Pratinho de Couratos

A espantosa vida quotidiana no Portugal moderno!

domingo, agosto 26, 2007

Sociedade evoluída

Belas, desportivas e fofinhas, as suas façanhas, na neve, no mar ou no sofá fazendo trrimm trrimm, arrebataram o país do telefone + televisão. Mas, Joana, Rita e Teresinha, as viçosas moçoilas da TV Cabo, deram mais à cultura nacional, que telespectadores com mais canais que olhos. São responsáveis pela popularização de mais uma daquelas frases que ficam no ouvido como “Evaristo tens cá disto?”, “oh Ilda! Vais presa? Não! Vou dormir com o chefe”, “e-Oportunidades” ou “com tranquilidade”. Por elas ficamos a saber que “há coisas fantásticas, não há?”. E, de facto, há. E não são verdes. São muito antigas. Tão antigas como as canções de influência medieval (e além) dos Ataraxia.

No século XV, na Europa, atirava-se a Idade Média para trás das costas. O cisma do Ocidente (1378 – 1417) terminara com o concílio de Constança. O pingue-pongue entre Papas (Roma) e Antipapas (Avinhão) atarantava os fiéis que precisam de um única voz do dono. O Vaticano venceu. E assume o direito de apresentar, em exclusivo, a música da nova era que nos legou perspectivadas pinturas, desnudas estátuas e hot hot fogueiras da Inquisição. A eleição de Calixto III dá novo fôlego à Cristandade. (Afonso Borgia de sua graça. Papa entre 1455 – 1458. O primeiro Borgia na cadeira de São Pedro que abre as portas das mordomias para os sobrinhos Luís Juan e Rodrigo. Este, também Papa, com o nome de Alexandre VI e pai, entre outros, de Lucrécia e César). Na sua excomunhão do cometa Halley, em 1456, Calixto III introduz na Ave-Maria a seguinte oração: “Senhor, livrai-nos do diabo, dos turcos e do cometa”. O piedoso pontífice entendia esta nova passagem do cometa como um mau presságio para o destino da Europa sob horripilante ameaça de se transformar num degoladouro otomano. A traumática queda de Constantinopla dera-se no ano de 1453. Em 1456, o exército de Mohammed II cercava Belgrado, na altura considerada a porta de entrada para o domínio da Europa central. Calixto III convoca uma Cruzada para conter os infiéis. Contra os quais já se tinham realizado oito, a última no século XIII, mas Calixto III fiava-se, tal como Britney Spears, que tinha arcaboiço para “… Baby one more time”.

Mais uma vez era demais. As cruzadas estavam definitivamente fora de moda. A diplomacia e o comércio davam lucros mais duradoiros e menos fatigantes que a espadeirada e os saques. Porém, para os lados da Sérvia as coisas estavam negras. Quando os calos começaram a apertar Belgrado grita por socorro ao reino da Hungria. E por lá apareceu o regente, János Hunyadi, para derrotar os turcos. Na Batalha de Belgrado (1456), a nova reza do Papa originou um fantástico episódio de guerra. Consta na sua descrição que “os franciscanos, desarmados, crucifixos nas mãos, estavam no pelotão da frente, invocando o exorcismo papal contra o cometa”, e o consequente mal que este acarretava para as chusmas cristãs europeias – o sanguinolento turco. Não explica o relato qual a consequência desta temerária atitude. Sabendo que a Cruz é mais poderosa que a cimitarra, não é difícil de adivinhar os turcos caindo como tordos, esturricados pela verdadeira Fé. Contudo, pode ter sucedido doutra forma. (A História também tem coisas fantásticas). A excomunhão do cometa surge numa biografia póstuma de Calixto III, divulgada no século XVIII pelo matemático francês Pierre-Simon Laplace, e não tem o beneplácito dos historiadores. Não encontraram traços deste insólito esconjuro nas bulas papais. Também não admira. A História não é uma ciência. É um pretensioso compêndio dos irmãos Grimm. Um conjunto de contos com a mania que são “verdadeiros”. (Pela atmosfera psicadélica da época, muitos, historiadores e outros, ainda hoje, se perguntam se os Mountain estiveram em Woodstock, em 1969).

Na Península Ibérica, a voz do Papa era bebida como um vinho de reserva. Com reverência e respeito. O rei mais entusiasmado com a Cruzada de Calixto III foi, claro… português. D. Afonso V responde ao chamado do pastor de Roma e promete contribuir com 12 mil homens para combater os turcos. Meu dito, meu feito. Entretanto, Calixto III morre e a Cruzada fica em águas de papas de trigo (o bacalhau ainda estava longe do prato e dos adágios populares). Os conselheiros do rei fazem um brainstorm, que na altura tinha o longo nome de “vamos apaparicar o rei para não ficar sem a cabeça”, e optaram por enviar o exército para o norte de África, pejado de infiéis para trucidar e praças para conquistar. E, ainda por cima, lá estavam os ossos do tio Fernando, o Infante Santo. D. Afonso V era um idiota. Foi o rei que mais tempo governou esta caranguejola e aquele que menos fez. Durante 49 anos ocupou o trono e apenas mandou construir o convento de S. António de Varatojo, Torres Vedras, inaugurado em 1474, e onde ele viria a falecer em 1481. De resto, as campanhas africanas foram um sucesso, como tudo aquilo que os portugueses fizeram, fazem e farão. Elas valeram ao monarca o cognome de… o Africano. Mas fantástico, fantástico é um país governado desde sempre por “coninas” e “envoltos em nevoeiro” ter a capacidade se ser tão grande. Tão grande que não tem bonecas insufláveis nas piscinas, como dizem os Roxy Music, em “In every dream home a heartache”, mas tem casas de família com volumosas cachopas, felizes, acasaladas com laboriosos moços, e unidos pelos quarto efes da nossa ilustre época – Fátima, Fado, Futebol e Fumeiro.

Tempos rudes. A quantidade de autoridade de cada um dependia do seu lugar social. De uma sociedade disposta segundo a vontade de Deus (logo as pessoas nasciam no seu sítio). O Papa ocupava o cimo da hierarquia, por comunicar directamente com o Ordenador do mundo, e delegava o poder terreno no Rei. Depois seguia-se toda a falange, por aí abaixo, até ao mais vil Jean-Baptiste Grenouille, parido entre as tripas de peixe. Cada cidadão sabia do seu lugar, e ninguém mandava papaias fora da sua classe, sem ficar com as marcas da desobediência impressas no corpo. Mas eis que surge o expoente máximo da Civilização, as sociedades democráticas, onde teoricamente as capacidades físicas e intelectuais de cada um são factores para determinar a sua posição social. (O busílis é que nascer numa família rica e poderosa conta, como favas contadas, para as posições superiores). As técnicas de controlo social têm que acompanhar a mudança. Já não podem ser baseadas na força bruta mas na persuasão. É preciso convencer as pessoas que os seus actos são produto do livre arbítrio e, no entanto, controlá-las para que façam aquilo que deve ser feito. Para que satisfaçam os novos donos e não andem por aí a parvoejar, reivindicando salários para comer, e reformas por causa de cancros. Actualmente, as técnicas de controlo e sugestão estão tão sofisticadas, que é possível convencer um cidadão, consumidor e eleitor, a ser o seu próprio animal de estimação – como o grupo punk Be Your Own Pet em "Damn damn leash".

Edward Bernays é o mestre da manipulação e considerado o fundador das Relações Públicas. Nascido em Viena, sobrinho de Freud, (o pai é Ely Bernays, irmão de Martha Bernays, mulher de Freud), vai usar as descobertas do tio, no âmbito do funcionamento do inconsciente, para controlar as pessoas. É sua a frase que condensa toda a essência do agir democrático: “a consciente e inteligente manipulação dos hábitos organizados e das opiniões das massas é um factor importante na sociedade democrática”. E o seu maior feito foi mudar os hábitos alimentares americanos. Na altura, o american breakfast era composto por café e torradas. Contratado pelos produtores de bacon para promover as vendas deste porcino manjar, Bernays convenceu o público que, bacon e ovos, era o verdadeiro pequeno-almoço americano. A sua técnica favorita de manipulação da opinião pública consistia no uso indirecto de especialistas isentos. Dizia ele que “se pudermos influenciar os líderes, com ou sem a sua cooperação consciente, automaticamente influenciamos o grupo que eles conduzem”. No caso do mata-bicho americano, ele socorreu-se de um inquérito aos médicos e das suas recomendações para que as pessoas comessem pequenos-almoços substanciais. Mandou o inquérito para 5 000 médicos sugerindo que, bacon e ovos eram um pequeno-almoço substancial, e os médicos, zelosos pela saúde dos seus pacientes, passaram a palavra. O que possibilita aos Supertramp, em 1979, comerem o seu “Breakfast in America” e, em 2007, os Gym Class Heroes, também lhe meterem o dente.

Publicada em 1947 “The Engineering of Consent” é a sua obra mais conhecida. Nela expõe os princípios da “construção do consentimento” como a arte de manipulação de pessoas, massas, consumidores, homens de negócios, cidadãos e governantes. Inventara um método simples de manipulação. Através do conhecimento dos mecanismos psíquicos e motivações específicas de cada grupo é possível levá-los a quererem coisas que não precisam, ligando-as a ideias e a desejos inconscientes. Exemplo disso foi a sua impecável campanha para pôr as mulheres a fumar nos Estados Unidos. No princípio do século XX não era socialmente aceite uma mulher fumar. Foi esta interdição que a campanha de Bernays mudou. Aquilo que as mulheres mais ansiavam na sociedade da altura era Poder (alteração da sua posição social) e Liberdade (económica, política etc.). Utilizando o seu método Bernays associou o acto de fumar a estes dois desejos. Em 1920, Bernays trabalhava para a American Tabacco Company com o objectivo de aumentar as vendas do tabaco. Para incluir as mulheres no grupo dos consumidores de cigarros organiza um desfile de modelos nas ruas de Nova Iorque. Telefona à imprensa insinuando que um grupo cívico de defesa dos direitos das mulheres ia acender as “tochas da liberdade” nas ruas. Quando o quadro está composto faz um o sinal e as modelos acendem cigarros Lucky Strike. As câmaras dos fotógrafos fizeram o resto. Fumar torna-se sexy. Não só o acto de fumar perdeu o seu anátema de comportamento impróprio de uma mulher decente, como fazê-lo em público deixou de escandalizar. Sem Bernays muitas actrizes de Hollywood não teriam tanto sucesso nas suas actuações. Sem ele o carro não teria mais valor que a esposa, o laptop que os filhos e os ténis Nike que o canário. Hoje amamos os produtos de consumo. A lenitiva sanita, a sabichona estante de livros, o apetitoso frigorífico ou a aconchegada cama são espelhos da nossa felicidade. Nunca nos passaria pela cabeça rebentar os nossos queridos objectos como no vídeo “Gangster trippin’” do Fatboy Slim.

domingo, agosto 19, 2007

Entrementes, no farol do Ocidente

Por causa dos velhos o império azteca lixou-se. Montezuma II (1466 – 1520) foi eleito imperador em 1502. Naquelas bandas, a escolha dos imperadores não cumpria a linhagem sanguínea, como na Europa. Eram designados por um conselho de sábios após provarem ferocidade em combate e religiosidade acima da média. Depois de elegidos, ninguém mais podia olhar-lhes nos olhos, nem terem contacto com o povo. O seu poder era ilimitado, com um pequeno senão: os deuses mandavam mais do que eles. (Questões de hierarquia, não de pouca importância, para determinar quem puxa dos galões e quem baixa a bolinha. Os americanos, “donutizados” e “hamburguerizados”, insistem em chamar “rei” do Rock ‘n’ Roll ao filho de Gladys Presley mas, se isso fosse verdade, e não a costumeira estratégia para vender porta-chaves e canecas com a cara de Elvis, então Bo Diddley é um deus).

Como os seus antecessores, Montezuma, ocupava um trono emprestado. Segundo as profecias, Quetzalcoatl, o grande deus das barbas brancas, voltaria um dia à terra dos mexicas para reclamar o seu império de volta. Durante o ritual do “novo fogo”, realizado no final de cada ciclo do calendário, os sacerdotes reuniam-se no monte da Estrela para procurarem sinais do fim da civilização no céu. Se as Plêiades atravessassem a noite escura sem o mundo acabar, anunciavam que Tonatiuh, o deus sol, brilharia resplandecente no dia seguinte. E havia folia religiosa da grossa, com um sacrifício humano para garantir um novo sol e o recomeço da vida. Ao contrário dos deuses gregos, os azetecas detestavam ambrósia, alimentavam-se de sangue, especialmente dos órgãos genitais. E eram bons garfos. Não exigiam apenas mesa farta de sangue de guerreiros. Em cada vintena de dias eram sacrificadas mulheres e crianças para lhes matar a fomeca. (Todavia, durante o reinado de Montezuma, o império viveu tempos de paz e, na falta de prisioneiros para sacrificar, criaram as guerras florais). Em suma, eram deuses modernos, como aqueles que formaram a base da cultura Ocidental, (o deus de Israel e a sua sucursal pobretanas, o deus cristão), documentado pelos cronistas do cristianismo, os noruegueses Gorgoroth – este nome é retirado do Planalto de Gorgoroth, da saga de J.R.R. Tolkien, lugar onde se produziam as armas da terra de Mordor para a guerra dos anéis.

O nono imperador azteca não tinha um carácter optimista como Cavaco Silva. Ele era um fatalista. Os aztecas adoptaram o calendário tolteca que dividia o tempo em ciclos de 52 anos. Ao fim deste período o mundo poderia ser destruído e renovado. (Esta noção de tempo vem da observação da passagem constante, de 52 em 52 anos, das estrelas Plêiades). Conforme a lenda quatro sóis foram destruídos, Montezuma vivia na época do quinto sol, e acreditava piamente na realização nesta catástrofe cósmica. Todas as manhãs ia ao templo maior oferecer o seu sangue aos deuses. Cobria-se de pó negro e feria a carne com um espeto. Mas os deuses jogavam outros dados. Certo dia dois cometas cruzam o céu em órbitas convergentes parecendo encontrarem-se. Ele entende isto como um sinal. Convence-se que os seus dias terminaram e Quetzalcoatl estava próximo de reivindicar o trono. Montezuma teve azar. Em 1519, precisamente um ano de fim do mundo no calendário azteca, do lado do mar, veio Hernan Cortés de tez branca e barbudo. A confusão foi inevitável. Aquele era Quetzalcoatl e entrega-lhe o império de mão beijada. Cortés partira de Havana movido pelos três desejos de qualquer espanhol da altura: conseguir ouro, almas cristãs e glória. E faz um figurão na História, com seiscentos soldados, um notário, dois frades franciscanos e uns cavalos, conquista um dos maiores impérios de todos os tempos. A morte de Montezuma não é consensual. Para o cronista espanhol, ele morreu das feridas resultantes do apedrejamento pelo seu próprio povo, no dia 26 de Junho de 1520. (O ano de 1519 termina e o mundo não acaba, é provável que os súbditos duvidassem da profecia e do carácter divino do imperador, e o olhassem como um simples mortal, logo candidato a umas pedradas). Para os mexicanos, ele foi morto por Cortés, quando perdeu o seu poder e deixou de ter valor para os espanhóis. Uma coisa é certa, ele não se converteu ao cristianismo e, também, não aprendeu uma lição valiosa – que não se deve confiar em velhos (Cortés rondaria os 33 anos), mesmo que sejam deuses encanecidos e sábios como Quetzalcoatl. Mas nem tudo foi mau. A capital do império, Tenochtitlán, foi arrasada para dar lugar à Cidade do México. Uns anitos mais tarde lá chegarão os Therion louvando Quetzalcoatl.

“Não confies em ninguém com mais de trinta anos” é uma das célebres frases de Jerry Rubin. Juntamente com Abbie Hoffman é o fundador, em 1967, do Youth International Party (YIP). Os seus membros intitulam-se Yippies, e representam a parte politizada da luta entre jovens e velhos (estudada no conceito sociológico de “conflito de gerações”) na América dos anos 60. O YIP é um partido diferente. O seu programa é um conjunto de folhas em branco. Lutavam contra o “establishment” (não traduzo por causa do Dias da Cunha mas designa a situação político-económica americana vigente). O YIP e outros movimentos contestatários convocaram uma acção política contra a Convenção Democrática de Chicago de 1968. Chamaram-lhe Festival da Vida. No primeiro dia do festival, 23 de Agosto, no Centro Cívico, o YIP apresenta o seu candidato à Convenção – um porco chamado Pégaso, o imortal. Mal acabam de comprar o porco são presos por conduta desordeira. No Parque Lincoln, membros do YIP dão aulas de artes marciais e de dança. Richard Daley, o presidente da Câmara, impõe um recolher obrigatório às 23:00 horas, para impedir os manifestantes de dormirem no parque. No dia 26 de Agosto, Jerry Rubin e Abbie Hoffman incitam os manifestantes a permanecerem no parque. Cantam, dançam e fazem aquelas coisas de influência oriental em moda naqueles tempos “hippiecos”. A Polícia não se comove com cantigas e ataca. Rebenta uma porrada das antigas transmitida pela TV. A América idosa, no conforto do sofá, não acreditava na violência da Polícia contra os seus jovens. Nos dois dias seguintes as coisas pioraram. Manifestantes e jornalistas eram corridos à bastonada e a granadas de gás lacrimogéneo. A coisa estava tão feia que Allen Ginsberg entoou um dos seus cantos “aum” (sílaba vinda das religiões indianas – budismo, hinduísmo etc.) para afastar os manifestantes da bófia. Nos anos 60 chamavam aos bófias “pigs” e, na década de 90, os Body Count só tinham o abate como tratamento para eles em “Cop Killer”.

Oito mentores do evento foram presos e acusados de conspiração contra o Governo e de provocar motins. No dia 4 de Setembro de 1969 começa o julgamento presidido pelo juiz Julius Hoffman com a designação legal de “United States vs. David T. Dellinger, et al.”. No banco dos réus estavam: Dave Dellinger do National Mobilization Committee to End the War in Vietnam, Rennard C. Davis e Thomas E. Hayden do Students for a Democratic Society, Lee Weiner, professor de Sociologia, John Froines, químico e membro do SDS, Bobby Seale dos Black Panther Party, Abbie Hoffman e Jerry Rubin. Logo no início do julgamento, Bobby Seale, de pele demasiado escura para ser tomado a sério, espingardou para o juiz umas tiradas políticas. É expulso da sala, condenado em quarto anos de cadeia, por desrespeito ao tribunal. A imprensa irónica começa a chamar-lhe “os julgamentos dos sete de Chicago”. A sala de audiência transforma-se num circo. Durante cinco meses o juiz recusa-se a ouvir testemunhas importantes e aplica aos acusados, advogados e testemunhas duzentas acusações de desrespeito ao tribunal. Jerry Rubin, descontente pelo boicote do juiz aos depoimentos, marcha-lhe em frente da bancada fazendo a saudação nazi aos gritos de “fascista” e “tirano”. No final é condenado a cinco anos de prisão mas levou a sentença na desportiva. Explica ao tribunal que aquele era o dia mais feliz da sua vida e comenta para o juiz: “… você fez mais para destruir o sistema judicial neste país do que qualquer um de nós poderia ter feito”. E presenteou-o uma cópia autografada do seu livro “Do it! Scenarios of the Revolution”. Anos mais tarde Jerry dirá: “a nossa estratégia era dar ao juiz Hoffman um ataque cardíaco. Demos um ataque cardíaco ao sistema judicial, o que é melhor”. O caso fez jurisprudência. O advogado de defesa William Kunstler apelou para o Supremo, que anulou a sentença, depois de verificar as patacoadas do juiz Hoffman, e emitiu uma lei limitando o poder dos juízes nas declarações de desrespeito pelo tribunal. Muito choram os Estados pela juventude. Venham eles para renovar a população no trabalho e nos impostos, dizem. Mas enquanto essa doença não se cura com a idade, prevenir desacatos e desvios, com um controlo mais adequado da mente, é a melhor solução, como cantam os My Chemical Romance em “Teenagers”.

Terminada a guerra do Vietname, a contestação nos Estados Unidos muda. Jerry Rubin passa a trabalhar com John Lennon e Yoko Ono. Lennon desafia-o para tocar bateria em “Imagine” mas Jerry acobardou-se com a responsabilidade e declina o convite. No entanto, chegou a tocar tamborins quando John e Yoko actuaram no teatro Apollo. Os antigos revolucionários tiveram mais uma ocasião para contestar quando John Sinclair, presidente dos Panteras Brancas, foi condenado a dez anos de cadeia pela posse de dois charros de marijuana. Perigosa droga que conduz as raparigas ao banho de mar despidas, os rapazes à loucura, e ambos ao jazz, como bem documenta este evoluído (para a época) filme de 1936. No dia 10 de Dezembro de 1971, Rubin participa com Lennon nos concertos de solidariedade pela libertação de Sinclair, chamados com propriedade, Ten for Two. A mobilização teve sucesso. Sinclair será libertado dois dias depois.

Os velhos são efectivamente trapos. Se nas sociedades de tradição oral são receptáculos da sabedoria, nas sociedades industriais são um estorvo. A classe política americana é mais velha que Matusalém (patriarca hebreu que viveu 969 anos), e o seu comportamento é ainda mais antigo. Ultimamente deu-lhes para assegurar que o próximo inquilino na Casa Branca seja um político de cérebro musculado do modelo Rudy Giuliani. Esse objectivo atinge-se acagaçando uma população crendeira e que substituiu os bancos da escola pelos filmes de Hollywood. A imprensa publicou um relatório da National Intelligence Estimate afirmando que a al Qaeda, no famigerado santuário das zona tribais, na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, recuperou a sua capacidade operacional para atacar outra vez, tenta introduzir militantes nos Estados Unidos e procura comprar armas químicas, biológicas e nucleares. O Senado decide, por 87 votos a favor e um contra, duplicar o preço pela cabeça de Ossama bin Laden, aumentando o prémio para 50 milhões de dólares. Por milagre uma cassete de 40 minutos foi apreendida antes de chegar aos sites islamistas. Intitulada “A special surprise from As-Sahab. Heaven’s breeze part I” contém 50 segundos de um discurso de bin Laden sobre a importância do martírio. O discurso é muito antigo mas assusta. Entrementes, Rudy Giuliani desdobra-se em declarações harmonizadas com o clima: “não é do interesse dos Estados Unidos, neste momento, quando está a ser ameaçado por terroristas islamistas, patrocinar a criação de outro Estado que apoiará o terrorismo”, diz ele sobre o estertor de Condoleezza Rice para dar pulinhos na teoria dos dois Estados. E continua Rudy de peito inchado: “os teocratas que governam o Irão têm de compreender que podemos agitar, tanto o pau, assim como a cenoura, sabotando o apoio popular do seu regime, prejudicando a economia iraniana, enfraquecendo o poder militar, e se tudo falhar, destruir a infra-estrutura nuclear”. É Verão. O êxito musical do estio tarda em aparecer. Melhor será proteger-nos debaixo da “Umbrella” de Riahnna.

quarta-feira, agosto 08, 2007

Preparar terreno

Na bagageira dos ideólogos da felicidade terrena está um esqueleto teórico que promete pinotear a Humanidade para dentro do Paraíso. Tão bom que Deus, na sua badalada omnisciência, aplicava-o no Paraíso primevo. Lá, os seus três habitantes – Adão, Eva e a serpente – viviam em salutar concorrência pelos frutos, secos e molhados, sem outra preocupação, excepto chegar primeiro, num agarotado jogo do “quem apanhar, comeu”. Deus não tem tubo digestivo, só tonitruante boca para ordenar, e não participava deste campestre folguedo. Ele vivia nas águas-furtadas e limitava-se a zelar para que os participantes do original ménage à trois tivessem as mesmas oportunidades de meter a mão na fruta. Velava pela prossecução da felicidade individual neste Éden económico, proporcionando segurança, entidades reguladoras, financiamento na hora, concertação social e possibilidade de crescimento infinito. Deus era um liberal! (Sem nunca ter sido uma boneca de Nova Iorque, nem nunca ter estado “Looking for a kiss” em Wall Street, como os New York Dolls que procuravam beijos no céu e na terra em sapatos de salto alto).

Apesar daquele bem bom ter finado num feio drama de suor e dor (Adão foi trabalhar e Eva parir filhos com gritos e ranger de dentes). Mesmo que Deus não tivesse optado pela deslocalização, mas fechado portas, e os seus vindouros investimentos serem uma incógnita. … Continuaram a chamaram-lhe liberalismo económico, como já tinham chamado Trinità ao Terence Hill. (Um cowboy insolente, “mão direita do Diabo”, que aventurava no Oeste com o seu meio-irmão grandalhão, alcunhado Bambino, e que se alimentava de pratadas de feijões). Estas personagens de western-spaghetti, rodado na Cinecittà, Roma, e em Almería, Espanha, serão porventura uma boa imagem desta alogia gerada em prendados cérebros. Sermos tratados como bambine pelos bertoldos dos Institutos Superiores e Universidades não é novidade para ninguém. Mas porem-nos a feijões será o nosso futuro. Podia ser melhor, concordo. Podíamos ir maluquinhos para o campo, onde as cobras na relva são grátis, como os Bow Wow Wow em “Go wild in the country”.

Em termos corriqueiros classifica-se o liberalismo como um sistema de mercearia. Porque apenas funciona entre quitandas. O “xitolo” do Sr. Almeida da esquina vende o feijão mais barato que a cantina do Asdrúbal do largo. Este por sua vez mantém os clientes vendendo o arroz num preço em conta. O minimercado do indiano Jamil consegue vender tudo mais barato, mas a sua clientela vem dos subúrbios, não entra em concorrência directa (excepto, próximo do apertado final do mês) com o Sr. Almeida e o Asdrúbal. Neste edílico teatro oferta e procura equilibram-se para contento de todos. Mas certo dia o Sr. Azevedo, enricado no negócio dos paus para canoas e financiado pelos Bancos, abre um estabelecimento iluminado de néon que todos fascina, com preços imbatíveis, deixando os outros a ver a colecção Berardo (tão bom como ver moscas). Quando a actividade económica atinge este ponto, o capital concentra-se nas mãos de poucos (ou de um e séquito) e adeus minhas encomendas, adeus livre concorrência, adeus prosperidade geral. David Ricardo, judeu de nascença, tornado quaker através do casamento, readquire no tálamo conjugal a fé na intrínseca bondade humana. Ele acreditava que a acumulação de riqueza seria uma consequência da economia de mercado, mas confiava na generosidade dos mercadores para distribui-la. Não lhe passava pela cachimónia que os ouvidos dos mercadores pudessem endurecer aos ensinamentos cristãos de partilhar pelos pobres e desprotegidos. Não previra a maleita tio Patinhas. Que alguém fosse capaz de procurar a riqueza pela riqueza. Que, depois de embornalada a moedinha Nº 1, nem a maga Patalójika conseguiria impedir o fluxo que enche o cofre, donde não sai um tusto, nem para os chupa-chupas do Huguinho, do Zezinho e do Luisinho. E que a população mundial se escarranchasse em exploradores e explorados. Uns querendo tudo. Os outros querendo. Uns tendo tudo. Os outros aguardando a velhice para terem óculos e dentaduras. (A revolução social tarda em aparecer mas com os Battles ela está na música. Tocam como se houvesse uma verdadeira explosão na cozinha).

Para alguns o liberalismo é um metuendo regime. Temem que o lençol da riqueza produzida no mundo puxado unicamente para um lado destape os pés no outro. Os países pobres, que entraram tarde e a más horas nas delícias do comércio livre, talvez se deparem com uma concorrência desleal. O mercado estará ocupado por empresas com lucros superiores aos seus PIB, geridas por executivos vestidos com camisas cinco vezes os seus salários mínimos, e os países ricos subsidiam as produções nacionais (desde o leite à vaca). Mas Portugal não grafita nessa parede. Estamos no pelotão da frente, liderados por esse camisola amarela do Governo, o ministro da Economia. Como sabem devemos-lhe a histórica declaração de Aveiro/Outubro 2006. Considerado por muitos o acontecimento século. (O século ainda vai no adro mas os especialistas prevêem que não será superado). Manuel Pinho declarou “a crise acabou” resta saber “quando é que a economia portuguesa vai crescer”. Parecerá contraditório aos espíritos lógicos e pateta aos outros. Coitados, não têm o dom da visão estereoscópica que junta no cérebro o sol com a praia e obtém um Verão azul. O présbito ministro pertence ao raro grupo dos que enxergam ao longe o Paraíso. Manuel Pinho é uma estação elevatória do moral nacional. Com ele não nos faltará feijão e… felicidade. Com Pinho desaparecerão os deprimidos, e também o “Suicide chump”, (os que tentam o suicídio e falham), do blues de Frank Zappa.

Na crónica de uma feijoada anunciada não poderia faltar o merceeiro. Decerto uma figura fulcral do Estado Novo. O seu rol é mítico. Adiou a fome a muitas famílias. E regressará no novo Estado para nos vender as sementes do nosso contentamento. Voltar ao rol do merceeiro não é mau. Portugal tem uma longa tradição de pedir fiado e comer feijão, nos dias de larica, sabe a McRoyal Deluxe com batatas fritas e Fanta. Os novos portugueses lavados, barbeados, instruídos, competitivos (e até científicos) preparam-se para viver sem a asa protectora do Estado. Este prepara-se para viver sem a gestão dos seus serviços lucrativos privatizando tudo o que der cacau, e o dinheiro dos impostos e das multas serão as suas únicas fontes de rendimento. E vamos bem lançados. Os radares colocados pela Câmara de Lisboa rendiam, nos primeiros dias, 240 mil euros por hora. É para salvar vidas, dizia o então presidente Carmona. A Polícia Municipal trabalhava a todo o vapor para dobrar as multas e metê-las nos envelopes. A ex-vereadora do pelouro, Marina Ferreira, dizia que a solução dos radares “não é um investimento para rentabilizar a Câmara de Lisboa” e justifica-se acrescentado que somente uns magros 30% vão para os cofres da autarquia o resto bolo vai para o Estado. António Costa topou logo o maná e promete tolerância zero. Claro que acreditamos nas boas intenções dos políticos em nos proteger. As explicações para a colocação dos radares são convincentes. Excluem como objectivo principal o vil metal. Colocá-los nas rectas, onde os aceleras fazem por sistema o gosto ao pé, e não apenas nos locais onde se deram atropelamentos mortais, é pura coincidência. Aliás, este tem sido o melhor ano na colheita de multas de trânsito. De Janeiro a Maio renderam 33,1 milhões, mais 11,5% do que no ano passado. E o saque, perdão, a divisão é feita da seguinte forma: 60% para o Estado, 20% para a Direcção-Geral de Viação e 20% ficam para a entidade autuante. Em matéria de impostos também damos cartas. Não faz sentido nenhum privatizar uma empresa estatal que dê prejuízo. Os empreendedores não andam nisto para fazer caridade. É sabido que uma pequena ajuda dos amigos políticos faz milagres no balancete. O Estado passará a cobrar mais 6,4 cêntimos/litro na gasolina e 8,4 cêntimos/litro no gasóleo para financiar a Estradas de Portugal. Depois privatize-se este potentado que embelezou o país de encantador alcatrão. Nesta fúria reformadora para sentar o rabo num Estado moderno, Portugal não faz uma, faz “60 revolutions” como os Gogol Bordello.

O poder global do senhor feijão (Mr. Bean) institui-se. De maneira desajeitada nos países de terceiro mundo mas segura. No México, o Governador do Estado de Jalisco, Emilio Gonzalez, proibiu a distribuição gratuita de preservativos na sua coutada. Afirma ele, cheio de razão, que não cabe ao Estado pagar “divertimentos”. “Não cabe ao Governo pagar cerveja, os motéis, nem distribuir preservativos”. O papel do Governo é vigiar a livre circulação da mercadoria, e nos Estados com preocupações sociais, fornecer receitas de feijão nos programas de culinária na televisão. (Na Venezuela, o programa radiofónico e televisivo de Hugo Chávez, “Alô, Presidente!”, no Domingo bateu o seu recorde de duração. Começou às 11:32 e terminou às 19:15. Foram sete horas e quarenta e três minutos sem qualquer interrupção, para publicidade ou noticiários). No Estado de Jalisco, se perguntassem “Hey Joe” (Jimi Hendrix) para onde vais com essa arma na mão, obteriam imediata resposta: “vou matar a minha mulher que emprenhou de um mequetrefe qualquer”.