Pratinho de Couratos

A espantosa vida quotidiana no Portugal moderno!

segunda-feira, novembro 20, 2006

Velhas bruxas

Tempos houve em que elas caminhavam sobre a terra e eram a atracção principal dos espectáculos organizados pela Igreja Católica. Quando não existia indústria do entretenimento, a corte do Vaticano, fazia as vezes de Hollywood, proporcionando ocupação do tempo e do espírito no mundo conhecido. Apesar do empenhamento e brio profissional de santos bispos, padres e outros dedicados sequazes, o extermínio total é hoje questionável… e elas não fugiram para Espanha como somos levados a crer.

Teremos que olhar para as profissões liberais e nas “revistas das sopeiras” onde se narra a vida dos “botóxicos” e famosos portugueses, para encontrarmos a versão moderna das velhas bruxas. Elas irradiam alegria porque a vida está a acabar, saracoteando-se pelas festas e locais de trabalho, como velhas medusas petrificando o gosto estético dos espectadores inocentes. E, não têm apenas sexo feminino. Neste nível do jogo da vida as demarcações e fronteiras tornam-se brumosas como no androgínico Glam Rock dos anos setenta.

O golpe militar aprilino trouxe emancipação, estudos, profissões bem pagas, ideias arejadas e o sentimento de urgência que tudo o que é bom acaba. Tal como o Verão, o açúcar da pastilha elástica, as promoções nos pacotes de férias, os prémios dos concursos da TV ou o dinheiro antes do fim do mês, iniciando uma corrida louca para um fictício lugar onde ninguém quer envelhecer (a Neverland de Peter Pan revisitada por Michael Jackson). E os eternos treze anos de Lili Caneças, a ostensiva exposição de carne a caminhar para o encarquilhado de Fátima Lopes ou os dias subtraídos à idade de Cinha Jardim após a operação, são o resultado óbvio da publicidade das clínicas de estética. Se as pessoas querem bonito, bonito lhes parecerá, numa reconhecida homenagem popular à ideia kantiana de que o belo está na pessoa que julga e não no objecto em si.

Ao perder o brilho da pele, turvado com os riscos das rugas e melanomas da exposição solar, a mulher portuguesa instruída já não faz como a sua mãe. Não se envolve em saias, mete lenço na cabeça e arrima à lareira para aquecer os joanetes, antes vai às lojas de artigos de luxo e torna-se montra ambulante de marcas registadas. Com cintos de fivelas douradas e iniciais do designer ocupando o abdómen, ou roupas com etiquetas estampadas em lugar bem visível, ou pinta o cabelo louro L’Oréal num festival espampanante de reprodução anual dos corais ou migração das andorinhas. (Por seu lado, os homens tingem cabelo e bigode para capear a idade e adquirem aquele ar de eterno galopim do cantor Alex depois de ir à faca, ou de um “dinossáurico” autarca catrapiscando uma repórter boazona).

As velhas portuguesas perderam a noção da idade como factor biológico, e vê-las espalhadas pelas profissões liberais, especialistas, organizadoras de festas, indutoras e condutoras de caridade, empresárias, juízas, beatas seguidoras de mais um padre cantor, empoleiradas no aparelho de Estado, atarefadas ou ociosas, auto-sugestionadas na ilusão de cumprir um grande papel social, convencidas que o espelho está errado e que tudo é uma questão de iluminação do quarto, é mais triste que um passeio por Lisboa depois da morte de D. Fernando I.

Perderam todo o sentido da proporção e do gosto numa sociedade em que o ataque aos sentidos está a chegar à fase final com o controlo da audição e da vista, em que todos os sons e imagens correm o risco de terem de ser pagos para serem consumidos, as nossas velhas rebentam todos os padrões estéticos confundindo o belo e o feio numa amálgama onde tudo vale. Porque já não há padrões: nem Maja de Goya, nem As Crónicas do Cancro de Hirst, nem as carnes de Marilyn, nem os ossos de Julia Roberts. Agora são cabelos louros segurados a laca, roupa justa mostrando os efeitos da gravidade, os cintos largos, muita quinquilharia nos pulsos e pescoço.

O pior foi quando o velho bom juízo exigido às pessoas normais saiu pela janela, quando lemos declarações pronunciadas por velhas acerca de uma juventude que anda nas ruas até altas horas da noite, bem penteados, de roupas provocantes, com bronzeados magníficos, uma tentação para a vista e pouco dinheiro no bolso, capazes de atazanar os lares e opções sexuais solidamente definidas, compreendemos que envelhecer pode trazer morte às células cerebrais, mas desperta, sobretudo, uma grande inveja por aquilo que já não é possível alcançar com todos os arrebiques e toda a publicidade de eterna juventude contida na garantia de produtos milagrosos.

As nossas “ex-velhotas”, hoje mulheres maduras mas jovens de espírito, caíram na arriosca das clínicas espanholas. Quase que se consegue ouvir nos altifalantes da sala de espera “must be the season of the witch” cantado pelos Vanilla Fudge ou Donovan Leitch, enquanto que pelas traseiras carrinhas de valores levam os lucros para uma vidinha paparriba dos donos, felizes e menos enrugados, por certo. Se R. D. Laing estiver certo e nós não somos um mas três – como nos vemos, como os outros nos vêem e aquilo que realmente somos. Então, a indústria da estética explora a percepção que temos de nós próprios, para os outros, após os tratamentos, as pessoas continuam na mesma… só que mais esquisitas.

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