Pratinho de Couratos

A espantosa vida quotidiana no Portugal moderno!

sábado, abril 14, 2012


Luz negra

Diógenes de Sínope arrojou um galo depenado aos discípulos de Platão iluminando-os: aqui tendes o Homem de Platão! O mestre brunira a essência humana de paquife quididade no “Político”: “a política é a arte de criar rebanhos de animais que não são nem aquáticos nem aéreos mas terrestres, que não são cornúpetos mas sem cornos, que não são quadrúpedes mas bípedes, que não são plumados mas têm a pele nua. A política é a arte de criar rebanhos de bípedes implumes” [1], implume, duas pernas calandradas, como a Doda: “XXX[2]. Bestificar toda uma espécie só porque vive organizada sob líderes não é descomedido, mensura o pacto urnário entre governadores e governados, uns põem ovos, os outros fazem omoletas. Quando, pela crisofila madrugada, o cocoró de Passos Coelho: “nós sabemos, só vamos sair desta situação empobrecendo em termos relativos, em termos absolutos até, na medida em que, o nosso PIB está a cair” [3], o povo, fiscalizador, cacarejaria: onde estão as condições para essa penúria? O povo imiscui-se nos affairs públicos. Isto não é 1963: “não era possível esperar que as massas aceitassem parcimoniosamente a perda das suas conquistas, o seu empobrecimento, para pagar as libertinagens e preservar os privilégios da classe dominante”, (nas “Actas Tupamaras – uma experiência de guerrilha urbana no Uruguai”), e lhes “despertar a consciência e fuzil” (hino do Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros) [4].
A imiscuição popular acravará a lista de reivindicações para a boa consecução das políticas dos pastores. O povo vacinou-se de que os líderes caranguejam, de que se lhes extinguiu a velha cepa, “os homens conhecem-se pela palavra e os bois pelos cornos”, e falam, falam, e de palavra? nada, nem uma marrada acertada. Desta vez, a força está no povo, para reclamar as condições para empobrecer, e só tem que sacholar nas tradições muito nossas, extemporaneamente abolidas, e exigir: a reinstalação das lixeiras a céu aberto, um monte de oportunidades para as classes mais baixas de acesso ao consumo e de verdadeira reciclagem nacional; a restauração dos terrenos baldios para construção de barracas para desgarre dos impostos contra o património; fim da videovigilância para agilizar roubos nos supermercados; olhos fechados dos fiscais aos sifões para desviar água e às baixadas dos postes de eletricidade… e com o “saber governar bem” [5] dos eleitos: a morte dos velhos para sustentabilizar a Segurança Social e a emigração dos jovens para assear as estatísticas do desemprego, e Cavaco Silva: “a situação atual no nosso país não é uma fatalidade e os portugueses devem de facto pensar isso mesmo, não é uma fatalidade. Se nós cumprirmos rigorosamente os compromissos que assumimos perante as entidades internacionais, há uma grande possibilidade de melhores dias chegarem no futuro”, se não chegarem, sempre haverá a caridade: “Too many florence nightingales / Not enough robin hoods”: “Flag Day”, dos Housemartins [6].
Povo marinho, “Sail[7] (rock eletrónico americano, AWOLNATION) – por 40 anos, seus dirigentes embarcaram no frenesim de contrair dívida e aldrabar as contas, emparelhando com a Grécia, num destino padejado nas estrelas do firmamento, Kasia Struss foi capa da Vogue grega de fevereiro 2010 e da Vogue portuguesa de março 2010 [8] – para toda a eternidade [9]. O marinheiro (Kevin Costner) deparar-se-á com os destroços, fundidos na língua, o portugrego, falada no entreposto comercial em “Waterworld” (1995). Povos saldunes, apesar da pernada de Passos Coelho: “eu espero que Portugal se possa aplicar ainda com mais determinação e mostrar, quer à União Europeia, quer ao mundo, que nós não seguiremos estes exemplos (ameaça de Papandreou de um referendo ao segundo resgate), não queremos ser confundidos com o que se está a passar na Grécia e isso depende inteiramente de nós”. Sotopostos salvadores: Herman Van Rompuy, diz-se, presidente do Conselho Europeu, depois do perdão de 50% da dívida grega: “queremos pôr a Grécia no bom caminho, de modo a que, em 2020, tenha reduzido a sua dívida pública para 120% do PIB”, e cujo final: “We goin’ light it up / Like it’s dynamite” (pop americano, China Anne McClain [10]). E os estilhaços já escabujam. Alain Badiou apanhou-os na sua declaração “Vamos salvar o povo grego dos seus salvadores!”: “25 000 sem-abrigo vagueiam pelas ruas de Atenas … os novos pobres disputam o lixo em aterros sanitários” [11].
Nos apertos da crise, a invenção remirá: os gregos, com 55 mil polícias no ativo, remoinho de fundos públicos, parados nas esquadras, projetam alugá-los para serviços de segurança, preçário: bófia 30 €/hora; mota 20 €/hora; carro blindado 40 €/hora; barcos patrulha 200 €/hora; helicóptero 1500 €/hora. O município catalão de Rasquera aprova, num referendo, uma proposta do alcaide para pagar dívidas: alugar um terreno de 7,5 hectares, (7 estádios de futebol), à Associação Barcelona Cannábica de Autoconsumo, para plantar marijuana. A concessão criaria 40 postos de trabalho e renderia mais de um milhão de euros em dois anos ao município. Portugal tem 10 estádios de futebol a crescer ervas daninhas, 21 mil bófias gordos e bem pagos a bacorizar nas esquadras, e a linha solucionista dos eleitos não lhes roça, é: inventar um imposto ou multa por dia. E, na política big picture, o furente líder da oposição e o adeleiro primeiro-ministro, em contubernal discorde, assinaram a inscrição da “regra de ouro” na Constituição ou em lei de valor reforçado, esquecendo-se da regra que deveriam sinetar a ouro, diamante, platina, lítio, dívida pública: a obrigatoriedade de pedir a vinda do FMI cada lustro ou, no máximo, uma vez por década.
Ao povo mais cumpridor da Europa, numa madrugada de nevoeiro regressarão os 13º e 14º meses, recompensados do Alto pela filoginia de Cristiano Ronaldo: “os golos, como um lendas do futebol me ensinou, os golos é como o ketchup, quando aparece, aparece tudo de uma vez, por isso não estou preocupado”. Autobiografa-se: “como uma pessoa q’é sincera, ingénua muitas das vezes, mas q’isso faz parte da minha personalidade, e por isso as pessoas gostam de mim, às vezes, se calhar, com esta carinha eh eh eh eh ou não, mas tudo enquadra-se”. O jogador tem uma nova amiga Malena Costa [12]. Um colchão de ideias peregrina a Europa de como resgatar países, espremendo os povos na verdade económica suprema: não há enriquecimento sem exploração. O povo não tem novos amigos que lhe disjunja, Bakunine: “desenvolveu-se no seio da Internacional mais ideias do que as necessárias para salvar o mundo, se as ideias apenas pudessem salvá-lo e desafio quem quer que seja de inventar uma nova. O tempo não é mais para ideias, ele é para factos e para atos”, qualquer recurso à ação proporcional expiraria com o Estado a abater cabeleireiras nas ruas: Petra Schelm [13].  
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[1] Em “Refutação da filosofia triunfante” (1976) de Orlando Vitorino, filósofo, pré-candidato às eleições presidenciais de 1986 com estranhas propostas: “deixar de remunerar a classe política”. As traduções antigas portuguesas coloriam-se para terem mar, muito mar, no diálogo “O Político”, a definição, tirada a ferros pela parteira Sócrates, é: “eu digo que deveríamos ter começado por dividir os animais terrestres em bípedes e quadrúpedes, e uma vez que o bando alado, e apenas esse, aparece na mesma categoria que o homem, deve-se dividir os bípedes entre aqueles que têm penas e aqueles que não têm, e quando eles tiverem sido divididos, e a arte da administração da humanidade é trazida à luz, terá chegado a altura de produzir o nosso Estadista e governante, e colocá-lo como um carroceiro no seu lugar, e entregar-lhe as rédeas do Estado, porque isso também é uma vocação que lhe pertence”.
[2] Dorota Doda Rabczewska, 1,69 m, 88-63-88, cantora polaca nascida a 15 de fevereiro de 1984; na juventude treinou atletismo durante quatro anos, venceu os campeonatos no Voivodeship nos 1000 e 600 metros e no lançamento do peso; aos 16 anos era vocalista dos Virgin ► “To Ty” (“és tu”) ♪ “Mam Tylko Ciebie” (“eu só te tenho a ti”). Doda está quatro furos abaixo de Einstein com um QI de 156; por ter duvidado da Bíblia: “porque é difícil acreditar em algo que foi escrito por alguém emborrachado de vinho e a fumar algumas ervas”, foi multada em 5 000 zlotys (1.110 €) e a Televisão Nacional Polaca (TVP) rescindiu-lhe o contrato, o administrador Wojciech Bosak justificou: “é impossível para as pessoas que insultam os cristãos aparecerem na TVP”. {Fotos}. {Fotos}. {Playboy}. {Tatuagens – no antebraço esquerdo, um erro gramatical, em vez de “eu amo Radek”, tatuaram-lhe “para amar um Radek”, o amor evaporou-se, e ela reciclou-a por outra em sânscrito}. Divorciou-se do guarda-redes Radosław Majdan em 2008, e em 2009 namorava Nergal, o vocalista e guitarrista do grupo de death metal Behemoth, a quem foi diagnosticado leucemia: “a minha primeira reação foi dramática, tipo, ‘foda-se é cancro!’. Foi muito emocional obviamente. Mas cinco minutos depois eu estava tipo ‘ok, acorda porra’. Comecei a telefonar e a enviar SMS aos meus amigos, a explicar com o que estávamos a lidar, como podíamos enfrentar este filho da puta, e como foda-se podíamos vencê-lo”. (…). “No momento em que fiquei internado e saiu para o público, tive esta reação de pessoas, tipo, ‘oh, isso é provavelmente porque rasgaste uma Bíblia no palco e agora estás a pagar por isso’. Então eu fiz uma declaração no nosso site onde basicamente expliquei que, não, não me estou a converter; vou ficar ainda mais anti-religioso e anticristão no hospital do que eu era antes. E estou ainda mais determinado nestes dias. É um paradoxo – tenho mais amor para algumas pessoas do que costumava ter, mas pelo outro lado, tenho mais ódio e nojo pela treta religiosa”, na revista Terrorizer nº 213. Quando ele saiu do hospital em 2011 finou-se o noivado: “quando abandonei o hospital, simplesmente distanciamo-nos”, disse ele ► “Bad Girls” ♪ “Nie Daj Sie” (“não se deixe”) ♪ “Katharsis”.
[3] Passos Coelho em outubro de 2011: “não vale a pena fazer demagogia sobre isto. Nós sabemos, só vamos sair desta situação empobrecendo em termos relativos, em termos absolutos até, na medida em que, o nosso PIB está a cair. Mas isso vai ser feito para sair desta crise e para recuperarmos o trajeto de crescimento económico e não para ficarmos, como se costuma dizer, no buraco orçamental, em que as medidas restritivas, retroalimentam consecutivamente, a perda de competitividade e a recessão económica. O que estamos a fazer é para sair da recessão não é para agravar a recessão”.
[4] Grupo marxista-leninista que lutou pelo socialismo no Uruguai. “A guerrilha faz a luta armada para conquistar as massas e por sua vez continuar a avançar. Depende vitalmente do seu objetivo pois, se não vai conquistando, fenece. A luta armada é ao mesmo tempo uma resposta e uma proposta política. ‘Se somos partidários da omnipotência da guerra revolucionária, isso não é mau, é bom, é marxista’ (Mao Tse Tung)”. Resolução das contradições em 1968 na Segunda Convenção Nacional: “aspira-se à proletarização de todos os militantes através de uma alta cota de trabalho manual, o trabalho ideológico, a prédica e a prática da austeridade para evitar as deformações da luta armada urbana, anular os efeitos nocivos do individualismo próprio da pequena burguesia e da classe média onde se recrutam muitos militantes, formar o homem novo e aumentar a confiança mútua”. Uma das suas ações foi o assalto à Rádio Sarandi, para transmitir um chamamento à luta armada, durante o jogo para a taça dos Libertadores da América, entre o Nacional uruguaio e o argentino Estudiantes de la Plata em 1969: “a respeito da planificação só resta dizer que o ato de assaltar a emissora se efetuará poucos minutos antes de finalizar o primeiro tempo da partida de futebol, de maneira a poder irradiar a mensagem sem interferir com o relato”. Precedia a mensagem “Cielito de los Tupamaros”: canção composta em 1959 para o filme falhado “Ismael” e proibida durante a ditadura. “A partida terminou com a eliminação do Nacional por 2-1. Mas um tricolor fanático, que apesar de tudo parecia contente, comentava à saída: ‘que me interessam os dois golos dos Estudiantes depois deste golão dos Tupas…’”.
[5] Pedro Mota Soares, ministro da Segurança Social, segura: “numa situação de austeridade, temos de saber governar bem com os poucos recursos que temos. Esta crise, nesse sentido, é também uma lição p’a todos os políticos, porque a partir daqui não é possível continuar a governar mais lançando dívida que os outros pagam. Eu acho que os eleitores também se apercebem disso muito claramente”.
[6] Canção sobre a redução da dívida pública, trespassando a responsabilidade pelos pobres, do Estado, para as instituições de caridade. Os Housemartins traçaram a revolução marxista (com influência cristã), em vários singles: “Build”, o mercado livre do imobiliário demolindo as habitações sociais; “Five Get Over Excited”, o capitalismo compassivo dos conservadores britânicos. Na tournée Adopt-A-Housemartin encorajavam os fãs a abrigá-los depois dos espetáculos: “‘lembro-me de ir para a casa de uma rapariga’, recorda Stan Cullimore. Ela acordou os pais para dizer: ‘ei, vejam quem temos para passar a noite’. No dia seguinte, porque as minhas calças estavam sujas, ela deu-me um par do pai dela. E ela escreveu-me a dizer que, na vez seguinte, que estive no Top Of The Pops, ele disse: ‘fogo, aquele gajo está a usar as minhas calças’”, na revista Mojo nº 190.
[7] Vídeo de Nanalew, (blogue), um canal YouTube criado pela canadiana Shawna Howson, e realizado por Tessa Violet.
[8] Kasia Struss, nome verdadeiro Katarzyna Strusińska, 1,79 m, 81-60-88, olhos castanhos, cabelo castanho claro, modelo polaca, nascida em Ciechanów a 23 de Novembro 1987.
[9] Vítor Gaspar, Setembro de 2011, na universidade de verão do PSD; apresentado como um homem austero; hobby: a leitura; animal preferido: o cão; qualidade que aprecia: a sinceridade; a comida preferida: salada: “David Westbrook diz isso por uma razão muito simples. Os países perduram sempre. Não há qualquer espécie de dúvida que Portugal superará a crise. A questão que depende de nós é, como e quão depressa seremos capazes de superar a crise?”. A receita: “a nossa estratégia para sair da crise, vai ter de ser, baseada em três elementos: a consolidação orçamental, a diminuição do ind e a diminuição do endividamento, primeiros dois aspetos, e em terceiro lugar, uma estratégia para ganhar de novo o potencial de crescimento da economia portuguesa”
[10] Do elenco da série do canal Disney “A.N.T. Farm”, nascida dia 25 de agosto de 1998 é atriz, cantora e compositora ► “Calling All the Monsters”, com as irmãs mais velhas, Lauryn Alisa McClain e Sierra Aylina McClain, (no vídeo), formam as McClain Sisters ► “Rise” ♫ “Jingle Bell Rocks”.
[11] Alain Badiou: “num momento em que um em cada dois jovens gregos está desempregado, onde 25 000 sem-abrigo vagueiam pelas ruas de Atenas, onde 30% da população desceu abaixo da linha de pobreza, onde milhares de famílias são forçadas a dar os seus filhos para que estes não morram de fome e frio, onde novos pobres e refugiados disputam o lixo nos aterros sanitários, os ‘salvadores’ da Grécia, sob o pretexto de que os 'Gregos' não fazem um 'esforço suficiente' impõem um novo plano de ajuda que duplica a dose letal administrada. Um plano que elimina o direito ao trabalho, e que reduz os pobres à miséria extrema, tudo isto fazendo desaparecer do cenário as classes médias”.
[12] Malena Costa Sjögren, 1,76 m, 89-67-92, sapato 41, olhos castanhos, nascida a 31 de agosto de 1989, em Alcudia, Maiorca: “Miranda Kerr, Rosie Huntington y Blake Lively son mis iconos de estilo”. Ela pertenceu a um dos grupos mais importantes da humanidade, porque, esvaziando-os, estimula o rendimento: as namoradas de desportistas. É ex-namorada de Carles Puyol, que a rifou por Giselle Lacouture, e ela ficou desolada: “pensei que Carles quisesse ficar sozinho”. É fã do conforto e das marcas low cost: “me encanta la moda, pero también me gusta ir cómoda. No soy de las de sufrir por llevar el zapato más bonito”. Em bikini naranja. {Blogue}.
[13] Os vates escreveram-lhe versos. Mollie Wells, residente no Ohio, do grupo post-industrial Funerals: descrito como “oceanos cinzentos e a terrível espera pelo sol”, dedicou-lhe um projeto paralelo post-punk e darkwave homónimo Petra Schelm ► “Buried Deep”. Cabeleireira, nascida numa família operária de Berlim, militou na Außerparlamentarische Opposition, onde conheceu Ulrike Meinhof e Horst Mahler, juntou-se, com o namorado, Manfred Grashof, à Facção do Exército Vermelho (RAF): fundado em 1970 por Andreas Baader, Gudrun Ensslin, Ulrike, Mahler… nesse ano, ela viajou para a Jordânia, com alguns companheiros para treino em guerra de guerrilha urbana, com a Organização de Libertação da Palestina. O seu nome de guerra era Prinz. Procurada desde a primavera de 1970, foi abatida aos 20 anos pela polícia de Hamburgo. No dia 15 de julho de 1971, num carro com Werner Hoppe, esbarram num controlo da polícia. Hoppe consegue fugir, mas Petra Schelm é abatida com uma rajada de metralhadora. Uma bala penetra abaixo do seu olho esquerdo. A polícia alega que disparou porque Petra abriu fogo com uma 9 mm. Em maio de 1972 o Comando Petra Schelm explode uma bomba no quartel-general do 5th Army Corps.   
Andreas Baader, condenado a 3 anos por fogo posto, obteve autorização para escrever um livro sobre “organizar os jovens à margem da sociedade”, numa ida à biblioteca do Instituto de Pesquisas Sociais, é libertado por quatro membros da RAF. Inicia-se uma luta pela destruição do Estado e o modo de produção capitalista. Emile Marenssin: “o objetivo estratégico não será mais a conquista do poder do Estado, enquanto estrutura mediadora entre a separação e a totalidade, mas a sua destruição. O objetivo estratégico, visado pela classe média-proletária, é a destruição da separação e portanto, imediatamente, a destruição das relações de produção”, em “Da pré-história à história”. Uma luta armada: Ulrike Meinhof, (crê-se escrito por ela), no jornal anarquista 883: “as balas atiradas sobre Rudi (Dutschke) puseram fim ao sonho da não-violência. Quem não se arma morre. Quem não morre é enterrado vivo: nas prisões, as casas de reeducação, nos buracos (das cidades satélites), nas sinistras pedras dos novos imóveis, nos jardins-de-infância e escolas sobrepovoadas, nas cozinhas perfeitamente organizadas, nos inumeráveis palácios quartos de dormir”.
Textos teóricos da RAF: “Sobre a concepção da guerrilha urbana”: “a guerrilha urbana tem por objetivo de tocar o aparelho de Estado em pontos precisos, de os pôr fora de uso, de destruir o mito da omnipresença e da invulnerabilidade do sistema. A guerrilha urbana supõe a organização de um aparelho clandestino: alojamentos, armas, munições, carros, papéis. É preciso ter presente o que Marighella descreve no seu ‘Mini manual de guerrilha urbana’; o que nós sabemos a mais, por pouco que seja, estamos prontos a dizê-lo a quem quiser pô-lo em prática”.
“Sobre a luta armada na Europa ocidental”, julga-se escrito por Horst Mahler: “uma dúzia de combatentes que se empenham verdadeiramente, e não discutem sem fim, podem fundamentalmente mudar a cena política e desencadear uma avalanche. Na primeira fase, a tarefa consiste, por ações apropriadas, demonstrar que é possível formar grupos armados e enfrentar o aparelho do Estado, e que ataques surpresa podem ser um meio de fazer valer com sucesso os interesses legítimos face a um sistema repressivo”.

cinema:

The Darkest Hour” (2011), produção russo-americana: “em Moscovo, cinco jovens lideram o ataque contra uma raça alienígena que atacou a Terra através da eletricidade”, c/ Emile Hirsch, Olivia Thirlby: 1,63 m, 76-58-83, Rachael Taylor: 1,73 m, 76-66-86, Veronika Ozerova, Anna Roudakova: 1,83 m… aviso legal: “todas as personagens que aparecem nesta obra são fictícias. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência”. A raça que ataca Portugal através da eletricidade não é alienígena, é de trazer por casa. António Mexia, presidente executivo da EDP, mais um ano, mais uma justificação de cevados lucros, contrários ao lânguido mercado interno: “efetivamente temos um ano de lucro recorde, mas porquê? porque todos os anos também temos vindo a investir, portanto é normal que consigamos esse esse objetivo. Mas que essa subida dos resultados se deve a um crescimento de 11% dos resultados operacionais fora e a uma descida em Portugal. Esta é a questão essencial. Resultam da capacidade de internacionalização da companhia. Mas são efetivamente os melhores resultados, ou seja, subimos em relação ao ano anterior, que tinham sido os melhores resultados da companhia”. (1 079 milhões de euros em 2010 / 1 125 milhões em 2011).
A pitança abonada pela eletricidade saliva empreendedores e políticos – Paulo Núncio, secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, treteia no Parlamento, a pirueta de 6% para 23% no IVA desse bem de consumo: “com este incremento, Portugal segue a tendência da esmagadora maioria dos Estados membros da União Europeia, que já tributam a eletricidade e o gás natural à taxa normal de IVA. Relevo aliás, sendo o IVA um imposto harmonizado ao nível da União Europeia, a eletricidade e o gás natural não se incluem, sequer, na categoria de bens e serviços, constantes do anexo III da Diretiva do IVA, a que são aplicados as taxas reduzidas”. Não somos nós, são os europeus! No parágrafo seguinte da taxa do IVA não relevou sequer o dependente de ministro: “os Estados-Membros podem igualmente, após consulta do Comité do IVA, aplicar uma das taxas reduzidas aos fornecimentos de gás natural, de electricidade e de aquecimento urbano”. A tarifa da eletricidade é cherinola de que o povo não escapa, glândula mamária de políticos cobradores de impostos, paveia engorda investidores. No total, um ninho de ratazanas que um estudo de avaliação dos custos da universidade de Cambridge, “Rents in the electricity generation sector”, remexeu com um pau técnico: “o Estado estará a pagar 3.9 mil milhões de euros a grandes produtores de eletricidade em rendas excessivas”, logo saltou o ratão António Mexia: “o estudo tem erros grosseiros, básicos, que o tornam basicamente inútil, e inutilizável… ao que julgo saber, também não gosto porque não, o próprio Governo terá considerado a sua não utilização por causa daquilo que são as conclusões claras, os erros crassos, deste estudo”.
Crebro gracejo se ouve de “repartição de sacrifícios”, e até o Governo declara estado de emergência nacional para cortar despesa, e cortou-se nos rendimentos de funcionários públicos, pensionistas e desempregados quando a tesoura arrombou nos 2 500 milhões de rendas excessivas pagas pelo consumidor ao setor energético. Henrique Gomes, ex-secretário da Energia, embateu em cidadãos com direitos adquiridos, os operadores do setor energético, não atendeu ao apelo de S. Paulo, se não fosse casto, fosse cauto, e apagou-se-lhe a luz no Governo. Doudejou ele numa entrevista: “o Estado tem de impor o interesse público, ao excessivo poder da EDP” e que, na questão das rendas, o Estado deveria atropelar os invioláveis direitos adquiridos, impondo “uma decisão unilateral e soberana”. “Seria revolucionário, mas não legítimo de um Estado de direito”, disse em tempos Carlos Zorrinho, um socialista. Num Estado de direito Henrique Gomes seria internado, num Estado entortado demitiu-se, pelas razões amoedadas por Carlos Moedas, secretário de Estado Adjunto do Primeiro-ministro: “confirmo essa demissão por razões pessoais e familiares do sr. secretário de Estado, mas sabe, um Governo funciona como uma equipa. O trabalho que o secretário de Estado da Energia começou e que tem a ver com as medidas que estavam no memorando da troika, porque aquilo que nós temos p’a fazer na área da energia já estava nesse memorando da troika e portanto nada muda … nada muda”.
A troika tropeçou no chorume do Estado, as rendas excessivas, e ordenou-lhe o fim no memorando: “sobrecustos associados à produção de eletricidade em regime ordinário: 5.6. tomar medidas de modo a limitar os sobrecustos associados à produção de eletricidade em regime ordinário, nomeadamente através da renegociação ou de revisão em baixa dos custos de manutenção do equilíbrio contratual (CMEC) paga a produtores do regime ordinário e os restantes contratos de aquisição de energia a longo prazo (CAE)”. O preço da eletricidade em Portugal não decorre da produção, de operadores a competirem no mercado livre, mas de políticas energéticas dos estadistas. Os governantes têm eleições a ganhar e, depois de darem o melhor de si à causa pública, desandam para as empresas privadas, e as do setor energético desembolsam balúrdios pelo marketing de um ex-ministro nos seus sofás, então, enquanto estão ativos, optam para um saco multicolorido chamado custos de interesse económico geral. Bela antonímia, o interesse é de um grupo restrito, aquele que se amaquia da maior parcela, do sobrecusto (a diferença entre o que custa comprar no mercado e aquilo que é pago aos produtores através de bombons como CMEC e CAE); nesse saco há outros custos como a taxa para que o preço na Madeira e Açores seja igual ao do continente, a portagem paga aos municípios pelo uso do solo e ar, e mais outras 14 bicadas na fatura da luz, que somariam 2.5 mil milhões.
Na fatura da luz, 58,6% são para CMEC, CAE e outras rendas, 31% para a eletricidade, e o resto distribui-se pelos impostos e outros encargos. Uma conta de 60 €, se cessassem os subsídios aos produtores, baixaria automaticamente para 24,84 €, e se concorressem no mercado livre, como em Portugal há excesso de oferta de eletricidade, pela lei da oferta e da procura, o preço desta decairia. Desde 1994, os governantes, para protegerem o dinheiro dos investidores, têm-nos mimado com lucro garantido nos contratos de aquisição de energia (CAE). Nesses tranquilos anos 90, um produtor tinha rentabilidade assegurada de 8,5% acima da inflação durante 15 anos, no mínimo, que iria para a fatura da luz, se os Governos não lhes pedissem por favor que adiassem a cobrança, por causa do impacto sobre os eleitores, e assim se foi construindo um monstro chamado défice tarifário: em 1999 era de 200 milhões, atualmente são 2.4 mil milhões, sempre a subir, com juros que rondarão os 300 ou 400 €. A responsabilidade deste pulo nos euros devidos à EDP & friends é a política energética da romaria que escabulhou os fados do país desde o palácio de S. Bento.
A opção das energias renováveis foi a grande catástrofe. Os políticos tinham algo para “obra feita”, algo que caía no goto dos eleitores: a salvação do planeta, e para canalizarem investimento, da alcatra alta da sociedade, que não é tola para correr riscos com o seu dinheiro, garantiu os lucros a todo o bicho careta que montasse um parque eólico no cimo de uma fraga. José Sócrates visionou-lhe a meta dos 5 500 megawatts / hora de capacidade eólica, como o país consome quase isso e os outros produtores, das centrais elétricas clássicas, carvão ou gás, ou da cogeração etc. também têm os lucros protegidos por contratos mesmo que não produzam, a solução, para não aumentar a conta da luz nas percentagens noticiadas, é atirar para o défice tarifário. No horizonte do mercado ibérico de eletricidade (MIBEL), os operadores do setor energético protegem os seus lucros numa troca de CAE por CMEC, e a garantida rentabilidade original de 8,5% acima da inflação amplia-se para 15%. Quando o mercado abriu em 2007 o Governo de José Sócrates recebeu o manguito quando sugeriu aos produtores que vendessem e competissem nesse mercado. Só um pateta trocaria 15% certos pela incerteza do mercado. E o valor do défice tarifário soma e segue para o impossível de pagar.
A troika assustou-se com o berro que o défice tarifário dará e obrigou o Governo a travá-lo até 2013 e a extingui-lo até 2020. Só há duas formas de travar esse défice: cortar nas rendas pagas aos operadores ou aumentar desvairadamente os preços da eletricidade aos consumidores, extingui-lo é outra conversa, requererá mais impostos. Álvaro Santos Pereira, ministro da Economia: “quando nós chegámos ao Governo estava projetada uma subida da eletricidade, 30% para os consumidores e de 55% para as empresas. Nós temos estado a trabalhar com muito empenho para que tal não aconteça, não vai acontecer”. O aumento foi “somente” de 4%. Que milagre foi este? fanfarrear de ministro derrota o poder económico? O povo fantasia egrégios heróis, dirigentes atomatados, que agarram os cabrões da EDP pelos postes de alta tensão e os obriga a não roubar. Uma quimera de povo com História. Depois do cálculo do aumento anual da eletricidade publicado pela ERSE, os dirigentes vão respeitosamente negociar. O respeitinho é muito bonito pois no futuro provavelmente estarão nos quadros da empresa, então dialogam: não aumentem tanto, pensem nas famílias, que tal 2%? O quê? vocês andam na coca marada? nem pensar! ficaríamos com problemas de tesouraria e os acionistas sem dividendos. Palavra puxa palavra, umas garrafas de água depois e lá concordam nos 4%. E os 26% que restaram? vão para a folha de couve? o cubo de gelo? as areias de Alcácer-Quibir? Vão para mais perto. Vão para o défice tarifário. Nem o novo imposto arcabuzará este pato. 
“O crescimento global dos preços de electricidade de 2012 para 2013 não será inferior a 11%”. Que não, balbucia o Governo, que os aumentos serão de 1% ou 2%, ou seja, irão mais 10% ou 9% para o crédito que os consumidores têm na EDP & friends, mais uns 850 milhões. E, numa avaliação lúcida, porque não querem cá voltar, dentro de uns anos, com outro empréstimo, para o Estado português pagar à EDP & friends, a troika ordenou que o Governo termine com esta brincadeira cara aos consumidores. E, quem está familiarizado com a jogatina nesta tavolagem, facilmente antevê as renegociações das rendas excessivas. Ao fim de extenuantes sessões de trabalho: ok, aceitamos descer dos 15% para 7,5%. Vitória! Vitória do Governo! Escondido nas entrelinhas estará que a renda, em vez de se estender pelos 15 anos, estender-se-á por 30, ou que o Estado ficou mais pobre noutro lado qualquer. O mistério adensa-se: quem pagará o défice tarifário? Ninguém acredita que sejam os consumidores.

música:

Sons de Londres – “no passado, a música era algo que se escutava e se sentia – era tanto um evento social como puramente musical. Antes de a tecnologia de gravação existir, não se podia separar a música do seu contexto social. Canções épicas e baladas, trovadores, entretenimentos da corte, música de igreja, cânticos xamanísticos, cantorias nos bares, música cerimonial, música militar, música de dança – estava praticamente tudo ligado a funções sociais específicas. Era comunitária e frequentemente utilitária. Não se podia levar para casa, copiá-la, vendê-la como uma mercadoria (exceto como partitura mas isso não é música). A música era uma experiência intimamente intricada com a sua vida. Você podia pagar para ouvir música, mas depois de o fazer, acabou-se, foi-se – uma memória. (…). A tecnologia alterou tudo isso no século XX. A música – ou o seu artefacto gravado, pelo menos – converteu-se num produto, uma coisa que podia ser comprada, vendida, comerciada e reproduzida infinitamente em qualquer contexto. Isto inverteria a economia da música, mas os nossos instintos humanos permaneceram intactos”, David Byrne.
Uma mercadoria tão grande como a vida renderá lucros maiores que a própria. Empresas piratearão a fraqueza humana pelos sons muito para além do limite da extorsão. Cegos pela cupidez os seus gestores, ultrapassados pela economia e tecnologia, no século XXI, assanham-se contra o consumidor, estripando-o de qualquer direito, exceto abandejar-lhes dinheiro ad aeternum. Para o Universal Music Group “a questão aqui é quem possui os CDs. A Universal argumenta vigorosamente que nunca transferiu a propriedade quando os distribui e que os discos são apenas ‘licenciados’ àqueles que os recebem. Cada disco inclui texto que deixa claro que ‘este CD é propriedade da gravadora e é licenciado ao pretendido destinatário apenas para uso pessoal’”. As editoras fonográficas acovilham-se nos inimigos imaginários: “eles são o bicho-papão das companhias discográficas: o jovem de 15 anos, no seu quarto, a roubar o mais recente álbum de uma vedeta e partilhando-o com os seus amigos tem sido acusado por trazer uma indústria de joelhos” – para encobrirem a sua negação de que a “pirataria é um problema de serviço”, que a venda de música a preços razoáveis reduziria, e o aspeto lucrativo da partilha de ficheiros: “quando os Plushgun lançaram o seu álbum ‘Pins and Panzers’, foi o álbum mais descarregado no popular site peer-to-peer What.cd, com mais de 10 000 músicas descarregadas ilegalmente. ‘É apenas uma questão de se adaptar’, disse Dan Ingala. ‘Ao mesmo tempo, está a ajudar-nos a criar um público’”.
A dança histérica dos números, pelos líderes do mercado das cançonetas, os EUA e o Reino Unido, embarra a atenção com um absurdo comercial: baixam as vendas, acrescem os lucros, enfardelando, pela porta do cavalo dos relatórios de contas, os novos filões do negócio como as bandas sonoras de filmes ou videojogos. (No Portugal, país subdesenvolvido, de subdesenvolvidos gestores, capazórios de vender apenas fado, o bitoven luso Tózé Brito quer sanções, quando a produção musical é lixo e os mercados não mentem: “venda da música em Portugal caiu 40% no 1º semestre de 2011”). Com o puro roubo aos consumidores, compensam, as editoras, a pura incompetência e gestão danosa: “Kevin Cogill foi preso no verão de 2008 sob ameaça de arma e acusado de fazer upload de nove faixas do álbum Chinese Democracy no seu site de música – antiquiet.com. O álbum, que custou milhões e demorou 17 anos a ser concluído, foi lançado dia 23 de Novembro de 2008 e alcançou o número 3 nos tops”: custo superior a 13 milhões de dólares, 928,571 cada faixa. A sentença não foi muito cruel, dois meses de prisão domiciliária, pior seria se fosse coagido a ouvir, sem ver, a ass music americana, o valor acrescentado por um bom rabo, como Ciara – Jean-Luc Godard: “primeiro houve a civilização grega. Em seguida, houve o Renascimento. Agora estamos a entrar na Era do Rabo”.
Os amauróticos políticos europeus satisfazem ordens dos seus donos, a indústria americana, e marralham. “David Lammy, ex-ministro trabalhista para a propriedade intelectual, disse: ‘o download ilegal rouba a nossa economia de milhões de libras a cada ano, seriamente prejudicando comércio e inovação em todo o Reino Unido. É algo que precisa de combate e estamos empenhados em fazer isso”. Papagueio malsão de uma indústria de embustice: “você está a matar as nossas indústrias criativas. Descarregar custa biliões, disse o Sun. ‘Mais de sete milhões de britânicos usam sites de download ilegal que custam à economia biliões de libras, assessores do Governo dizem hoje. Investigadores descobriram mais de um milhão de pessoas a usar um site de download num dia e calcularam que num ano eles usariam material num valor de 120 mil milhões de libras”. Se esse material fosse iPodável, com qualidade bastante para ser conservado num leitor digital, estes números seriam “reais” e catastróficos, e não uma trapaça. O acesso ao ficheiro protegeu o consumidor de espatifar o seu dinheiro num engodo qualquer da indústria, que aforçura o vómito à segunda audição, e o fim de maior parte desse material é delete – salvo os Orlando Riva Sound, eurodisco alemão.
A limitada inteligência cibernética dos políticos europeus – Stephen Timms, num e-mail: “proprietários de copyright têm atualmente capacidade de ir on-line, procurar por material de que possuem o copyright e identificar fontes não autorizadas para esse material. Eles podem então procurar descarregar uma cópia desse material e, fazendo isso, capturar informação acerca da fonte, incluindo o endereço Intellectual Property (IP)” – conluiou-os num ataque aos cidadãos. Como não são eleitos, nem lhes delegaram poderes, amaltam-se com quem lhes paga férias, iates, carros, e negociaram secretamente, conspiratoriamente, e assinaram a 22 janeiro as imposições de Hollywood, no ACTA (Anti-Counterfeiting Trade Agreement): a disseminação da figura do polícia no tráfego da Internet. Helena Drnovšek-Zorko, ministra dos Negócios Estrangeiros da Eslovénia, trasteja: “não relacionei o acordo que me mandaram assinar e o acordo que, na minha opinião de cidadã, limita e suspende a liberdade de uso da maior e mais importante rede da história humana, e que vai limitar o futuro dos nossos filhos”. E Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, borrifa: “tal como está, não me parece que seja positivo”. – A joldra política europeia amoderna o controlo social, afuroar com a polícia normal é dispendioso, e na política de austeridade, insuficiente, então trina o chamamento de cada um polícia dos outros, e o povo sem pão nem circo… “Ooh, Yes I Do”, (“a melhor exportação da Holanda”, as Luv’) / “Trojan Horse”: a Inspeção-geral de Atividades Culturais (IGAC) e a treda Associação Fonográfica Portuguesa (AFP) assinaram um acordo em 2010 para o espalhamento de honeypots, dissimulados de ficheiros de música, para caçar piratas.
Um negócio de biliões de euros, espeleólogos da alma humana sofraldam-lhe razões: Nietzsche (1871): “o simbolismo cósmico da música resiste a qualquer tratamento adequado através da palavra, seja pela simples razão de que a música, referindo-se à contradição e ao sofrimento primordiais, simboliza uma esfera que ao mesmo tempo é anterior à aparência e se situa além dela”. Claude Lévi-Strauss (1964): “pensar mitologicamente é pensar musicalmente. De todas as linguagens, só a música une os atributos contrários de ser e ao mesmo tempo inteligível e intraduzível”. Jimi Hendrix (1969): “a música em si é uma coisa espiritual. Não se pode cortar uma fatia de uma onda perfeita do mar e levá-la para casa. A música está em movimento o tempo todo. É a maior coisa eletrificando a Terra”. Os preços desmedidos das editoras discográficas, lucros absurdos, mais as perseguições judiciais, outros lucros fáceis e milionários, acossa o consumidor a ouvir as pedras da calçada… ou o silêncio de uma “DeadFall” (metal feminino de São Paulo, HellArise).   
Dizia Dizzy Gillespie: “não me importo muito com a música. O que eu gosto é de sons”, e os sons das ruas são um excelente produto de marca branca ao preço / qualidade das edições musicais atuais; – em Londres: (em mp3) sinos de St. Clementchamada para a oração na mesquita de Whitechapeladeptos de futebol no exterior do estádio Millwallpregador de rua no Speaker’s Corneranúncios no Metro de obras previstasbig issue! ♠ “Day Sound Map”.
Nas ruas tocaram os Destroy All Monsters, grupo de Detroit, (1973-1985), descrevem a sua música como antirock. “Influenciados por Sun Ra, Velvet Underground, a editora ESP-Disk, filmes de monstros, a cultura beat e o futurismo. (…). No fim de ano de 1973, o primeiro concerto dos Destroy All Monsters realizou-se numa convenção de BD em Ann Arbor, Michigan. Na época, os instrumentos eram um violino, um saxofone, um aspirador e uma lata de café. Tocaram uma versão demente de ‘Iron Man’ dos Black Sabbath e foram convidados a sair após dez minutos. O grupo apresentava-se guerrilla style, construindo-se de borla em festas e tocando por comida ao longo das fraternidades de estudantes de Ann Arbor. Eles usavam instrumentos modificados, uma drum box, loops gravados, brinquedos eletrificados, teclados baratos e dispositivos eletrónicos partidos” → “You're Gonna Die” ♫ “Paranoid of Blondes” ♫ “TV Eye” ♫ “Bored” ♫ “Nov 22nd” ♫ “Party Girl”. – No grupo expandiam-se dois artistas: Mike Kelley (27 de outubro 27, 1954 / 31 de janeiro, 2012) e Niagara (Lynn Rovner): a “rainha da pop art de Detroit”, “com um estilo que parece girar em torno do arquétipo da femme fatale”; ela sobre o barbudo género: “homens a sério gostam de punk. É engraçado como o termo sobreviveu. É uma versão hard-core, áspera, esfarrapada do rock and roll de músicos incultos”; também pertenceu aos Dark Carnival; e, numa homenagem aos Gun Club, cantou com os Demolition Doll Rods: banda c/ a pouco vestida Margaret Doll Rod, voz, guitarra, composição; Danny Doll Rod, voz, harmonias; Christine Doll Rod, também conhecida como The Thump / Thumper / Thumpurr, bateria, substituída em 2006 por Tia “Baby T” Doll Rod → ao vivo ♫ “Spoonful”.
Dentro portas há sons substitutos da música. Nattefrost, músico do verdadeiro, primitivo, de vistas curtas, black metal, o anticristo norueguês, vocalista dos Carpathian Forest, Bloodline e World Destroyer, grava as suas inspirações fisiológicas: “Nattefrost Takes a Piss”, 9ª faixa do CD “Blood and Vomit” (2004); e “Eine Kleine Arschmuzick”, 6ª faixa de “‘Terrorist’ (Nekronaut PT1)” (2005). Ou então um anónimo no freesound: uma enorme coleção de sons quotidianos – rouxinolsocos e estaladasribeirogranadaressonargritofogo florestalfolhear jornalgrito Wilhelm
Em Lisboa, os sons das ruas são metálicos, uma atração turística destacada nos roteiros high class: “a day in the life of a photojournalist in Lisbon”. No dia 22 de março, uma viciosa, insana, raivosa, cruenta carga da Polícia de Choque à imota, ordeira, inofensiva, cordata esplanada da Brasileira. Cadeiras fracturaram-se, mesas sangraram, guarda-sóis equimosaram-se. Da pátina de sua cadeira Fernando Pessoa: “a doida partiu todos os candelabros glabros”. Do verdete de seu cadeirão Cavaco Silva: “lamento profundamente que dois fotojornalistas tenham sido atingidos durante os distúrbios que as forças de segurança portuguesas tiveram que fazer face. E como é do conhecimento público, as entidades competentes já determinaram a realização dum inquérito para que tudo seja clarificado, e penso que é importante que todos saibamos, que o povo português saiba bem tudo aquilo que aconteceu nos distúrbios que ocorreram no Chiado”; o poeta António Ribeiro “O Chiado”, em “Auto da natural invenção”, respondera-lhe no século XVI: “Tu vilão, todo és mistérios, / tenho logo quem tem tudo, / quem manda grudo (contração popular de graúdo) e miúdo, / os mares e os impérios, e faz doudo do sisudo!”.
Azorragar nas ruas com a Polícia de Choque fardada de anteolhos será mais uma despesa, em gaze e mercurocromo, para as associações de solidariedade com os sem-abrigo, quentados na calçada portuguesa: “as famílias entregam 37 casas ao Banco por dia, 6 900 devolvidas em 2011”. Miguel Macedo, ministro da Administração Interna, esbambeia preocupações: “houve arremesso de pedras, arremesso deeeee louça que estava em mesas de esplanadas, houve agressões a polícias. Hão de compreender que aquilo que aconteceu ali não aconteceu por que de repente alguém se lembrou de fazer aquilo que fez da forma como foi apresentado (…) eu não confundo uma situação, por lamentável que seja, e é! como aquela que ocorreu, com o que aconteceu no país, com manifestações em todo o lado sem que tenha havido incidentes de maior, na maior das tranquilidades, com grande civismo”. O ministro aciona o marcador genético democrático: “a abertura / encerramento de um inquérito”, no hermético calão técnico causídico: “ficar em águas de bacalhau”. O poeta “O Chiado”, outra vez: “Irra! Fora! Vá de pulha; / justiça que faz barbulha / fará cajado da vara”. Alberto João Jardim, no congresso do PSD, convizinho: “graças a Deus temos forças da disciplina democrática que estão preparadas para defender a democracia”. Fernando Pessoa, outra vez: “E sente-se chiar a água no facto de haver coro…”. E, a esplanada da Brasileira, atacada sem provocação, e sem homem-cadeira (“chairman”), como a Galp: “não sou pacífico, mas não sou turbulento”, avaliza-se Américo Amorim, na próxima carga policial, apanhará no toldo e notFight” (rock galês, na Universal Records, The Dirty Youth).
Algo deveras insólito aconteceu nas ruas de Lisboa. Jessica Benavides Canepa, ao serviço do Traveler’s Digest, cruzou-se com “cavalheiros altos, carismáticos e atléticos que poderão causar surpresa com o seu firme conhecimento não só da sua própria cultura, como da de outras nações”, e classificou os portugueses no 4º lugar dos homens mais bonitos do mundo. As explicações empilham: uma pane aérea e o avião aterrou noutro país; do aeroporto diretamente para a ginjinha emborrachou-lhe o tablet; ou embrumou-se no país do celícola Paulo Portas, ministro dos Negócios Estrangeiros: “nós estamos a pensar criar um visto especial. Um visto de investimento, nos termos do qual, uma pessoa, estrangeira, que, coloque aqui mais de um milhão de euros, em depósitos, que faça compras imobiliárias acima de 750 mil euros, ou que crie investimento com postos de trabalho, pelo menos 30, fazendo isto estavelmente, tenha direito a um visto muito rápido e competitivo para residir em Portugal. Isto significa atrair para o nosso país dinheiro, investimento, emprego, criação de riqueza e ajudar a dinamizar a economia”. Nas ruas do país c’um “visto de investimento”, como nas passerelles, um gajo aformoseia-se e “Moves Like Jagger”, Maroon 5, no 2011 Victoria’s Fashion Show: modelos: Miranda Kerr, c/ o marido, Orlando Bloom, na plateia a aplaudi-la, Sui He, Constance Jablonski, Caroline Winberg, Lindsay Ellingson, Anne Vyalitsyna, namorada (ex) do vocalista dos Maroon 5, Adam Levine, Liu Wen, Anais Mali, Erin Heatherton, Joan Smalls, Maryna Linchuk e Karlie Kloss - (c/ Christina Aguilera).