Pratinho de Couratos

A espantosa vida quotidiana no Portugal moderno!

domingo, dezembro 16, 2007

Talvez seja o vinho

Não se deita fora uma boa profecia. Há quem pague chamadas de valor acrescentado para recebê-las na voz avelhentada da Maya. Mas, no mundo anterior à invenção das tarólogas da cassete gravada, para ouvir “prognósticos antes do fim do jogo”, era preciso dar aos butes até Delfos, lá para os sítios onde Helena Michaelsen filmou o vídeo de “Don’t Wanna Run”. (Helena Michaelsen foi vocalista dos grupos noruegueses de metal gótico Trail Of Tears. E, de Sahara Dust que, após a sua substituição por Simone Simons, se chama Epica. Actualmente tem o projecto Angel e é vocalista dos Imperia).

Acrísio, rei de Argos, não emprenhava a mulher com um filho varão. Receando o fim da linhagem de Linceu, seu avô e fundador da dinastia, consultou o oráculo do templo de Apolo, situado no sopé do monte Parnaso, na cidade de Delfos (antiga Pytho). As sacerdotisas, sob o efeito de uma grande pedrada, causada pelos gases emanados de uma fenda vulcânica, entravam em transe e desatavam a adivinhar. E, tal como a nossa bruxa chique, as suas previsões eram money in the bank. Logo tiraram as esperanças do monarca. Vaticinaram-lhe que não teria filhos e que um dia seria morto pelo neto. Acrísio tomou precauções para neutralizar a profecia. Fechou a sua única filha, Dánae, ainda virgem, numa torre de bronze, resguardada dos espermatozóides dos homens. Dos homens mas não dos deuses. Zeus, playboy supremo, famoso por atazanar as beldades do Olimpo e da Terra, topou as carnes apetitosas da rapariga, transformou-se numa chuva de ouro e caiu-lhe em cima. Desta união celestial nasceu Perseu. Ninguém finta os velhos cosmonautas. (“The Eldest Cosmonaut” dos Septic Flesh, grupo de death metal grego, fundado em Londres, pelos irmãos Christos e Spiros Antoniou).

Não só os gregos eram malucos por uma boa profecia. No Centro Regional do Porto da Universidade Católica, uma morada de nanicos deuses, ouviu-se a voz cava de uma pitonisa. “Acho que ele vai falhar rotundamente e vai criar bodes expiatórios daqui para a frente. Vai dar cabo da profissão, se o deixarem “ – disse José Miguel Júdice, ex-bastonário da Ordem dos Advogados, para o recém-eleito, António Marinho. “Isso é uma profecia, não é uma crítica. Nem sei sequer se será o desejo dele. Essas pitonisas da desgraça são próprias da história. Não me preocupam” – respondeu o actual zagal dos causídicos. Júdice não embatocou com esta referência pagã. Continuou a profetizar: “desejo profundamente que Marinho Pinto seja o melhor bastonário da história da advocacia portuguesa, mas acho que as suas características não o permitem ser. Deus queria que me engane, que eu não tenha razão”. Sabe-se que também no cristianismo o verniz estala. No caos provocado pelo anticristo, advém o regabofe e os escravos submetem-se. (“Decade Of Therion” e “Slaves Shall Serve” do grupo de death metal polaco Behemoth. Este nome foi retirado do “Livro de Job” e, tal como Leviathan, significa um “animal poderoso”. Therion é referido no “Livro do Apocalipse de S. João” como o anticristo).

Dánae foi escorraçada de casa pelo pai temente da voz do oráculo. Acrísio atirou-os ao mar num caixote de madeira. Zeus, num rasgo de paternidade, ordenou a Neptuno que velasse pela sua sorte. Assim, chegaram à ilha de Séfiros. O governante da ilha, Polydectes, apaixonou-se pelos encantos da jovem mãe. Mas Perseu era um menino da mamã. Não queria homens rondando a alcova da progenitora. Polydectes não teve outro remédio senão mandá-lo numa caça aos gambozinos. Fingiu que ia casar com outra princesa e pediu aos nobres ofertas condizentes. Perseu era um mija na escada, por isso, teve que aceitar o encargo do soberano, que queria a cabeça da górgona Medusa, como presente de casamento, e assim se desencadeia um “Choque de Titãs”. Contra todas as probabilidades a Medusa é decapitada. E, no regresso a casa, o intrépido herói resolve um problema reino da Etiópia, governada por Cefeu e Cassiopeia. A rainha cometera uma imprudência. Comparou a sua beleza à de Afrodite, e, desencadeou a fúria de Poseidon, que enviou um monstro marinho para destruir o país, privando o futuro do Live Aid e de São Bob Geldof. A única salvação era sacrificar a sua filha, Andrómeda, aos apetites vorazes de Ceto. Perseu mata o mostrengo, casa com a princesa e já não volta sozinho para Séfiros. (“I Walk Alone” de Tarja Turunen ex-vocalista da banda holandesa de metal sinfónico Nightwish. Que continuam com Anette Olzon nos vocais).

Pior que um choque de titãs é um choque de coimbrões. E, sendo advogados, assegura cachamorrada mitológica. Eles não combatem pela mão de uma princesa. Eles lutam para ter a princesa Money Money na mão. Júdice caracteriza Marinho sem verecúndia: “é um populista, como populista foi Mussolini, e como populista é Hugo Chávez (…) foi, em parte, eleito por advogados que, estando dentro da Ordem, não querem que outros entrem (…) é um personagem de Balzac, é um Gastignac de pacotilha. Digo isto com tranquilidade e convicção”. Quando atingem o estado w00t, também conhecido como “hurra! hurra! sou podre de rico”, os licenciados em Direito citam umas patacoadas clássicas para demonstrar urbanidade. E, tão cultos ficam, que ouvem Polina Gagarina.

Mas, a balbúrdia instala-se, quando há mais advogados que trabalhadores, e não há dinheiro para enriquecer e citar Balzac ou Moita Flores. Marinho promete combater “a massificação da advocacia” para impedir que Portugal seja uma casa sem pão (para advogados sem razão) e elucida: “na Áustria há um advogado por 4 200 habitantes, em França um por 1 800, e Portugal tem um advogado por cada 380 habitantes. Temos 30 mil advogados em Portugal”. Um para esmifrar dinheiro de trezentos e oitenta portugueses não será um espectáculo para pessoas impressionáveis. Sobretudo porque os clientes mais ricos já têm dono. As pessoas de menores posses terão de ser assoladas com tramóias dos serviços do Estado para recorrerem ao Sr. Dr. em leis. Choverão multas, cobranças indevidas de impostos, acusações gratuitas, proibições disparatadas, interdições achatadas e outras pragas “legais”. Uma autêntica sangria, como no “Blutsturm Erotika”, dos Belphegor, os “Hell’s Ambassador” da Áustria. (Belphegor, talvez do assírio Baal-Peor, é um demónio que alicia as pessoas ensinando-lhes esquemas marados para ficarem podres de ricas e depois papa-lhes a alma).

Os legisperitos construíram a sua estrada de tijolos amarelos. Na quinta-feira passada Lisboa parou para o eléctrico azul apinhado de dirigentes europeus passar. Assinaram o Tratado com canetas de prata. Um souvenir of Lisbon que todos levaram para os seus países. Orgulhosos por ultrapassarem a crise institucional, agora são unânimes que acharam o seu KISS (acrónimo de “keep it so simple”, conceito da Sony, para as suas máquinas). Daqui para a frente, gerir a Europa, será mais fácil que abrir uma lata de conservas. Finalmente, poderão dedicar-se à Segurança e à Economia. É difícil perceber donde vem tanto entusiasmo. Talvez seja o vinho. Quem bate assim não é água certamente. O almoço, servido aos convivas no Museu dos Coches, foi fornecido pelo grupo de catering Casa do Marquês. Constava sopa de tomate, cataplana de peixe e marisco, ananás dos Açores, café e pastéis de Belém. Para empurrar tudo isto vinho branco ribatejano da Quinta da Lagoalva. O brinde especial, feito com vinho do Porto de 1957 e Cavaco Silva a falar inglês, aumentou o teor de álcool no sangue. Gordon Brown, o escocês jocoso, apareceu mais tarde para tomar café, provar o pastel de Belém, assinar numa mesa dourada e mais uns drinks para festejar. No departamento cultural, os ouvidos dos “políticos missão cumprida” enriqueceram com as habituais musiquinhas, de compositores classificados, embora preferissem as russas Valeria ou Viktoria Kolesnikova.

Uma festa regada com qualidade solta a confiança, mas não é suficiente para esquivar os deuses, ou driblar a sorte macaca. Existem infinitos exemplos de tratados que deram com os burros na água (apesar do vinho bebido nas comemorações). O mais famoso foi Tordesilhas. Este orgulho nacional não passou de um arranjinho entre dois países papistas e o Papa de Roma. D. João II, os reis católicos de Espanha e o Papa Júlio II assinaram mas ninguém ligou, nem os ingleses ou holandeses, nem sequer os próprios assinantes. As riquezas das terras desconhecidas e as descobertas de Cristóvão Colombo tornaram-no anacrónico. (O desconhecido Tratado de Madrid, assinado em 1750, é muito mais importante, pois reconhece que as coisas ficam como estavam). Passado o efeito do álcool, talvez assistamos, como extremadas esposas à beira-mar, os políticos partirem na demanda de novos prodígios. (“Farwell Proud Men”, dos Leaves’ Eyes, banda germano norueguesa de metal sinfónico).

5 Comments:

  • At 1:52 da tarde, Blogger Armando Rocheteau said…

    Como sempre acutilante nos passeios pelas nossas mitologias.
    Espero que não falhes o jantar de 21.

     
  • At 4:02 da tarde, Blogger manuel said…

    "chuva de ouro"...

     
  • At 5:16 da tarde, Blogger Táxi Pluvioso said…

    Eh pá, não sei se posso ir ao jantar. Fui atacado pelo vírus da gripe. Veremos como fica este wrestling.

    Também estranhei a forma que Zeus assume, até estive para escrever chuva dourada, mas depois mantive o metal precioso. Os deuses não tinham necessidades humanas.

     
  • At 3:27 da tarde, Blogger Ana Cristina Leonardo said…

    In vino veritas, mas só às vezes

     
  • At 2:38 da tarde, Blogger Táxi Pluvioso said…

    Pois é. Se houvesse alguma verdade no vinho, os portugueses eram o povo mais sábio do mundo. Mesmo com a concorrência do bagaço e dos shots.

     

Enviar um comentário

<< Home