeia. Sai com uma fiança de 15 mil dólares, ele diz que fugiu para o Canadá disfarçado num equipa de basebol. Em 1913, deixa Montreal, com Lucille, para a Inglaterra e a França. Em 1914 combate em Paris para o Campeonato Mundial de Pesos Pesados com Frank Moran: na assistência Maurice Chevalier, Rothschild e a flor fina parisiense, no dia seguinte, o estudante bósnio Gavrilo Princip dispara sobre o arquiduque Franz Ferdinand, em Sarajevo. Johnson com 37 anos será derrotado, em 1915, por Jess Willard, que já matara um adversário no ringue, em Havana: o combate do século, no 26º assalto, Johnson cai. Ele diz que de propósito, por estar em negociações com as autoridades para regressar aos Estados Unidos. Willard é coroado “A Grande Esperança Branca”.

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[Azarados músicos do rock – ou nem tanto: Dave Mustaine, aos 15 anos alugava um apartamento e sobrevivia na contingente profissão de dealer. Um dos seus clientes, curto de massas, trabalhava numa discoteca, e pagava-lhe em discos de heavy metal: Judas Priest, Iron Maiden, AC/DC, e no final da década de 70, Dave reproduzia-lhes os ritmos numa B.C. Rich. Cerca de dois anos (1981-1983), guitarrista dos Metallica; a droga, o álcool e os maus fígados motivam a sua expulsão, na subsequente pancadaria, quando o seu cão riscou a pintura do carro do baixista Ron McGovney. No dia seguinte suplica a sua reintegração, aprovada, mas as desavenças com James Hetfield e Lars Ulrich entornam o consommé no dia 11 de Abril de 1983: metem-lhe a viola num saco e ele num autocarro para Los Angeles. Ressuscita como guitarrista / vocalista dos Megadeth; no Rock in Rio Lisboa 2010, descreve esta agremiação: “nós, Dave (Ellefson) e eu, somos ambos cristãos e somos capazes de mostrar, a muita gente no mundo, que o heavy metal não é sobre escuridão e sobre, sabes? pessoas que são apenas más pessoas, sabes? Considero-me ser um tipo normal sem importância, e preocupo-me bastante com as pessoas, e para nós ser capazes de dizer: ei, Megadeth não é sobre, sabes? sexo, drogas, rock and roll, o diabo, toda essa tralha, é sobre coisas que importam para nós, sobre tópicos que nos afectam como pessoas”.

Burk Parsons desempata o dilema vocacional de um adolescente: que rende mais dinheiro, religião? ou indústria discográfica? As duas igualadas: no eixo material, ambas rogam o copioso cofre-forte, no espiritual, conciliam almas de legiões. Ele abdica de uma carreira de bandboy: harmonias vocais e bacanais, nos The Backstreet Boys (130 milhões de discos vendidos) ou nos ‘N Sync (56 milhões), pela de pastor: “Deus continuava a melgar-me. Eu percebi que Deus tinha outros planos para mim. Então, uma semana antes de assinarmos os contratos, entrei no escritório de Lou Pearlman e disse-lhe que isto não era o que Deus reservara para a minha vida”. (Twitter). Não perdeu dinheiro.

Outros perderam-no:

Tracii Guns forma os L.A. Guns, em 1983, com Axel Rose no microfone. Este abala para os Hollywood Rose; em 1985, resolvem fundir as duas bandas, aglutinando-lhes os nomes: Guns N’ Roses. Tracii será substituído por Slash, falhando os milhões deste banquete da melómana indústria. Contentou-se com as migalhas sacudidas da toalha; em 1991 no supergrupo Contraband e em 2002 nos Brides of Destruction, com Nikki Sixx numa pausa dos Mötley Crüe.

Chuck Mosley segundo vocalista dos Faith No More. O primeiro foi Courtney Love dos Hole: viúva de Kurt Cobain, heurística nua no Twitter ou no Facebook, assustosa do farmacêutico Sebastian Karnaby, quando este numa festa, na sala Boom Boom do Hotel Standard, em Nova Iorque, abriu a porta da casa de banho: “não foi uma visão bonita”. Mosley garganteia nos CDs “We Care a Lot” (1985) e “Introduce Yourself” (1987) e, em 1990 parte, por “divergências criativas”, ou abuso de drogas, para dois anos na banda punk Bad Brains. Em 1992, forma os Cement: durante a tournée do segundo CD, “Man with the Action Hair” (1994), o motorista adormece ao volante e Mosley demora dois anos a recuperar de uma lesão nas costas. Os Faith No More amealharão muchos dólares com Mike Patton.

Dave Evans primeiro vocalista dos AC/DC nos singles: “Can I Sit Next to You, Girl” e “Rockin' in the Parlour” (1974), em Outubro de 74 o falecido Bon Scott encaminhará o grupo na direcção do pote de dólares, e Evans empobrecerá nos Rabbit, Dave Evans & The Hot Cockerels, Thunder Down Under.

– Antes de, em 1990, Chris Novoselic exclamar sobre Dave Grohl: “soubemos em dois minutos que era ele o baterista certo”, o jackpot do grungehype!de Seattle, os Nirvana, de Aberdeen, Washington, testaram 73 bateristas: Aaron Burckhard, Chad Channing, Dan Peters, Dale Crover, Dave Foster…

Ian Stewart foi o primeiro a responder a um anúncio, de Brian Jones, no Jazz News de 2 de Maio de 1962, requerendo músicos para formar um grupo de rhythm & blues. Mick Jagger e Keith Richards simpatizaram no mês de Junho e as pedras rolaram toneladas de açúcar verde. Andrew Loog Oldham, empresário do grupo, despede Stewart em Maio de 63, por ser pouco apelativo como ídolo de adolescentes, a sua queixola quadrada desafinava no “é só dinheiro mas eu gosto”. Ele desaparece das fotografias, todavia “pôde obter satisfação” do salário de pianista, no palco e nos discos, e de road manager.

Glen Matlock, baixista dos Sex Pistols, foi despedido (segundo a lenda) com justa causa: numa banda punk, ele era fã do categorizado conjunto musical The Beatles. Matlock nega: a sua maior influência foi The Faces; na autobiografia “I Was a Teenage Sex Pistol”, escrita com Pete Silverton, esclarece que “apenas estava farto de estar no mesmo lugar que o John (Lyndon)”, e arma-se em bonzinho para com o seu substituto: “quando Malcolm (McLaren) regressou dos Estados Unidos, telefonou-me, e disse-me que eles estavam a ensaiar com o Sid. Eu disse, olha, realmente não me chateia. Se eles quiserem dou algumas lições de baixo ao Sid”. Integrará os The Rich Kids com Migde Ure, The Spectres, Hot Club e os Vicious White Kids: formados para um único concerto no Electric Ballroom, Londres, no dia 15 de Agosto de 1978. Sid Vicious, de partida para Nova Iorque e sem cheta, esbarra em Matlock e combinam organizar um concerto de angariação de fundos. Matlock recruta Steve New, dos Rich Kids, e Rat Scabies, dos Damned e desligou o microfone de Nancy Spungen, nos coros, após ouvi-la cantar.

Syd Barrett não piou, em público, desde meados da década de 70 e perdeu um pires cheio de money, enquanto a sua banda, os Pink Floyd, planavam para o lado iluminado da lua. O teclista Richard Wright dissipou as nuvens: “o cérebro deste tipo é bastante diferente do nosso”, avariado pelo LSD. E os porcos em voo da indústria discográfica não depositaram dinheiro para o tabaco, ou uma “Interstellar Overdrive”, na conta de Barrett.

Pete Best desacertou a hipótese de ser Ringo Starr, casar com Barbara Bach e “Baby, You’re a Rich Man”. Ob-la-di, ob-la-da foi funcionário público. Baterista original dos Beatles, o empresário Brian Epstein demiti-o, sem campos de morangos, em 16 de Agosto de 1962: “os rapazes já não te querem no grupo”, na sua biografia acrescentou que os cachopos de Liverpool averbaram-no “demasiado convencional para ser um Beatle, embora ele fosse amigo de John, George e Paul não gostavam dele”. Nas semanas imediatas, nas ruas e nos palcos, os fãs chirriavam-lhes: “Pete forever, Ringo never!”].

sábado, novembro 06, 2010

Ólh’as n’tícias fresquinhas, freguês!

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Parte 6

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Os ardinas, nas ruas acinzentadas, pelos consumidores de notícias, tolheram a vozearia dos seus pregões. Extinguiu-se a gritada de: “o príncipe Harry anda a comer a Camilla Romestrand!” [1], “Bree Olson coroada a maior puta do mundo!” [2], “batido o recorde de lipdub na Catalunha!” [3], “exposição de fotos vintage na galeria de arte Aria em Florença!” [4], “Arianny Celeste na capa da Playboy de Novembro!”, “o primeiro humano numa foto de Daguerre!”. Na época em que eles ainda goelavam, William Randolph Hearst papava anjinhos crentes na partição entre bom e mau jornalismo ao pequeno-almoço, e arruinava a carreira de Roscoe “Fatty” Arbuckle.

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[1] A honra de esvaziar as afidalgadas jóias da coroa incumbia à beleza zimbabueana, fumadora de Marlboro Lights, Chelsy Davy, mas o desgaste do material: “a distância entre ela e o treino militar dele”: noblesse oblige para Camilla Romestrand, norueguesa, vocalista do grupo londrino Eddie The Gun – “Don't Be Afraid” ♣ “Chains” ♣ em Nova Iorque - (os antigos Doll's House - "9988" & "Get a Grip" & "I Hate Today" & "My Love").

[2] Neta de ucranianos, actriz multi-premiada como por exemplo Melhor Cena Anal, no filme “Big Wet Asses 10” (2008), com Brandon Iron: siteblogtwitter. No programa de Howard Stern competia com Ava Devine e Sabrina Deep: “confessou que copulou com um zelador por pura necessidade”, e o público votou-lhe a honorífica distinção.

[3] A canção: “La Flama”: “não te limites a contemplar estas horas que agora vêm, desce à rua e participa. Não poderão nada com um povo unido, alegre e combativo”: dos Obrint Pas (catalão: “abrindo passagem”), formados em 1993; música ska com a dolçaina pela independência da Catalunha – “No Tingues Por” ♣ “La Marxa” ♣ “Continuant Avançant” ♣ “Del Sud” ♣ “On Tour (Més Lluny)” ♣ “Som” ♣ “A València” ♣ “El Cant Dels Maulets” ♣ “El Gran Circ Dels Invisibles” ♣ “Esperant”.

[4] Numa dessas fotos, três garotas se debruçavam no cinema italiano dos anos 50-60. – A primeira, Marisa Allasio, um petardo de chicha, cognominada “a Jayne Mansfield italiana”. Filha do guarda-redes do Torino, Federico Allasio, estreou-se no cinema aos 16 anos em “Perdonami!” (1953), e resplandeceu em “Poveri Ma Belli” (1956) de Dino Risi. No seu último filme, a produção ítalo-americana, “Arrivederci Roma” (1957), Mário Lanza canta-lhe “The Seven Hills of Rome”. Em 1958 casa com o conde Pierfrancesco Calvi, 7º conde de Bergolo, neto de sua majestade Vittorio Emanuele III, rei da Itália, rei da Albânia e imperador da Etiópia, e sua majestade Elena Petrovich-Njegosch, princesa do Montenegro. “Marisa Allasio” não foi esquecida pela banda new wave Diaframma. – A outra moça, Alessandra Panaro, participou em “Rocco e i Suoi Fratelli” (1960) ou “30 Winchesters Per El Diablo” (1965). – A última, Lorella De Luca, debutou em “Il Bidone” (1955) de Federico Fellini, e com o pseudónimo de Hally Hammond, contracena com “o maior herói do faroeste”: “Una Pistola Per Ringo” (1965) e “Il Ritorno di Ringo” (1965), realizados pelo seu marido Duccio Tessari.

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Fatty Arbuckle, em fama e dinheiro, ultrapassava Chaplin. Foi o primeiro a assinar um contrato de um milhão de dólares (com a Paramount: com controlo do argumento, elenco, realização, e fazia a suas próprias acrobacias), quando tudo desbobinou no dia 5 de Setembro de 1921. Fatty, e dois amigos, Lowell Sherman e Fred Fischbach, alugaram três quartos no hotel St. Francis de S. Francisco. Instalam-se no 1219 e no 1221, reservando o 1220 para uma festa dançante ao som de uma vitrola. Convidaram umas malucas e, como vigorava a lei seca, o álcool jorrava. E, no andado do regabofe, Virginia Rappé, 30 anos, morre com uma perfuração na bexiga. Os jornais de Hearst ficcionaram um porcalhão gordo de 120 kg, borrachão, que perfura uma frágil jovem até aos ovários: vende sete edições diárias. É um massacre dactilografado, no estilo da campanha contra os espanhóis, após a explosão do USS Maine (pior que um ataque da “Assault Girl: Hinako the Kentucky[1]).

Fatty fora uma criança mal nutrida, pai alcoólico, abandonada numa estação de comboios aos 12 anos. Trabalhou no estúdio Keystone, por 5 dólares, a fazer de polícia nas “stick comedies”, antes de Zukor o contratar por um milhão. Um milagre de Hollywood. Lugar mágico, fundado pelos emigrantes europeus, Adolph Zukor e Louis B. Mayer, e que a América puritana de Thomas Edison e Henry Ford qualificava de antro de deboche a atalhar na via dos bons costumes [2].

No julgamento, o procurador público, Matthew Brady, hasteia-se no defensor da moral. Bambina Maude Delmont, a testemunha principal, uma madame provedora de serviços horizontais, com cadastro policial: extorsão, bigamia, fraude, chantagem, testemunhou que Rappé saiu com Fatty para o quarto 1219, depois ouviu gritos, e Fatty não abriu a porta, até chamarem o gerente do hotel. O depoimento de Fatty difere: foi mudar de roupa na casa de banho, onde Rappé vomitava, levou-a para a cama, quando voltou ao quarto ela jazia no chão a vomitar, então pediu por ajuda.

Rappé morreu quatro dias depois no hospital de peritonite. No hotel, deram-lhe mistelas caseiras, bicarbonato de sódio, penduraram-na pelos tornozelos, água fria etc. convencidos de uma grande piela, o médico corrobora o diagnóstico, aplica-lhe morfina e atropina e enfia-lhe um cateter, por indicação de Delmont, que Rappé não urinava há várias horas. No hospital não operaram nem retiraram a morfina. Ela morre dia 9 de Setembro. Fatty abismava-se: “não percebo. Num momento sou o tipo que todos amam, no seguinte, sou o tipo que todos amam odiar”. O júri deliberou 40 dias sem acordo e o juiz declara julgamento nulo. Louis B. Mayer: “isto pode ser o fim de Hollywood”, e controlam os danos: Zukor corta o salário e bane os filmes de Fatty nos cinemas, e criam a comissão de censura de Hollywood presidida por Will H. Hays, tipo de ridícula figura, mas ajustado para a imprensa de Hearst.

Em 1922, Brady na corrida para Governador, empurra um sucesso na barra dos tribunais, e coage as testemunhas: Zey Prevon é sequestrada e ensaiada nas declarações, Alice Blake, ameaçada de lhe retirarem a filha menor. O segundo julgamento falha. A mulher de Fatty, Minta Durfee, defende-o e declara que ele era incapaz do acto sexual, pois tinha vergonha do corpo. Rappé era uma bêbeda de pernas de abertura fácil, aos 14 anos começou os abortos e doenças venéreas, quando entrou na festa era uma mulher bastante doente. Fatty será ilibado no terceiro julgamento, mas a carreira findara: Hays proíbe-o de trabalhar no cinema americano. Ele volta ao palco e à realização de filmes, com o nome do pai, Will B. Goodrige. Hearst contrata-o para dirigir a sua namorada Marion Davis em “The Red Mill” (1927), perante o espanto de Fatty, responde: “só quero vender jornais”.

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[1] Curta-metragem, parte de “Shin-Onna Tachiguishi Retsuden” (The True-Female Amazing Lives of Fast Food Grifters), (2007), sequela de “Onna Tachiguishi-Retsuden” (Female Fast Food Grifter: Foxy Croquette O-Gin ~ Struggle to Death in Palestine), (2006), que é um subproduto do filme de animé “Tachiguishi-Retsuden” (Tachigui: The Amazing Lives of the Fast Food Grifters), (2006), e todo isto deriva da Kerberos Saga: um universo alternativo narrado em manga, rádio, animé, criado pelo realizador e escritor japonês Mamoru Oshii. Os tachiguishi ou “fast food grifters” são personagens secundários na Kerberos Saga, representantes de um tipo de “fast food”, cujas histórias são contadas num universo de ficção científica militar: “Assault Girl” é a história da tachiguishi Kentucky Fried Chicken. E a sua sequência: “Assault Girls” (2009): três caçadoras: Gray (Meisa Kuroki), Lúcifer (Rinko Kikuchi) e Coronel (Hinako Saeki) atravessam a paisagem árida da Terra, depois da guerra termonuclear global, caçando “sunakujira” (baleias da areia) para ganhar pontos num jogo chamado Avalon.

[2] Encarreirou, e os consumidores de fitas, exploraram folclóricas culturas exóticas, guiados por supersticiosos nativos, para Amira Moustafa como Zita, a “she-devil queen”, no filme “Queen of the Amazons” (1947). E os filmes para 2011.

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[Alex James – “sou Alex James, e sou agricultor, numa vida passada tocava baixo na banda Blur”, apresenta-se ele num documentário da BBC – parte1parte2parte3. – Na sua autobiografia confessou ter espatifado “um milhão de libras em cocaína e champanhe”; Álvaro Uribe, presidente da Colômbia, amigo pessoal de Don Pablo Escobar, (cadáver made by USA), estadista impelido a óleo político de ódio pelas FARC – mataram-lhe o pai fazendeiro rico em 1983 e jurou exterminá-las – invitou James para mirar os efeitos do seu nariz na Colômbia. James cita Francisco Santos, o vice-presidente: “temos de dizer aos europeus que cada onça de coca que snifam está manchada de sangue”, que, em pessoa, propala-lhe a benquista cenoura dos modernos conscientes: a ecologia: “do que viu da destruição ambiental, convencer uma pessoa a dizer: eu não vou fazer isto, vou ficar pela cerveja” … “mesmo galões dela, valerá a pena”, – a benquista alface do Estado: a cobrança de impostos, na troca justa, de cocainómano por alcoólico. A BBC acompanha James num trajecto de aparência nada encenado só para as câmaras: no arranque de pés de coca na selva e, a prova da “veracidade” do documentário, a visita de um dealer, com produto do puro, espalhando umas linhas sobre a mesa, e o desabafo de James: “não estou tentado”. O material de guerra e dinheiro para o combate ao tráfico são americanos, quando ele pergunta numa pista de aviação: “estes aviões são pilotados por americanos ou colombianos?”, ouve o som do silêncio: os aviões e tripulações são americanos que são vacas sagradas na Colômbia.

– O presidente Báráque, rato sabido do marketing, executa a mesma política externa de Bush, com a diferença de conhecer a importância da semântica no exercício do poder, bane a expressão “war on drugs”, demasiado agressiva. Gil Kerlikowske, o seu czar das drogas: “independentemente do que se tenta explicar às pessoas, que é um ‘guerra às drogas’ ou uma ‘guerra a um produto’, as pessoas vêem a guerra como uma guerra contra elas. Não estamos em guerra com as pessoas neste país”.

A cocaína escreve por linhas direitas: o dealer Franklin Meyer revelou à revista Life & Style que a sua cliente Angelina Jolie: “ela geralmente gastava 100 dólares de cada vez” em coca e heroína, apareceu com uma grande moca na promoção do filme “Girl, Interrupted” (1999), numa entrevista com Charlie Rose. Carrie Fisher, a princesa Leia, desbronca-se do folguedo, no cenário do “planeta gelado”, de “The Empire Strikes Back” (1980): “nem sequer gostava por aí além de coca, era apenas um caso de apanhar, não importa que comboio precisasse, para ficar pedrada”. Scott Storch, produtor de hits no seu ano de ouro, 2006, rebentou com 30 milhões de dólares, em menos de seis meses, na alta-roda exaltada pela coca: carros, viagens para Riviera em jacto privado, vida de luxo: “o preço da droga não afectou a minha vida. Foram as más decisões que fiz, que eram tão desastradas financeiramente, que me levou a esta situação em que fui forçado a mudar de estilo de vida”.

Em 2008, o chefe anti-drogas das Nações Unidas, António Maria Costa, barafustava: “os fashionistas snifadores de coca não estão apenas a danificar os narizes e cérebros, eles contribuem para o falhanço de Estados no outro lado do mundo”, de olho nas snifadelas de Kate Moss ou Amy Winehouse e nos acertos políticos dos cartéis colombianos na África ocidental. – Por rota alternativa: Argentina, Cancún, Europa: despachava a dealer sexy Angie Sanselmente Valencia, infelizmente cangada este ano numa pensão na rua Paraguai nº 3357, no bairro de Palermo, em Buenos Aires.

Na Bolívia coca é cultura. O ministro dos Negócios Estrangeiros, o indígena David Choquehuanca, recusa o pedido da Junta Internacional de Fiscalização de Estupefacientes, financiada pela ONU, para a proibição de mascar folha de coca (“acullicu”), por ser uma “visão ocidental” de destruição de culturas “um verdadeiro atentado” à cultura andina. Na universal busca de novos negócios o governo boliviano investe 300 mil dólares na industrialização dos diferentes usos da folha da coca. O vice-ministro da Coca e Desenvolvimento Integrado, Jerónimo Meneses, especifica que, no início, serão infusões destinadas ao mercado cubano e venezuelano: um refrigerante chamado Coca Colla.

As infusões de coca foram, talvez, culpadas pela longevidade de Leão XIII. Depois do longo reinado de Pio IX (31 anos), ninguém dava uma mitra pelo cardeal Vincenzo Gioacchino Raffaele Luigi Pecci Prosperi Buzzi, eleito Leão XIII, em 1878. Fraco de saúde, com 68 anos, no melhor vaticínio, aguentava-se uns anitos e batia as sandálias de Pedro. Aguentou-se 25 anos. Ele era um fervoroso bebedor de Vin Tonique Mariani, um vinho francês, com infusão de cocaína do Peru, produzido em 1863 por Angelo Mariani, e popular entre a intelectualidade: Santos Dumont, Sarah Bernhardt, Júlio Verne ou Thomas Edison.

Pelos resíduos nas notas: 100% em Detroit, Bóston, Orlando, Miami, Los Angeles, 88 % em Toronto, 75 % em Brasília, 20 % em Pequim, a coca circula como a especiaria. Em Espanha, as cidades de Madrid e Barcelona, ultrapassaram o enrolar a nota, basta respirar, a coca está no ar.

Os Pulp (quiçá) lisonjearam o bom momento histórico de Portugal em “Cocaine Socialism”: “Just one hit / And I feel great / And I support / The welfare state / Oh, you must be socialist”, o brioso país, de orçamento aprovado: instrumento fornecedor de putas, coca e BMWs aos mercados – notou o Nobel da Economia 2008, Paul Krugman, num comentário de ObsessiveMathsFreak. O primeiro-ministro discrepa: “este orçamento, é um orçamento que defende o crescimento e o emprego”, e o presidente da República assobia: “se não tivéssemos orçamento, as consequências para o país, para as famílias e para as empresas seriam muito piores”].