Pratinho de Couratos

A espantosa vida quotidiana no Portugal moderno!

sexta-feira, julho 06, 2007

Mamã eu quero

Antoine-Laurent de Lavoisier é conhecido por ter resumido num atractivo adágio científico a lei da conservação da matéria. Simples de entender tornou-se de imediato num sucesso nos bancos da escola. Os cábulas em Química sabem-na na ponta da língua. Decoram-na com o mesmo à vontade que a fórmula do ácido sulfúrico. Na realidade é a única lengalenga que aprendem depois do inolvidável H2SO4. Num ensino para a excelência é essencial dotar os jovens de (pelo menos) um skate intelectual para percorrerem os passeios, esquinas de muros e varões de escadas desta praça fortificada pelos milhões da União Europeia. E, saber recitar “na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” serve para ter uma atitude filosófica sobre os passados subsídios da magnânima Europa, que não se perderam, como dizem, mas transformaram-se na riqueza daqueles que lhe deitaram a mão, e… manter a outra mão limpa para receber o novo pacote milionário de 21,5 mil milhões (desta vez com um propósito definido e na moda: “desenvolvimento sustentado”). Nisto de mãos estamos mal servidos. Somos poucos e só temos duas per capita. E, logicamente, as que mexem no saco são sempre as mesmas. Para as outras, azarentas no jogo do subsídio, mas sortudas no amor, se reserva passeios amorosamente enlaçadas, nas ruas, como cantava Françoise Hardy sobre “Touts les garçons et les filles de mon age”. E… enquanto tivermos idade, e as Câmaras Municipais não cobrarem, é de aproveitar.

(Para repor a verdade, quem publicou a lei da conservação da massa, catorze anos antes de Lavoisier, foi Mikhail Lomonosov. O francês ficou com a fama porque vivia num centro cultural da altura – a cidade de Paris).

O químico gaulês teve outra importância. Deu-nos o ar que respiramos. Foi ele quem descobriu e baptizou o oxigénio – do grego oxys (ácido) + genos (gerar), ou seja, “criador de ácidos”. Mas para nós portugueses ele será premonitório. Lavoisier, para além de queimar as pestanas no laboratório, era cobrador de impostos, e por causa desse mal compreendido mester foi guilhotinado no dia 8 de Maio de 1794. Este decapitado final deveria ser uma lição para o (nosso) Estado liberal cuja única função é contratar especialistas para sonharem novos impostos e criarem engenhocas financeiras para que os existentes pareçam baixar. (A “solução” para o Imposto Automóvel é um mimo de inventiva. Na hermética linguagem da ciência económica chama-se Epidural. Em vez de pagar com dor no acto da compra, o condutor vai desembolsando ao longo dos anos, com reduzido impacto álgico). E noutra aplicação Lavoisier nos toca. A sua lei da conservação da matéria explica a essência da nossa realidade. Uma realidade poupadinha onde nada se perde. Povoada de heróis, valentes “mata sete”, durões descobridores, piedosos professores tutores do mundo, impossíveis de desaparecer, urgentes de preservar. Por exemplo, a irmã Lúcia não morre, transforma-se… em milhentas padrecas vocações – graças a Deus – para exorcizar do solo pátrio o “Diabolism” que solfejam os Carpathian Forest.

Não há nada pior que uma vocação enchoiriçada dentro da alma sem poder ver a luz do dia. Neste padecimento de querer ser, os portugueses têm o cardápio limitado. O menu do dia resume-se ao escolher entre ser futebolista, fadista, padre, cozinheiro e, em ementa alternativa, serralheiro-mecânico. A igreja de Santiago de Areias, perto de Santo Tirso, foi palco de uma destas tragédias vocacionais. Durante o baptizado do pequeno Pedro foi montada uma operação policial de grande envergadura e planeamento. Os Srs. guardas tiveram oportunidade para testar, no teatro de operações, os conhecimentos adquiridos na Escolinha de Polícia. Em conluio com o cónego de Braga apuseram-se de tocaia para caçar um falso padre. E mais uma vez a superioridade do carácter técnico-científico da nossa Polícia foi evidenciada. Como precisavam de apanhar o tipo em flagrante delito pacientemente esperaram que ele dissesse: “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Se ele não abrisse o bico seria mais um gajo vestido de batina. Esquisito mas não crime. Mal acabou de pronunciar as evocativas palavras deram-lhe ordem de prisão, e pouparam no “mãos ao alto”, pois ele já estava de mãos postas para o criador no céu – (para quem não sabe fica situado os antípodas do night club aonde Miles Davis e John Coltrane tocam juntos para a eternidade).

Mais tarde desvendaram os contornos enesgados desta detenção. O indivíduo apresentava-se como o padre João Luís Amorim, com prática em missar nas terras de Angola, e a tirar um mestrado no Vaticano. Durante dois anos rezou missas, baptizou bebés, celebrou casamentos, um deles na Sé de Braga. Diziam os paroquianos que “tinha o dom da palavra” e era muito querido de beatos e beatas. Mas a sua personalidade dividia-se em duas como o feijão-frade. No Bilhete de Identidade ele chama-se Agostinho Coutinho Caridade, de Barcelos, alcunhado “o Gravatas” pelos vizinhos para simplificar. Caridade teria começado a rezar missas em Albufeira, com o nome de padre Pedro. Confessou que não o movia negros desígnios para ficar com a massa dos peditórios mas a vocação de propagar a fé de Cristo. No universo padresco, o dinheiro, tanto para os verdadeiros, como para os falsos padres, é um produto acessório, teima em aparecer sem intervenção humana ou prece específica. O Gravatas não foi apanhado por roubar mas por falar demais. Na organização da Festa das Famílias, excedeu-se na gabarolice, e prometeu que viriam oito mil pessoas de todo o país. Quando apareceram somente sessenta os colegas desconfiaram. E, como é usual nos nossos dias, a mentira sobre as habilitações foi-lhe fatal. É que ele, terminada a Páscoa, não se deslocava a Roma, para concluir os estudos, nem desaparecia por uns tempos para manter a petarola. A vocação era tamanha que não lhe permitia manter-se afastado do seu rebanho. Se um rapaz nasceu com vocação para padre, futebolista, fadista ou cozinheiro, não deve ser contrariado, ou corremos o risco de ter uma população descorçoada, deficitária de formação para lhe colocar o cabresto certo. Que pode um poor boy português fazer? Tocar nos Motosierra “Back in town”.

Não estamos orgulhosamente sós nesta façanha de querer ser outra coisa. Os ingleses também queriam ser australianos. No mês de Dezembro de 2004 os simpáticos criadores de cangurus enfrentaram uma situação de perigo eminente nas águas do golfo Pérsico. A fragata HMAS Adelaide efectuava uma operação de rotina de revista ao cargueiro MV Sham quando foi rodeada por cinco barcos da Guarda Revolucionária. Ninguém sabe o que os iranianos armados de lança granadas queriam. Nada de bom conforme consta do manual de guerra daquela zona. Os australianos não se enrascaram e, segundo as palavras do comodoro Steve Gilmore, com “linguagem colorida” e “táctica agressiva” resolveram o conflito sem disparar um tiro. Os marinheiros num confronto de quatro longas horas de palavrões, manguitos e o universal the finger, e claro robustas nádegas ao léu como os escoceses de Mel Gibson, no filme “Braveheart”, puseram os iranianos a fugir com o rabo entre as pernas. Os media ingleses, atrasados como sempre, tomaram conhecimento deste episódio bélico este mês, e Fleet Street parangonou em uníssono. Queriam saber porque não aprenderam com os patrícios de Crocodile Dundee, quando a sua Marinha se viu envolvida num incidente semelhante, e quinze marinheiros foram parar nos calabouços e televisão iranianos. Não compreendiam como a soldadesca de Sua Majestade não estava na posse desta arma para afugentar iranianos. O resultado desta desvantagem nos apetrechos castrenses prejudicou o prestígio da Royal Navy. Os marinheiros australianos foram condecorados com medalhas pelos seus sonoros “motherfucker” e “son of a bitch”. E os britânicos vieram para casa com sacos de presentes de Mahmoud Ahmadinejad, que não dá direito a parada militar nem a deslocação da rainha para amedalhar os valentes da armada. Os ingleses não gostam de perder nem nas corridas de galgos. Entraram na coligação para adornar as cabeças com folhas de louro e não porque o seu primeiro-ministro era um cabeça oca. Mas, se aprofundamos esta ânsia de querer ser outro, concluímos que os soldados australianos e ingleses anseiam por ser americanos. Amalgamados nas Forças de Coligação não podem fazer um “esquerdo, direito, esquerdo, direito” sem pedir autorização ao general americano de serviço. Se fossem americanos poderiam dar ordens, eles próprios, como o sargento Hartman, do filme “Full metal jacket”, de Stanley Kubrick, e tocar “Rock song” como as manas do grupo Smoosh.

Os portugueses querem ser engraçados. Eis uma nova moda! Os comentários jocosos zicham como candidatos à Câmara de Lisboa. Primeiro foram os cidadãos. Fernando Charrua é retirado do seu confortável gabinete da DREN por ter galhofado para um colega-amigo: “somos governados por uma cambada de vigaristas e o chefe deles todos é um filho da puta”. É uma frase tão geral que abarca todos os Governos, excepto o de Salazar, onde dizem eram todos filhos da puta. Maria Celeste Cardoso, directora do Centro de Saúde do Minho, é exonerada por não ter retirado um cartaz com comentários piadéticos sobre o ministro da tutela, Correia de Campos. Depois é o próprio Estado contribuíndo para a jocosidade geral. Manuela Estanqueiro, professora com leucemia, é obrigada a regressar ao serviço para morrer no posto como o comandante da guarnição do forte da Mina. Artur Silva, professor com cancro na traqueia, é considerado apto para leccionar. Perante a recusa da Caixa Geral de Aposentações em conceder-lhe a reforma, ainda tentou uma audiência com o director instituição, mas os altos funcionários do Estado são pagos para gerir e não falar. No entanto, a ministra da Educação jurou a pés juntos que ele morreu feliz, pois a escola Alberto Sampaio, de Braga, garantiu-lhe todas as condições humanas. Um país magro intelectualmente, como um pau de virar tripas, não pode ser jocoso. Porque enlameia o moral e o trabalho dos relações públicas, que exsudam a camisa Victor Emmanuel, para avivar a optimista geração “Portugal! Portugal!”. Aceitar comentários jocosos seria voltarmos aos tempos derrotistas do “isto é Portugal!”. Seria entregar o país aos anarquistas. (Não acreditamos que não exista um em cem e vivam em Espanha como cantava Léo Ferré em “Les anarchistes”).

6 Comments:

  • At 1:56 da tarde, Blogger Armando Rocheteau said…

    Mais uma vez surrapiei-te um texto.
    Abraço

     
  • At 12:59 da manhã, Blogger GPC said…

    O grande matemático Lagrange, ao ter conhecimento da execução do seu amigo Lavoisier, comentou amargamente: "Bastou um instante para cortarem aquela cabeça mas a França é capaz de não conseguir produzir outra igual nem daqui a um século."
    Marat, em Janeiro de 1791, escreveu n'O Amigo do Povo:
    "Denuncio-te, Corifeu dos charlatães, Sieur Lavoisier, Arrematante Geral [dos impostos], Comissário das Pólvoras... Pensar só que este homenzinho desprezível que desfruta de um rendimento de quarenta mil libras não aspira senão à fama de ter aprisionado Paris com uma muralha que custou aos pobres trinta milhões... Prouvera aos céus que ele fosse enforcado no candeeiro mais próximo."

    Diz-se que Coffinhal, o juiz que lhe decretou o destino, lhe negou o pedido de uma ou duas semanas para concluir algumas experiências, dizendo: "La République n'a pas besoin de savants! (A República não precisa de cientistas).

    Tudo no livro " A Feira dos dinossáurios - de Stephen Jay Gould, no cap. 24, "A Paixão de Antoine Lavoisier".
    ---
    E a quem porventura se perguntar "Mas porque é que pôs isto aqui?", responderei: "Porque me apeteceu."

    cumprimentos.

     
  • At 10:40 da manhã, Blogger Táxi Pluvioso said…

    Marat tinha razão. Os impostos têm este efeito nas pessoas. Mesmo nas repúblicas muito democráticas parece que estamos a sustentar vadios. (Suponho que será uma ilusão óptica).

    E a resposta do juiz é muito boa. Também eu não acredito que os sábios sirvam para alguma coisa.

     
  • At 1:23 da tarde, Blogger AChata said…

    "... night club aonde Miles Davis e John Coltrane tocam juntos para a eternidade)."

    Se acreditasse que somos algo mais que material para reciclar e que iriamos para algum lado quando morremos não me importava de ir para lá fazer-lhes companhia.


    "o padre João Luís Amorim, "

    Mais um perigoso malfeitor apanhado pelas teias da lei.

    Quando será que o pessoal percebe que o crime só compensa quando dá lucros acima do milhão (quando deixa de ser roubo e passa a desvio de verba)?

    É claro que ajuda se, como preparação, tomar algumas medidas:
    -filiar-se num dos 'gangs' politicos (só partidos com possibilidade de chegar ao governo ou, pelo menos, uma Camara Municipal) ou futebolisticos (aqui a escolha já é mais diversificada)
    -munir-se de diplomas de cursos e MBA de preferência passados por universidades americanas (mesmo que o mais longe que foi seja a Costa da Caparica) e de citações de economistas da moda.
    -identificar os nomes que realmente interessam (a quem vai ter que lamber as botas para conseguir um lugarzito no aparelho do Estado ou na direcção do clube de futebol)

    E nunca, nunca se deixar apanhar a roubar clips do escritório ou a criticar ou a insultar a familia do chefe (do momento) nem mesmo em voz baixa.
    Lembrar-se sempre que o chefe já fez o mesmo percurso.

     
  • At 9:51 da manhã, Blogger Táxi Pluvioso said…

    Se existir inferno, os músicos de jazz daquele tempo, pela música que tocavam, e a vida que levavam, devem lá estar caídos.

    Nas escolas deveriam ensinar métodos para caminhar seguros na perseguição do tacho dourado. Em democracia as coisas não são fáceis também. O caminho está cheio de buracos. E quando menos se espera vem a despromoção ou exoneração. Uma chatice. Depois é preciso começar tudo de novo noutro partido.

     
  • At 12:32 da manhã, Blogger INFORMANIACA said…

    Apresentação do livro "Cabo do Mundo"

    No próximo dia 20 de Julho, na Biblioteca Municipal de Santo Tirso será apresentado pelo escritor e poeta Albino Santos, às 21h30, o livro “Cabo do Mundo” da autoria de Laura Costa.

    Abraço,
    Laura Costa

     

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