Pratinho de Couratos

A espantosa vida quotidiana no Portugal moderno!

terça-feira, dezembro 12, 2006

Patetices na quinta

A euforia do cachecol, do boné e da bandeira em 2004 despertou uma torrente de talentos em estado de dormitação nos entrefolhos da alma lusitana. Esta euforia provocada pelo “esférico rolando na relva” serviu de “arquimédico” ponto de apoio para enfiar a alavanca da elevação da auto-estima upa upa lá para cima. Um feito não conseguido por outros acontecimentos históricos também de desbarretar o poviléu. Como a publicação da bula Manifestis Probatum, a defenestração do Miguel de Vasconcelos, a chegada de D. João VI do Brasil, a tonitruante cantoria d’ “ A Portuguesa” nas baiucas de Lisboa, o início do ciclo reprodutor de D. Duarte Pio, ou a abacial mordomice (publicitada como funções ultra-importantíssimas para a felicidade da Humanidade) do Señor Barroso e de Mr. Guterres na cena internacional.

Se estão lembrados a exultação da bola motivou os estudantes do 12º (ano lectivo de 2003/2004) que, ainda sob o efeito do choque adrenalínico da vitória da selecção portuguesa sobre a Rússia, acharam o exame de matemática fácil, dando um importante sinal aos pedagogos de como acabar com o insucesso escolar nesta disciplina tão roaz da cachimónia juvenil. Trouxe o opulento iate de Roman Abramovich à costa lusa cuja visão do cais fez avançar os consumidores das “revistas de sopeiras” um passo no sonho pela “qualidade de vida”. Inspirou Marcelo Rebelo de Sousa nos seus dislates habituais comparando o jogo contra a Espanha a “uma espécie de Aljubarrota” onde houve “preparação, táctica, moral elevada, apoio do país e emoção da luta”. O professor universitário dava a ideia correcta do nível elevado da academia portuguesa que também sabe dar (e teorizar) uns pontapés na bola.

As conferências de imprensa da época faziam jus ao constatado facto de serem o único motivo de interesse do futebol português. Onde atletas e dirigentes vestem a túnica do filósofo e enfunam o pátrio orgulho. Onde pudemos ouvir o Cristianão Ronaldão lançar mais um diamante para as orelhas do vulgo: “temos de ir para cima deles e dar porrada, como diz Mister Scolari…” – e nos fez sonhar com um Laureus da corda vocal. Todos os cantores e cantadores contribuíram para a banda sonora de tão jactancioso momento mas Roberto Leal foi o rei da eira e do nabal. Vestido de imaculado branco, de microfone apertado na mão direita poisada sobre o coração, na esquerda acenava a bandeira verde-rubra. Ao lado, no palco, o seu “metaleiro” filho rasgava com distorção na viola os acordes do Hino Nacional, num estilo Jimi Hendrix em Woodstock mas melhorado pela acústica da Praça da Figueira. Serão imagens como estas que nos irão perseguir (no bom sentido) a vida toda. E tudo isto consequência do feliz enlace dos dois nubentes Madaílão & Scolarão, velhas raposas fora da idade casadoira é verdade, mas que desacoitaram, com a fórmula mágica do futebol, aquela aba romântica da alma lusa que vertia lágrimas quando as noivas de St. António chegavam de Volkswagen às escadarias da igreja.

O estado de narcose do esférico teve efeitos imediatos. Fez passar a velha brutalidade policial por desígnio patriótico. As imagens de turistas a serem espancados no Algarve foi apresentada pelos jornalistas como uma conspiração hooligan arquitectada contra os honestos comerciantes algarvios. Esquecemos a história recente do turismo algarvio quando este corria atrás do “camone” para lhe esvaziar os bolsos com preços inflacionados e o turista português não era bem-vindo e maltratado. Talvez os ingleses, enganados nos preços e trocos, tivessem motivos para comportamentos violentos, mas prevaleceu a optimista ideia da mítica hospitalidade portuguesa invocada pelo ministro Arnaut – a dos carros puxados por burros e velhas desdentadas a rir para nós.

Mas a cereja do bolo deu-a o Governo ao decretar medidas jurídicas excepcionais para enfrentar a avalanche de gente que desembarcaria no país. De excepcional nada teve, pois, julgamentos sumários com polícias como testemunhas são o pão-nosso de cada dia para os autóctones e com condenação garantida. O bombeiro inglês Gary Mann teve o azar de ser apanhado neste lufa-lufa jurídico e, claro, acabou condenado. Felizmente para ele a justiça inglesa não tem que aceitar as decisões das nossas juris vedetas, boas para escrever livros de mercearia e dar entrevistas de fazer rir os penedos, mas nunca para decidir sobre assuntos sérios.

Todos estávamos de parabéns. A máfia do futebol construiu estádios com a ajuda do contribuinte sem crise nem contenção de custos. Foi gastar à tripa forra. Agora podem dourar o apito que todo o pecado lhes será perdoado. A UEFA desfez-se em elogios aos tarantas meridionais convencendo-os de que são grandes organizadores de eventos para além dos corriqueiros casamentos e baptizados. Os políticos cintilaram de orgulho entre os seus congéneres aos tropeções nos cachecóis. O povo meteu-se como piolho em costura e fez a festa da vida, esbracejou bandeiras, gritou até ficar rouco, rezou com fé e fez promessas a Nossa Senhora de Fátima, e ainda por cima era Verão.

A intuição popular sempre soube que nada adumbraria o futuro português. Desde que sigamos os ensinamentos do Mister e sejamos fãs do futebol, fãs de sua mulher, fãs de si mesmo, fãs da Humanidade, fãs da praia, fãs da família, fãs dos amigos, não importa, porque futebol é cultura pois até põe o Ministério Público a ler livros – como, por exemplo, a mais recente obra-prima da literatura mundial chamada simplesmente “Eu, Carolina”.

3 Comments:

  • At 3:58 da tarde, Blogger AChata said…

    Texto optimo como sempre.
    Temo que aqueles que consideram que 'Scolari é o homem que mudou o rumo da História' não irão concordar consigo mas, acada historiador a sua versão.

    E enquanto rejubilamos, nos degrenhamos e discutimos futebol...

    O NHS inglês está um buraco só, e as iniciativas do governo inglês para tentar remediar a situação têem variado entre fechar serviços e despedir pessoal (onde é que eu já ouvi isto?).
    Mas, recentemente lançaram duas campanhas fabulosas:
    1 - Pagar aulas de danças de salão para combater a obesidade.
    (Last week saw the unveiling of an initiative by health minister Caroline Flint that promises free trampolining and tango lessons for the unfit. The programme is part of the Government's attempt to tackle obesity, which costs the NHS £7 billion a year. But did we really need £2.5 million to be spent on a pilot programme that included lessons for children in how to take walks and visit supermarkets, street-dance classes for teenagers, and boxing for the over-50s?)

    2 - Panfletos para defecar melhor.

    (In April, NHS Tayside produced a four-page guide catchily entitled Good Defecation Dynamics. "Potty Training for Grown-ups" might have been a more precise title. It contained the vital advice that one should sit up straight and keep the mouth open – and "don't forget to breathe".)

    Para quando sr. Ministro da Saúde tem agendadas estas iniciativas?

    É que além de patetas nem sequer conseguimos ser originais.

     
  • At 5:04 da tarde, Blogger Táxi Pluvioso said…

    Acho a ideia das danças geriáticas fantástica. Que se pague o vira ou o corridinho pois já gastaram muito dinheiro com o "bailhinho" da Madeira. E mais agora que a vida sedentária ataca os mais idosos. Até o procurador-geral e sus muchachos passam os dias assapados nas poltronas a ler livros. Conta que o de Carolina Salgado é apenas o primeiro. Todas as outras obras com carácter autobiográfico serão passadas a pente fino.

    O problema dos países ricos é que as pessoas ficaram sem nada para fazer, visto haver uma sweat shop algures no 3º mundo que trabalha por eles, logo têm que inventar actividades outras ocupacionais. Como as universidades não param de produzir especialistas em "ciências humanas" estão a aproveitar todo esse saber na "intervenção social".

    Bem, a ideia de ensinar a defecar ainda é melhor que a primeira. Seriam umas aulitas baratuchas pois os alunos só necessitariam de comprar papel higiénico como material didáctico. Há sempre aqueles pacotes enormes que oferecem uma porradas deles de borla.

    Obrigado por estas informações. Sou um coleccionador de factos engraçados que sucedem à nossa volta.

     
  • At 3:22 da tarde, Blogger AChata said…

    "O problema dos países ricos é que as pessoas ficaram sem nada para fazer"
    Países ricos?
    Pelo que leio diarimente nos jornais acho que a designação deveria passar a ser países com alguns muito ricos.

     

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